Avanços e dificuldades na sala de aula

05 de janeiro de 2021

A crise do coronavírus trouxe uma série de problemas, como o fechamento das escolas. Por outro lado, abriu uma janela de oportunidades, como a inclusão digital no ensino. A opinião é das educadoras Claudia Costin e Lucilia Guerra, em entrevista concedida em outubro ao podcast da revista Problemas Brasileiros.

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Nos últimos anos, o Brasil tem avançado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Manter a trajetória ascendente nos números do Ideb e melhorar cada vez mais a educação brasileira são os grandes desafios para o País no setor, em um cenário pós-pandemia. A opinião é compartilhada por Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e Lucilia Guerra, diretora do Centro de Capacitação Técnica, Pedagógica e de Gestão do Centro Paula Souza (CPS), ligado ao Governo do Estado de São Paulo.

O fechamento das escolas durante mais de seis meses por causa do covid-19 provocou grandes prejuízos a alunos e professores. Além de oferecer o conhecimento didático e ser responsável pelas formações teórica e prática do aluno, a escola também é um espaço de sociabilização e acolhimento de crianças e jovens. “Foi algo terrível, pois elas garantem direitos adicionais ao ensino e funcionam como uma rede de proteção social ao estudante. Se a criança sofre algum tipo de violência, por exemplo, a professora pode perceber antes de outras pessoas”, diz Claudia Costin.

Por outro lado, o isolamento forçado abriu uma janela de oportunidades para o setor da educação, como mais acesso ao ensino remoto e capacitação tecnológica dos profissionais da àrea, apesar de todas as dificuldades enfrentadas para levar o ensino a distância aos alunos, em especial nas regiões mais pobres e remotas.

“As crises enfrentadas pela humanidade são também oportunidades de inovação. O ser humano tem uma capacidade de reinvenção muito grande quando sai da zona de conforto”, diz Claudia, referindo-se aos problemas enfrentados pelas sociedades do mundo todo por causa da pandemia. Isso inclui mudanças positivas no setor da educação e que ficarão como legado. “De uma maneira ou de outra, houve uma inclusão digital maior”, justifica a especialista, citando dados positivos da plataforma digital criada pelo governo estadual do Maranhão durante a crise sanitária.

“Os números mostram que 61% dos alunos do ensino médio da rede estadual maranhense estavam na plataforma digital. Esta inclusão é muito importante”, afirma Claudia, que foi secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro e secretária de Cultura do Estado de São Paulo. Ela também destaca o caso do Paraná, onde 95% dos alunos da rede pública estadual foram inseridos em uma plataforma online de ensino durante a quarentena. “De alguma maneira, as escolas vão colher o bom resultado no pós-pandemia”, explica. A inclusão digital, porém, não significa apenas garantir o acesso à tecnologia. “Não basta distribuir computadores para todos e achar que está resolvido. É necessário usar corretamente o meio digital no ensino”, completa.

A opinião é compartilhada por Lucilia Guerra. “A quarentena acelerou um processo inevitável e desmistificou a tecnologia na educação”, explica a diretora do CPS, apontando os benefícios do processo acelerado de inclusão digital para os docentes. “A pandemia levou muitos educadores ao universo tecnológico e à inserção digital. Havia professores que não lidavam bem nem sequer com e-mail e, agora, dão aulas online”, cita Lucilia. “Precisamos sempre mesclar as dinâmicas de ensino, até para que a escola seja atraente e mantenha o foco e a atenção do aluno. A pandemia ensinou a dialogar com o aluno a distância, em um ambiente virtual”, completa.

“A pandemia levou muitos educadores ao universo tecnológico e à inserção digital. Havia professores que não lidavam bem nem com e-mail e agora fazem aulas on-line” Lucilia Guerra

Acerca dos resultados do Ideb, divulgados em setembro de 2020, as educadoras comemoram os bons números, mas ressaltam que é necessário avançar ainda mais. Em relação ao ensino médio nacional, a nota do Ideb saltou de 3,8, em 2017, para 4,2 em 2019. “Ter dado um salto no ensino médio foi muito positivo. Contudo, é importante também perceber que a velocidade está errada. Temos de descobrir formas de ‘pisar no acelerador’, especialmente no pós-pandemia, porque provavelmente haverá uma perda desses ganhos mais recentes”, diz Claudia Costin.

“Todo avanço deve ser comemorado, mas não podemos nos acomodar. Há muito a ser feito ainda”, diz Lucilia. “Precisamos avançar no apoio à educação básica, que carece de melhor e mais adequada infraestrutura, para que as metodologias diferenciadas tomem mais espaço nas escolas”, acrescenta ela, que ressalta o papel dos educadores.

“Temos de destacar a atuação do professor. Além de ser reconhecido no seu esforço ímpar, deve ser colocado de frente para novas metodologias e ser capacitado de maneira contínua”, explica Lucilia. Ela lembra que, muitas vezes, o aluno questiona a aplicação do conhecimento adquirido na escola em sua vida prática. “Cabe ao professor fazer esta transposição do ensino teórico para o sentido prático do conhecimento na vida do estudante. Costumo dizer que o que está na vida tem de estar na escola. E o contrário, também: se está na escola, tem de estar na vida”, completa.

Este texto foi publicado na edição especial da PB em parceria com o canal UM BRASIL. Ao longo do mês de janeiro, o conteúdo completo da revista será oferecido no site da PB.

Lucas Mota Christian Parente / Divulgação
Lucas Mota Christian Parente / Divulgação

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