Artigo

A boiada financeira

Bárbara Dias
é doutora pelo Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ-IESP e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.
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Bárbara Dias
é doutora pelo Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ-IESP e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.

O escândalo do Banco Master não é um caso isolado de fraude, mas a expressão de um processo mais profundo: a financeirização predatória da economia brasileira, deliberadamente desregulamentada a partir do golpe parlamentar de 2016 e dos governos Temer e Bolsonaro.

Para entender o caso Master, é preciso compreender o terreno que o tornou possível: a “hipertrofia financeiro-rentista-especulativa” brasileira.  O que permite que a  renda do capital seja gerada por ações que se valorizam sem lastro produtivo, títulos públicos que consomem o orçamento estatal e derivativos que apostam na variação de preços.

Essa hipertrofia não é um acaso, mas de uma escolha estratégica. Os ganhos financeiros não criam valor novo; eles transferem renda dos setores produtivos e dos trabalhadores para os detentores de ativos, num processo de espoliação.

O caso Master é a materialização dessa lógica predatória. O banco não atuava como intermediário entre poupança e investimento produtivo. Em vez disso, dedicou-se a criar engenharias financeiras para extrair renda de duas fontes principais: o fundo público (por meio da venda agressiva de Certificado de Depósito Bancário para fundos de previdência de servidores estaduais) e a exploração de ativos naturais (via criação de créditos de carbono fictícios baseados em grilagem de terras na Amazônia). O que parece uma exceção fraudulenta é, na verdade, a regra de um sistema levada ao extremo: quando o capital não encontra lastro real, ele inventa realidades paralelas para continuar se multiplicando.

Esse cenário de predação financeira político deliberado, iniciado com o golpe de 2016. O “impeachment” da presidenta Dilma Rousseff não apenas interrompeu mudanças sociais necessárias, mas também consolidou um modelo no qual as decisões econômicas são delegadas a instituições tecnocráticas (como o Banco Central), blindadas contra qualquer controle social e democrático. Criou-se o ambiente ideal para que a acumulação de capital pelos ricos fosse resgatada, impondo aos trabalhadores um comportamento “adequado” aos interesses do mercado.

Dentro desse projeto, o Banco Central, sob a gestão de Roberto Campos Neto (2019-2025), teve um papel central. Mais do que erro ou falta de fiscalização, houve uma escolha ativa de “deixar rolar” a bomba do Master. Essa postura é a essência da desregulamentação: desmontar regras, afrouxar controles e fazer vista grossa para operações suspeitas. 

No Brasil, essa lógica não foi exclusiva do Banco Central, mas sim a marca registrada do governo Bolsonaro em todas as áreas, do meio ambiente à saúde. A famosa frase “passar a boiada” do ex-ministro Ricardo Salles resume o método: desregular para devastar. Da mesma forma que se afrouxaram as regras ambientais para liberar a grilagem e o garimpo, o Banco Central “passou a boiada” no sistema financeiro brasileiro, permitindo que bancos nacionais operassem além dos limites regulatórios com a bênção do silêncio oficial.

O método é a desregulação; o objetivo é a espoliação generalizada: do fundo público (dinheiro do contribuinte desviado para fundos podres), dos ativos do Estado (terras públicas griladas e transformadas em ativos financeiros) e dos recursos naturais (a Amazônia transformada em plataforma de especulação). 

Esse projeto político não se restringe ao sistema financeiro tradicional. São os mesmos grupos que organizaram o golpe de 2016, e que hoje promovem um asfixiamento da sociedade brasileira por meio da expropriação financeira, na qual o despojamento dos direitos e do patrimônio público é travestido de “investimento financeiro”. Não por acaso, a Faria Lima ainda apoia o herdeiro pré-candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro, apesar dos constrangimentos e sanções financeiras que este criou ao incentivar a intervenção dos Estados Unidos na economia brasileira, via sanções e taxa. Isto revela que a estratégia atual das elites financeiras se estrutura a partir da organização da expropriação financeira. Essa estratégia visa acelerar a circulação de capitais, blindar fortunas e ditar regras de forma autônoma e contrária aos interesses nacionais.

O caso Master é um sintoma de um projeto nacional totalmente entregue a plataformas predatórias de valorização do capital. Essa boiada financeira produz o endividamento epidêmico da população e o desmonte do patrimônio público. Os donos do capital não querem produzir, mas sim acumular a qualquer custo.  Nosso Brasil se tornou o cenário de um regime de expropriação no qual o trabalho e o patrimônio nacional são convertidos permanentemente em renda financeira para poucos, colocando em xeque nosso futuro e qualquer projeto coletivo de Nação.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.