Riqueza que vem do lixo

15 de junho de 2022

A chamada mineração urbana – o processo de recuperação de matérias-primas de produtos usados, edifícios e resíduos, vem crescendo entre países desenvolvidos que adotam sistemas de Logística Reversa. Este impulso é proporcionado pelas novas tecnologias, que estão ajudando a reciclar resíduos e a facilitar o acesso aos benefícios oriundos destes.

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Em Antuérpia, na Bélgica, a Umicore, que já foi uma empresa tradicional de fundição, agora é especializada na extração de metais preciosos de eletrônicos, e os coloca em novos produtos, como catalisadores ou componentes de baterias de automóveis. A empresa ampliou seu foco de atuação com olhos numa tendência global: a mineração urbana, processo de recuperação de matérias-primas de produtos usados, edifícios e resíduos diversos.

As possibilidades de recuperação de materiais no Brasil são enormes. É o que afirmam as pesquisadoras Lúcia Helena Xavier (CETEM – Centro de Tecnologia Mineral) e Marianna Ottoni (UFRJ – Programa de Planejamento Energético). Elas lançaram pelo CETEM, em março, o livro Mineração Urbana: conceitos e análise do potencial dos resíduos eletroeletrônicos.

A obra estima que, de 2008 a 2019, a geração média per capita de resíduos eletroeletrônicos no Brasil cresceu de 3,8 para 10,2 kg/hab/ano, evidenciando o grande potencial deste segmento. E chama atenção à iminente revolução 5G, que tornará obsoletos, em curto espaço de tempo, os equipamentos eletroeletrônicos em uso, por serem incompatíveis com as redes anteriores.

“A cadeia pós-uso desses equipamentos e de resíduos de eletroeletrônicos precisa estar preparada para aproveitar a maior quantidade de material e gerar a menor quantidade de rejeitos”, afirma o documento.

Por enquanto, a mineração urbana ainda ocorre de forma bastante incipiente no Brasil, contam as pesquisadoras. Uma parte significativa dos resíduos com potencial econômico, dizem, segue para exportação, reduzindo a eficiência dos processos implementados no País. A solução, porém, não está longe do alcance.

Lúcia e Marianna provam que é possível obter a recuperação de recursos por meio da reciclagem de materiais, sendo que diferentes técnicas podem servir ao objetivo, parte delas com origem em processos mínero-metalúrgicos tradicionais.

Como exemplo, citamos procedimentos de pirometalurgia – temperaturas elevadas fundem ou “queimam” materiais, de forma a reduzir e extrair metais –; hidrometalurgia – resíduos são dissolvidos em soluções químicas–; além de outras, como a bio-hidrometalurgia, que utiliza microrganismos para a extração de metais de determinado substrato, convertendo-os em sais solúveis.

Além de combater o esgotamento de reservas naturais de diversos metais, a gestão desses materiais reduz o acúmulo de componentes eletrônicos em aterros, evitando contaminação do meio ambiente e consequente prejuízo à saúde humana e animal.

Uma das conclusões da pesquisa estabelece que novos horizontes para a extração de metais de produtos descartados podem ser vislumbrados, incluindo os aterros como fonte secundária de materiais de valor.

Além de reduzir os impactos da mineração tradicional e o esgotamento de reservas naturais, a gestão desses materiais visa, além dos ganhos econômicos, a diminuir riscos associados à cadeia de produção: metais críticos acumulados em aterros ou jogados fora de modo impróprio são perigosos à saúde humana, à saúde animal e ao meio ambiente, pela alta chance de contaminação.

A diretora do CETEM, Silvia Cristina Alves França, sublinha, contudo, a necessidade de esforços de todos os atores envolvidos – governo, setor produtivo e consumidores – na consolidação da economia circular para uma sociedade mais sustentável. Em sua ótica, “a viabilidade da aplicação prática do conceito dos ‘3Rs’ da sustentabilidade – reduzir, reutilizar, reciclar – requer um trabalho de informação e conscientização para o descarte adequado dessa categoria de produtos pós-consumo; ou ainda, o reaproveitamento de matérias-primas secundárias.”

Logística Reversa: ações que transformam

Anualmente, mais de 53 milhões de toneladas de equipamentos eletroeletrônicos e pilhas são descartados em todo o mundo, segundo o The Global E-waste Monitor 2020. Em cinco anos, os aparelhos descartados cresceram mais de 20%, e o Brasil é um dos líderes do ranking, ocupando a quinta posição mundial e a primeira na América Latina. Apenas em 2019, descartamos mais de dois milhões de toneladas de resíduos eletrônicos, sendo que menos de 3% foram reciclados.

“Trabalhamos por um mundo com menos geração de resíduos e menos extração de matéria-prima da natureza. Para isso, disponibilizamos Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) em lojas do varejo, shopping centers, instituições empresariais e entidades de ensino. E contamos, principalmente, com a participação dos consumidores para descartar seus produtos, para darmos um destino ambientalmente adequado a estes”, diz Ademir Brescansin, gerente-executivo da Green Eletron.

Fundada pela Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), a Green Eletron é uma entidade sem fins lucrativos que trabalha com um sistema coletivo para a Logística Reversa de eletroeletrônicos de uso doméstico e pilhas. Ou seja, suas empresas associadas, cem atualmente, financiam toda a operação, e a Green Eletron é responsável por gerenciar a coleta, o transporte, a desmontagem e a reciclagem dos produtos descartados, transformando seus materiais em novas matérias-primas para a indústria. Além de reportar para as autoridades o cumprimento das metas assumidas.

Em 2019, o Brasil descartou mais de dois milhões de toneladas de resíduos eletrônicos. Menos de 3% foram reciclados.

As metas para fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes em relação à quantidade de PEVs instalados, ao número de cidades abrangidas e ao percentual de aparelhos eletroeletrônicos a serem coletados e destinados corretamente são previstas no Acordo Setorial para a Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos, assinado em outubro de 2019, em atendimento aos objetivos da Política Nacional de Resíduos Sólidos –PNRS (Lei 12.305/2010) e do Decreto 10.240/2020.

O acordo prevê que as empresas, de forma individual ou coletiva, devem, gradualmente (de 2021 até 2025), instalar mais de cinco mil PEVs nas 400 maiores cidades do território nacional, além de coletar e destinar 17%, em peso, dos produtos colocados no mercado. Para os anos posteriores, novas metas de abrangência, coleta e reciclagem deverão ser definidas.

Em 2021, a gestora conseguiu recolher e enviar para destinação ambientalmente adequada 878 toneladas de produtos eletroeletrônicos e pilhas. O resultado é o maior desde a fundação da Green Eletron, em 2016.No ano passado, mais de 163 toneladas de pilhas inservíveis foram recolhidas.

Já são 7.861 PEVs de pilhas disponíveis em todos os Estados do Brasil e mais de mil de eletroeletrônicos, presentes em 13 Estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina) e no Distrito Federal.

FecomercioSP e Green Eletron

Em 2015, juntamente com a Abinee e outras associações, a FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) integrou o Comitê Técnico do “Projeto para Melhoria da Logística Reversa de Resíduos Elétricos e Eletrônicos”, um acordo de cooperação com a Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica) para a implementação de um projeto-piloto no município de São Paulo.

Um Termo de Compromisso para pilhas foi celebrado no ano seguinte, e em 2017 para eletroeletrônicos. Ambos com sistemas de Logística Reversa – SLRs em franca expansão no Estado de São Paulo. Como produto da parceria, hoje, o pequeno comerciante pode entregar pilhas e baterias portáteis nos sindicatos aderentes ao projeto. O serviço de recolhimento é feito pela Green Eletron.

“Os sindicatos que participam como pontos de entrega, na qualidade de parceiros do sistema, recebem as pilhas e baterias portáteis dos pequenos comerciantes que atuam como PEVs”, explica a assessoria técnica da FecomercioSP, que também intermediou as adesões de várias empresas aos SLRs. Dentre suas atribuições, figuram: divulgar os SLRs, orientar os empresários, auxiliar nas adesões e fazer as pontes com as entidades gestoras. Para tal, conta com a ajuda de uma plataforma digital.

Desde sua assinatura, portanto, a Federação tem promovido este sistema de Logística Reversa aos empresários e apoiado a aderência por meio de informações disponibilizadas na plataforma. “A FecomercioSP acredita na Logística Reversa como um instrumento essencial para a destinação ambientalmente adequada dos resíduos que necessitam de tratamento específico e reciclagem dos seus componentes”, pontua a assessoria técnica da Entidade.

A FecomercioSP enaltece, ainda, a importância e os benefícios da participação do varejo nos sistemas de Logística Reversa coletiva: “Além de cumprir com seu dever previsto em lei, o varejo não é onerado com o custo do encaminhamento correto dos produtos recebidos em seus PEVs e evita penalidades em caso de fiscalização. Novos clientes, por sua vez, são atraídos pelo oferecimento deste importante serviço ambiental de forma gratuita, algo que valoriza sua marca e reputação sustentável.”

Eduardo Ribeiro Paula Seco
Eduardo Ribeiro Paula Seco
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