Brasil e Estados Unidos juntos pela despolarização

23 de janeiro de 2024

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A vitória do ex-presidente e pré-candidato Donald Trump nas primárias realizadas pelo Partido Republicano no Estado de Iowa, no último dia 15 de janeiro, foi o pontapé inicial das eleições presidenciais deste ano nos Estados Unidos. A postura de Trump, conclamando os eleitores a desafiar o inverno rigoroso do Hemisfério Norte e comparecer de qualquer maneira às primárias, “mesmo que votem e morram depois”, é o aperitivo do clima bélico e polarizado que, novamente, deve contaminar as eleições estadunidenses. Pelo lado dos democratas, o partido deve indicar o atual presidente, Joe Biden, para concorrer à reeleição. Esse cenário se soma ao calendário político (também agitado) no Brasil, com as eleições municipais — a serem realizadas no fim do ano —, responsáveis por definir os novos prefeitos e vereadores nos mais de 5,5 mil municípios do País.

Sob esse contexto, vale a pena a leitura do livro Como salvar a democracia (Zahar, 290 páginas), dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Professores da Universidade Harvard e também autores do best-seller Como as democracias morrem, lançado em 2018, os acadêmicos comparam os sistemas políticos dos Estados Unidos e do Brasil. Apesar de todos os problemas e desafios apontados, a exemplo da invasão das sedes dos três poderes federais, em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023, o sistema democrático brasileiro, de acordo com os autores, provou estar muito mais resiliente e forte do que o país do Norte, considerada a maior e mais potente democracia do mundo.

A obra Como salvar a democracia explica que, durante anos, a política no Brasil e nos Estados Unidos seguiram caminhos semelhantes. Segundo o livro, na década passada, as duas nações elegeram presidentes — ligados à extrema direita — que se mostraram extraordinariamente incapazes no exercício do cargo, em especial durante o período da pandemia de covid-19. Ao longo do mandato, diante da inabilidade crônica na condução dos problemas administrativos e políticos em ambos os países, Trump e Bolsonaro viram as respectivas impopularidades dispararem, e não conseguiram a reeleição. Fato é que, além de perderem, os derrotados não aceitaram o resultado das urnas, alegando, sem apresentar nenhuma prova ou fundamento plausível, de que houve fraude no processo eleitoral. As acusações infundadas, mas praticadas reiteradamente por Trump e Bolsonaro, foram tentativas de abrir fissuras no sistema democrático para se manterem no poder à força.

Tais acusações, associadas a fake news, motivaram simpatizantes da extrema direita à invasão do Capitólio, em Washington, no dia 6 de janeiro de 2021, e da praça dos Três Poderes, em Brasília, dois anos depois. Em ambas as situações, viam-se fanatismo e inconformidade de seguidores dos respectivos candidatos derrotados, dispostos a deslegitimar o resultado da eleição. No entanto, as semelhanças entre as duas situações, segundo Levitsky e Ziblatt, param por aí. Enquanto no Brasil os líderes políticos da direita democrática aceitaram e reconheceram imediatamente a vitória de Lula, nos Estados Unidos ocorreu o inverso: membros do Partido Republicano jogaram gasolina no fogo e incentivaram — ou pelo menos fizeram vistas grossas — as conspirações de Trump para tentar comprometer a vitória de Biden, encorajando os seguidores a tentar destruir a sede do Congresso norte-americano.

O que explica essa divergência de posicionamentos? Ao contrário do Brasil, onde o sistema multipartidário permite uma independência maior dos políticos em relação aos seus líderes, tanto na direita como na esquerda, nos Estados Unidos há uma concentração excessiva de poder no Partido Republicano, atualmente dominado por Trump. Também não houve, por parte dos representantes de partidos conservadores brasileiros, tentativa de obstrução das investigações dos atos golpistas em Brasília pelo Congresso Nacional. Tampouco houve críticas veementes à decisão do Judiciário em tornar Bolsonaro inelegível por oito anos, relegando o ex-presidente a segundo plano no mapa do poder e com apoio incondicional restrito apenas aos seguidores mais radicais.

“A resposta da direita brasileira à crise desencadeada por Bolsonaro foi mais favorável à democracia do que a resposta americana a Trump”, diz trecho do livro. Como os políticos brasileiros, de maneira geral, aceitaram os resultados da eleição de 2022, explicam os estudiosos, condenando de maneira contundente a insurreição do 8 de janeiro e cooperando nas investigações dos atos antidemocráticos, a ameaça representada por Bolsonaro perdeu força. Por outro lado, os líderes republicanos estadunidenses continuam a proteger e a tornar a existência política de Trump possível, fazendo com que ele mantenha a ameaça à democracia no país ao torná-lo, talvez, o candidato do partido nas eleições deste ano. “Na verdade, a democracia americana estaria muito mais bem-servida se os líderes republicanos seguissem o exemplo dado pela direita brasileira”, afirmam Levitsky e Ziblatt.

“Calcificação”

O desempenho satisfatório das forças políticas brasileiras em comparação aos Estados Unidos não livra o País de sérios problemas ligados à polarização política. Para isso, vale a pena ler outro lançamento, Biografia do abismo (Editora Harper Collins, 237 páginas). Na obra, o cientista político Felipe Nunes e o jornalista Thomas Traumann mostram como a polarização e a intolerância transbordaram a esfera política e contaminaram diversos setores da sociedade nacional, arriscando a própria convivência entre as pessoas simpatizantes de políticas contrárias — petismo e bolsonarismo.

Ao contrário de uma partida de futebol, em que, muitas vezes, os torcedores adversários se confraternizam alegremente em torno da mesa após o jogo (e vida que segue para todos), a intolerância entre petistas e antipetistas atingiu a temperatura máxima na eleição presidencial de 2022, chegando a níveis inaceitáveis. Não basta mais vencer, é necessário destruir o adversário do outro time, dentro e fora de campo. Trata-se, na definição dos autores, de uma calcificação da polarização política. “As opiniões passaram por um processo de engessamento e se transformaram em parte da identidade de cada eleitor”, diz o texto. “Assim como nos Estados Unidos, a eleição presidencial calcificou o mecanismo de escolha, em que os interesses (nas propostas administrativas dos candidatos) perderam força para as paixões. Mais do que uma escolha racional entre dois projetos diferentes para o País, a disputa entre Lula e Bolsonaro foi entre duas visões de mundo, dois países diferentes entre si”, completam os autores.

Pesquisas realizadas pela Genial/Quaest no fim de 2022 mostram os efeitos dessa calcificação na sociedade. Parte significativa dos entrevistados se mostrou disposta a não consumir determinado produto se o fabricante declarar algum tipo de apoio ou simpatia ao candidato ou à força adversária. Também foi revelado que muitos tiveram rompimentos definitivos com pessoas próximas por causa de eleições e passaram a absorver apenas informações dos veículos de mídia que demonstram ir ao encontro das suas convicções políticas. Uma parcela considerável dos entrevistados também se mostrou desconfortável caso um filho ou filha se casasse com alguém cuja família apoiasse o candidato adversário.

Soluções

O caminho de volta à normalidade e à estabilidade que existia até os anos 2010, explicam os estudiosos, não é fácil (tampouco de curto prazo). Em primeiro lugar, é preciso reconhecer e aceitar que existe uma intensa polarização política no Brasil que precisa ser desarmada. A partir daí, devem ser buscadas formas de reconexão e diálogo entre as pessoas, em torno de interesses e propostas comuns, independentemente dos posicionamentos políticos — por exemplo, é consenso a ideia de que os filhos de todas as pessoas merecem uma educação de qualidade, e de que isso não está ligado a convicções políticas.

“A saída mais difícil é despolitizar e despersonalizar a ação governamental, dando continuidade a projetos de longo prazo”, diz trecho de Biografia do abismo, que trata das possíveis soluções para a polarização. Os autores citam como exemplo a pandemia de covid-19, quando ficou evidente que a necessidade de investimentos e fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) não era uma bandeira de direita ou de esquerda. O mesmo raciocínio vale para a segurança e a educação (públicas) de qualidade.

“O primeiro passo para enfrentar a polarização extrema é reconhecer que ela existe e está transbordando para o cotidiano dos brasileiros. O segundo é impor os limites claros de até onde vai a opinião política e onde começa a intolerância”, ensinam Nunes e Traumann. “Não se pode, em nome de uma liberdade de expressão sem limites, naturalizar o ódio, o preconceito e a intimidação”, completam.   

Marcus Lopes Annima de Mattos
Marcus Lopes Annima de Mattos
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