Lobo-guará desbrava a Amazônia

26 de fevereiro de 2021

Com a transformação da floresta úmida em pasto e monocultura, o lobo-guará, típico das savanas, encontra novo habitat em áreas desmatadas da Amazônia. Em meio à alta presença humana, animal acaba exposto ao risco de atropelamento, contágio de doenças de animais domésticos e conflitos com fazendeiros

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Com aparência de cachorro magro e pernas longas, o lobo-guará pode não possuir a equivalente beleza e carisma do urso panda ou do mico-leão-dourado. Mas o maior canídeo da América do Sul desperta cada vez mais a atenção de pesquisadores, organizações ambientalistas e do Banco Central do Brasil, que estampou a sua imagem na nota de R$ 200, lançada em setembro do ano passado. Cientistas e ecologistas apontam que, curiosamente, ao mesmo tempo em que é considerada vulnerável, a espécie vem ampliando sua área de ocorrência, principalmente na Amazônia e Mata Atlântica.

Essa expansão do lobo-guará para o Norte e o Leste se deve à savanização das florestas, causada pelo aquecimento global e por ações humanas, como desmatamentos e queimadas para abrir área para pastagens e agricultura, construção de rodovias e urbanização. “Isso está acontecendo, especialmente, porque as árvores maiores são mais sensíveis ao clima mais seco e os períodos de estiagem estão mais intensos e frequentes”, assegura a bióloga Lilian Patrícia Sales, pesquisadora associada da Universidade de Concordia, em Montreal, no Canadá, autora principal de um artigo sobre o tema, publicado no Global Change Biology, um dos mais importantes periódicos científicos sobre mudanças climáticas.

Mathias Mistretta Pires, do Instituto de Biologia (IB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que a savanização é um fenômeno de substituição da floresta mais fechada e úmida por ambientes mais abertos, com menor densidade de plantas, e mais seco, parecido com o que se encontra nas savanas, chamadas de “cerrado” no Brasil. “O clima mais seco dificulta a persistência da floresta e quando ela é desmatada, as plantas que crescem no lugar costumam ser outras, mais adaptadas a ambientes mais secos e abertos.”

O objetivo do estudo Climate and land‐use change will lead to a faunal “savannization” on tropical rainforests, que resultou no artigo, era testar se o processo de savanização, já bem estudado em plantas, poderia também ocorrer com a fauna. “Usamos informações sobre o ambiente em que diversas espécies de mamíferos ocorrem e sua capacidade de se dispersar para novos habitats, para testar se há diferença na resposta esperada de animais que ocupam savanas daqueles que vivem em florestas”, conta Lilian.

“Historicamente, o bioma amazônico é o limite norte para a ocorrência da espécie. Mas a ocupação humana da região nos últimos 50 anos causou importantes modificações na paisagem natural, alterando e substituindo a vegetação nativa.” Larissa Gabriela Araújo Goebel, bióloga da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)

O estudo combinou dados sobre a distribuição de 349 espécies de mamíferos na América do Sul com a utilização de modelos computacionais para fazer projeções. “Já há registros que estão de acordo: lobos-guarás aparecem com frequência em áreas onde não são comuns, como da Mata Atlântica, além de tatus e roedores típicos de áreas abertas presentes cada vez mais além das bordas da Amazônia, em direção às florestas”, detalha Pires. “Nossos modelos sugerem que isso deve se tornar cada vez mais comum.”

O trabalho mostra que as espécies florestais como primatas, esquilos, alguns cervos e roedores devem ter a sua área de distribuição cada vez menor. Em parte, porque o clima deixará de ser adequado para elas em muitas regiões, mas principalmente devido ao desmatamento, que além de destruir o seu habitat, cria barreiras para a sua dispersão. “Elas não conseguem atravessar ambientes abertos como plantações ou pastagens, e assim não conseguem migrar para regiões com clima adequado”, explica Pires.

Em contrapartida, regiões que hoje contêm florestas e passarão pelo processo de savanização vão se tornar mais propícias para espécies de cerrado, como o lobo-guará e o tamanduá-bandeira. “Esses animais poderão ampliar sua distribuição no futuro, colonizando regiões onde não ocorrem”, acrescenta o pesquisador. “As espécies florestais podem perder por volta de 50% da sua área de distribuição, enquanto algumas de cerrado podem ampliá-la em até 30%.”

Outro estudo, especificamente sobre o lobo-guará, realizado por pesquisadores do Amazonas, Mato Grosso e Rondônia, procurou investigar a sua presença em áreas da Amazônia. “Os objetivos foram apresentar registros inéditos e aqueles oriundos da literatura de ocorrência da espécie no bioma”, revela Thiago Cavalcante, doutorando em Ecologia, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), um dos participantes da pesquisa que resultou em artigo científico publicado na Environmental Science and Policy. Essa pesquisa compila registros de ocorrência do lobo-guará nos últimos 25 anos. “É a maior compilação disponível até o momento de registros de ocorrência do animal para a Amazônia”, frisa Cavalcante. “No total, foram 22, dos quais 10 inéditos”. Os dados expandem o limite noroeste da distribuição geográfica do lobo-guará em 51,1 quilômetros quadrados, dos quais cerca 34% no Brasil e o restante na Bolívia. “Historicamente, o bioma amazônico é o limite norte para a ocorrência da espécie”, diz a bióloga Larissa Gabriela Araújo Goebel, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). “Mas a ocupação humana da região nos últimos 50 anos causou importantes modificações na paisagem natural, alterando e substituindo a vegetação nativa por pastagens e monoculturas.”

Tais conclusões batem com as do trabalho dos pesquisadores da Unicamp – que contou também com a participação de cientistas da Universidade Estadual Paulista. “O lobo-guará é uma das espécies, que, segundo nossos modelos, perdem habitat por um lado e por outro têm cada vez mais regiões adequadas à sua ocorrência”, afirma Pires. “Com o processo de savanização, áreas florestais vão se tornando mais abertas, facilitando a colonização por ela e também seu deslocamento entre regiões.”

“As espécies florestais podem perder por volta de 50% da sua área de distribuição, enquanto algumas de cerrado podem ampliá-la em até 30%.” Mathias Mistretta Pires, do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp

Biodiversidade em risco

A constatação preocupa. “O lobo-guará é ameaçado pela expansão das fronteiras agrícolas sobre o cerrado e também sofre com barreiras como as estradas, sendo um dos animais com maior número de atropelamentos”, ressalva Pires. “Apenas algumas espécies do cerrado, os chamados generalistas, poderão ocupar novas áreas e ainda assim dependerão de caminhos ou conexões entre os ambientes”, ressalta Lilian. “No geral, o que esperamos é uma perda de biodiversidade.”

Larissa critica que “a espécie é classificada apenas como “quase ameaçada” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e “vulnerável” pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). Além disso, os registros são em áreas com alta presença humana, expondo ele a diversos conflitos”. Segundo ela, são necessários estudos sobre a ecologia do lobo-guará em áreas limítrofes para avaliar a disponibilidade de habitat e a potencial abundância do animal, como já realizado na porção boliviana do bioma. “O uso das localidades apresentadas no nosso estudo, em pesquisas futuras com modelagem de nicho ecológico e com análise da viabilidade dessas populações certamente contribuirá para o aprimoramento da identificação das áreas que permanecerão ou que se tornarão adequadas para a sua ocorrência.”

Enquanto isso não acontece, organizações ambientalistas desenvolvem projetos de estudos,proteção e educação ambiental. É o caso do Instituto Pró-Carnívoro, que promove a conservação dos mamíferos carnívoros do continente. “Hoje, temos dois projetos envolvendo o estudo da ecologia e conservação da espécie, o ‘Lobos do Pardo’ e ‘Lobos da Canastra’ ”, conta seu presidente, Ricardo Luiz Pires Boulhosa. “Também desenvolvemos um chamado ‘Sou Amigo do Lobo’, para a sensibilização da sociedade na melhora de relações com esse animal.”

O primeiro teve início em dezembro de 2017 e ocorre no Nordeste do Estado de São Paulo, tendo como referência a Bacia Hidrográfica do Rio Grande. “Como todo carnívoro de grande porte, o lobo-guará está sujeito a uma grande diversidade de ameaças a suas populações”, adverte Boulhosa. “O objetivo do projeto é conhecer estas ameaças e aproximar as comunidades locais à conservação de espécies em risco.”

Mais antigo, o segundo projeto começou em janeiro de 2004. “Ele tinha vários objetivos relacionados à conservação do lobo-guará na região, como estimativa populacional, dispersão de jovens, saúde, genética, comportamentos, áreas de vida e dieta”, explica Boulhosa. Além da pesquisa com o animal, algumas atividades junto à comunidade foram realizadas ao longo desses anos. De acordo com ele, durante o desenrolar do projeto percebeu-se claramente a tensa relação firmada entre moradores locais e unidade de conservação, originada ao longo do processo de sua criação, há pouco menos de 40 anos. “A falta de diálogo franco sobre a questão possibilitou a manutenção, e um possível aumento, do mal-estar entre comunidade e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que persiste até os dias de hoje com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).”

Alguns reflexos dessa tensão podem ser facilmente percebidos. Entre eles, o presidente do Instituto Pró-Carnívoros cita a ocorrência de incêndios florestais provocados dentro da unidade de conservação, a reduzida participação da comunidade no combate a eles, o baixíssimo índice de visitação à área de proteção e a relação conflituosa com algumas espécies da fauna, tais como o próprio lobo-guará, a onça-parda e outros predadores.

Evanildo Silveira Nando Bonfim Paula Seco
Evanildo Silveira Nando Bonfim Paula Seco
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