Artigo

As bets e a impotência masculina

Bárbara Dias
é doutora pelo Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ-IESP e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.
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Bárbara Dias
é doutora pelo Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ-IESP e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.

O fenômeno das apostas on line (bets) não é apenas brasileiro, mas o Brasil é o país que mais acessa os sites de bets, com 3,19 bilhões de acessos (22,78% do total mundial de acessos). Os brasileiros acessam duas vezes mais de que os Ingleses, cuja tradição de “bookmakers” é bem conhecida, e quatro vezes mais de que os Estadunidenses! Mas talvez esse título mundial não deva ser motivo de orgulho nacional: as apostas online tornaram-se, em 2026, o principal motor de endividamento das famílias brasileiras. Nessas condições, temos de nos perguntar em que medida as bets, tão bem quistas por nossos representantes no Congresso, não seriam uma estratégia renovada de dominação social, reconfigurando as relações entre capital e trabalho.

O modelo industrial brasileiro dos anos 1950 se sustentava em grande parte no “patriarcado do salário”: o emprego estável e o modelo familiar dominado pela figura paterna ofereciam alguma proteção (para alguns). Oferecia também um bem precioso: uma visão simplificada do mundo baseada numa suposta “tradição”, na qual cada um sabia de seu lugar na escala da dominação social. Face à evidente falência das promessas do capitalismo patriarcal, cresceu um sentimento estrutural de impotência. A relativa segurança social do sujeito “homem branco provedor” desmoronou, e as reações não tardaram em aparecer sob a forma de coletivos supremacistas masculinos (legendários, red pills, etc.). Hoje em dia, ser trabalhador, homem e branco não garante por antecedência seu sucesso social. O trabalhador-provedor é lançado sozinho no mercado, sem as redes de proteção que antes amorteciam o fracasso. 

Da mesma forma que o trabalho é cada dia mais desvalorizado em relação ao capital, o conflito social é deslocado da relação “capital-trabalho” para a relação “credor-devedor”. A dívida torna-se o novo laço social, e o novo princípio da dominação. O termo alemão Schuld — que significa tanto dívida quanto culpa — revela o nó psíquico: o endividado não apenas deve dinheiro; ele se sente moralmente falho por não ter conseguido ser o “empreendedor de si”.

Em seu lugar, emerge o que podemos chamar de patriarcado sádico, um poder que não protege, mas abusa; que não diz “não”, mas ordena “goze, consuma, seja livre”.  Esse patriarcado é sádico porque extrai prazer e lucro do sofrimento do outro. Ele não propõe matar o outro; quer vê-lo sofrer, mantê-lo na corda bamba, alimentar-se de sua impotência. 

O “homem-apostador” contemporâneo, culpado por sua dívida e fracasso, gira em uma roda infindável de falsas escolhas. Acredita ser livre, mas está preso em uma engrenagem. 

As bets entram nesse cenário como uma “saída mágica”. Dados mostram que 44% dos endividados apostam para quitar outras dívidas e 29% para pagar contas do mês. No entanto, as bets aprofundam o processo que as precede, pois 57% dos apostadores endividados não estavam inadimplentes antes de começar a apostar. Ou seja, mais de que uma possível saída para os problemas, as bets são uma porta de entrada para o superendividamento. E 52% dos apostadores perdem mais do que ganham. Quando perdem, o que ressoa é culpa – “foi você que escolheu”. A vergonha impede que se busque ajuda coletiva. O isolamento aumenta. 

Ao tentar resolver sua vida pelas bets, esse sujeito está fadado ao fracasso. E a raiva que sente contra tal impotência não encontra canal de expressão coletiva (sindicatos, partidos, movimentos sociais foram criminalizados). Essa raiva sem vazão se transforma em ressentimento – um rancor difuso que precisa de um alvo. 

A extrema-direita oferece esse alvo. Em vez de atacar o sistema financeiro ou as plataformas de aposta, o ressentimento é direcionado a bodes expiatórios e a identificação de inimigos claros, responsáveis por sua desgraça (mulheres, cotas sociais, cotas para negros, imigrantes, etc).

O sujeito endividado, isolado, culpado e ressentido não busca mais projetos coletivos de bem-estar. Afinal, o mundo lhe ensinou que a solidariedade é para “fracos” e que cada um deve se virar sozinho. Diante de tanta impotência, o sujeito ferido busca um líder punitivo que prometa ordem e poder aos “mais fortes”. A democracia, baseada no conflito regulado e na negociação e respeito entre diferentes, parece um engodo para quem está afogado em dívidas e vergonha.

O sujeito endividado torna-se um eleitor previsível para lideranças autoritárias, machistas e racistas que encarnam o próprio patriarcado sádico. Tais lideranças – Trump, Netanyahu, Bolsonaro – se apresentam como “pais” que não protegem, mas punem. O eleitor, exausto de carregar sozinho o peso de sua sensação de impotência, prefere se submeter a essa autoridade abusiva.Assim, as bets não são apenas uma armadilha financeira. São uma máquina de produção de subjetividade política: fabricam sujeitos impotentes, culpados e ressentidos. Exatamente o perfil que aplaude líderes sádicos e corrói a democracia por dentro. Enquanto a democracia exige cidadãos que se reconhecem como coletivo capaz de transformar o mundo, as bets produzem indivíduos que apostam sozinhos e, ao perder, clamam por um carrasco.

Nada mais expressivo dessa realidade do que a fala do ex-ministro da Economia Paulo Guedes a Damares Alves, ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, sobre a regularização de jogos de azar no Brasil: “deixa cada um se foder. […] O presidente não fala em liberdade? Deixa cada um se foder do jeito que quiser”.

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