Moraes Moreira e a alegria nacional

06 de agosto de 2020

Tudo começou em 1968, no auge da contracultura no mundo e do Tropicalismo no Brasil: no Teatro Vila Velha, em Salvador (BA), acontece a estreia de O Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal, espetáculo dos Novos Baianos, grupo que marcou a música popular brasileira na década de 1970 mesclando samba, bossa nova, frevo e baião com rock n’roll, sem desprezar a vertente afro-baiana do afoxé e do ijexá.

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Após uma participação apagada no V Festival da Record, em São Paulo, a banda se instala no Rio de Janeiro, onde encontra João Gilberto. O “velho” baiano criador da bossa nova lhes apresenta os sambas antigos do também conterrâneo Assis Valente e os aconselha “a se voltarem para dentro de si mesmos”. Uma influência decisiva para o sucesso do LP Acabou Chorare, lançado em 1972 e eleito, 35 anos depois, em 2007, pela revista Rolling Stone, como o melhor disco brasileiro da história. Nele, a guitarra elétrica, o baixo e a bateria se harmonizam com cavaquinho, chocalho, pandeiro e agogô, para espanto dos que achavam essa mistura impossível.  

A canção título do álbum evoca uma criança confusa entre o português de seus pais brasileiros e o castelhano falado no México, onde moravam. “Acabou chorare, papai”, disse a filha Bebel a um aflito João Gilberto, que viera socorrê-la depois de um tombo. O episódio foi transformado em música pelos autores Moraes Moreira e Luiz Galvão, dupla nuclear que somada ao guitarrista, Pepeu Gomes, e à vocalista, Baby Consuelo, (mais tarde Baby do Brasil) constituiu a formação original dos Novos Baianos.

“O samba carioca é lindo, mas tende para a melancolia. O samba baiano é alegre, é para cima” Moraes Moreira

No disco antológico, outras faixas se destacam: o antigo sucesso Brasil pandeiro, de Assis Valente, o samba rasgado Besta é tu e a canção que seria o maior êxito do grupo, Preta pretinha. Moraes Moreira fez a música com apenas dois acordes, simplicidade harmônica que a tornou obrigatória no repertório dos iniciantes no violão. A letra de Luiz Galvão foi comparada por Augusto de Campos a um poema de Oswald de Andrade.

Moraes Moreira nasceu e foi criado em Ituaçu, no interior da Bahia, onde começou tocando sanfona, mais tarde substituída por violão e guitarra. Aos 19 anos, muda-se para Salvador, entra em contato com as criações tropicalistas de Caetano Veloso e Gilberto Gil e arranja emprego num banco. Durante as noitadas de violão, na pensão em que morava, conhece os companheiros dos Novos Baianos, dos quais se afasta em 1975 para seguir carreira-solo.

Saiba mais: “A Canção no Tempo – 85 anos de músicas brasileiras Vol. 2: 1958-1985”, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, Editora 34

Ímpar na história da música popular brasileira, sua trajetória nas décadas seguintes revoluciona a forma de se dançar e cantar nos carnavais da Bahia e de todo o País. Ele foi o primeiro a subir em um trio elétrico para cantar e arrastar multidões. A sua estreia aconteceu no Trio Elétrico Dodô e Osmar, pioneiros na época desse novo tipo de performance artística. Antes, só havia música instrumental em cima dos caminhões que percorriam as ruas de Salvador nos dias de folia. A invenção abriu caminho para Ivete Sangalo, Daniela Mercury e o fenômeno global da axé music.

Seu primeiro grande sucesso, trilha sonora de novela e do telejornal Hoje, na Rede Globo, foi a marchinha carnavalesca Pombo Correio. Seguiu-se Lá vem o Brasil descendo a ladeira, um samba baiano, assim explicado pelo compositor: “O samba carioca é lindo, mas tende para a melancolia. O samba baiano é alegre, é para cima.”

Outra característica de seu estilo é a “prosódia torta”, como a definiu Caetano Veloso. Consiste de palavras que se sobrepõem, criando um impulso rítmico sincopado como em Festa do interior, a marcha eternizada na voz de Gal Costa.

Em março de 2020, durante a pandemia causada pelo covid-19, postou em sua conta oficial do Facebook um cordel sobre a quarentena. Torcedor do Flamengo, time que homenageou em músicas incluídas em cerca de 40 albuns gravados, Moraes Moreira morreu dormindo em sua casa no Rio de Janeiro, no dia 13 de abril, aos 72 anos. Planejava um concerto para divulgar mais de 20 canções inéditas. Sua imagem estará sempre associada a um Brasil onde “ninguém matava, ninguém morria. Nas trincheiras da alegria, o que explodia, era o amor.”

Herbert Carvalho Paula Seco
Herbert Carvalho Paula Seco
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