A história da gripe espanhola

20 de novembro de 2020

Em 1918, a Primeira Guerra Mundial, aquela que “iria acabar com todas as guerras”, ainda não tinha terminado. Na época, três dos quatro “Cavaleiros do Apocalipse” vagavam pela Europa: a Guerra, a Fome e a Morte. Com as muitas milhões de perdas, parecia que a morte tinha atingido níveis insuperáveis. Parecia. Faltava o “Quarto Cavaleiro”: a Peste. E ele, enfim, chegou.

E

Em março daquele ano, um grupo de soldados em uma base militar no Kansas, cidade do interior dos Estados Unidos, amanheceu doente. Gripados. No dia seguinte, 23 estavam mortos. A gripe saiu dali, conquistou o planeta e ganhou um nome: “gripe espanhola” (injusto, porque não nasceu na Espanha), a pandemia mais terrível da história humana.

Passados dois anos, 50 milhões de pessoas estavam mortas (há os que falam em 100 milhões), em uma população de menos de 2 bi (hoje, momento em que somos 8 bilhões, a doença mataria mais de 200 milhões). Era uma doença de origem respiratória, que se espalhava e atacava outras áreas do corpo, aleatória, veloz (no sentido do seu espalhamento) e mortal.

A propósito: a espanhola não foi a única pandemia de influenza, de gripe; houve ao menos cinco: em 1889, 1918, 1957, 1968 e 2009. E o covid-19 nem gripe é…

Em 2004, o jornalista John M. Barry escreveu em A grande gripe a história daquela doença, contando o seu surgimento, a sua progressão e a reação das pessoas, das autoridades, dos médicos e dos políticos. O livro analisa também o esforço da ciência, e da medicina em particular, em encontrar a cura (não conseguiu naquela vez) e descobrir seu causador (conseguiu). É uma história da doença, do horror e do espanto, além do desenvolvimento da medicina. Uma história trágica e, infelizmente, atual.

As pessoas morriam em um dia. Tinham os primeiros sintomas de manhã e, à noite, estavam mortas. Milhares de corpos ficaram insepultos, médicos e enfermeiras foram ceifados como moscas, ninguém sabia bem o que fazer

Segundo o contexto apresentado pelo livro, a epidemia de 1918 teve três ondas. A primeira, durou alguns meses, e foi dura, assim como a terceira, mas a segunda foi a que definiu a imagem histórica da gripe espanhola (inclusive na cultura de massas e na literatura). As pessoas morriam em um dia. Tinham os primeiros sintomas de manhã e, à noite, estavam mortas. Milhares de corpos ficaram insepultos, médicos e enfermeiras foram ceifados como moscas, ninguém sabia bem o que fazer. Pior: os jovens, pessoas de 21 a 30 anos, eram as vítimas preferidas do “monstro”, ao contrário da influenza normal. A chamada “tempestade de citocinas”, a reação do próprio corpo à ação do vírus, é que levava à morte. E jovens tinham mais anticorpos, naturalmente, do que pessoas mais velhas. Por isso, morriam mais. Nos Estados Unidos, 0,65% da população morreu; entre os jovens, a porcentagem foi duas vezes maior. Nos países subdesenvolvidos, o massacre foi ainda mais terrível: no México, a estimativa é de que a gripe tenha levado até 9% dos mais jovens. Quase um décimo, de uma geração inteira, perdido…

Na Índia, foi pior ainda: estima-se que morreram 20 milhões de pessoas no subcontinente indiano. Em Buenos Aires, 55% da população ficaram doentes; no Japão, um terço. No Rio de Janeiro, também. Na África, aldeias inteiras sumiram da face da Terra. O vírus chegou ao Ártico, subiu montanhas, devastou o mundo.

Saiba mais: “A grande gripe – a história da gripe espanhola, a pandemia mais mortal de todos os tempos”, de John M. Barry (Intrínseca)

Os políticos comportaram-se de duas maneiras (de fato, o objeto central do livro são os Estados Unidos, logo, é quase sempre dos políticos norte-americanos que se fala): uma boa, outra má. São Francisco fechou tudo, isolou-se do mundo, impediu reuniões e negócios, salvou-se. Na Filadélfia, os líderes locais autorizaram até uma passeata: a cidade virou um enorme cemitério. Os negacionistas lá também ampliaram o alcance da epidemia. Em alguns casos, nem se deram conta do erro. Morreram também. Não era uma “gripezinha”.

O relato da gripe e suas consequências é terrível, mas não o único (nem o principal) foco da obra de Barry. Sua atenção dirigiu-se aos médicos no mundo e, particularmente, nos Estados Unidos. A gripe de 1918 teve ao menos um desdobramento inesperado: influenciou positivamente o nascimento da medicina moderna. Universidades criaram departamentos e laboratórios, empresas privadas nasceram para tentar obter curas, a opinião pública voltou-se para o tema.

O primeiro capítulo do livro, “Guerreiros”, é uma indicação do objeto da obra: contar a história do desenvolvimento da medicina moderna e desse desenvolvimento na terra dos ianques. Barry trata das mudanças ocorridas nos Estados Unidos, por exemplo, com o surgimento da [Universidade] Johns Hopkins (que, hoje, lidera a comunicação mundial a respeito do covid-19 e de suas estatísticas), a mudança de perspectiva na Universidade Harvard (que deixou de ser somente um centro dedicado a estudos… Teológicos). O século 20 foi também o século da Pax Americana – e da ciência, que veio junto com o pacote. Nossa luta contra o covid-19 e seus males é também fruto do esforço dessas pessoas, os Eliot e os Welch, os Lewis e os Averys (foi Oswald Avery quem mostrou em 1944, décadas depois da pandemia, que o DNA [ácido desoxirribonucleico] carrega o código genético de um ser vivo, descoberta que mudou tudo). Médicos e cientistas que transformaram a face da medicina naqueles anos. Gente que nunca desistiu e que, ainda hoje, nos ajuda a combater o “Quarto Cavaleiro”.

Marco Chiaretti Paula Seco
Marco Chiaretti Paula Seco

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