Na Índia, durante as eleições gerais de 2024, candidatos produziram clones digitais de si mesmos, inclusive em diferentes idiomas, para alcançar um número maior de eleitores. O candidato gravava uma única performance diante de uma green screen e, posteriormente, sua imagem e sua voz eram manipuladas para produzir diferentes conteúdos destinados a grupos específicos de eleitores. Segundo as revistas Wired e Rest of World, até mesmo políticos mortos foram “ressuscitados” por meio de IA na Índia, na Indonésia e no Sri Lanka. Outros políticos, por sua vez, tiveram suas vozes replicadas enquanto estavam presos, permitindo que suas mensagens fossem disseminadas pelas redes sociais. Na Indonésia, um caso particularmente expressivo ocorreu durante a campanha de Prabowo Subianto à Presidência, em 2024. Sua campanha utilizou IA para construir uma representação pública do candidato como mais jovem, simpático e infantilizado, o que contribuiu para a ampla circulação e viralização dessas imagens no TikTok
Se formos listar os casos de uso de deepfakes em eleições ao redor do mundo, teremos centenas de linhas para enumerar os acontecimentos dos últimos anos. No Brasil, não tem sido diferente. Mesmo com o TSE endurecendo as regras eleitorais para conter a disseminação de material sintético sem identificação de uso de IA e regulamentar o uso de bots conversacionais, por meio da Resolução nº 23.755, que discuti no texto “A eleição na era da IA”, publicado aqui na Problemas Brasileiros, os usos da inteligência artificial nas disputas eleitorais continuam se multiplicando.
O problema é que o bizarro, o esdrúxulo e o ridículo não podem ser legislados.
A convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, no dia 25 de julho, começou mal, assim como andam os números do candidato nas pesquisas. Toda a variedade de “arte” feita por deepfakes esteve por lá, pululando o ambiente. Uma delas, no entanto, foi mais saliente, tratava-se de um vídeo com a imagem de um Jair Bolsonaro de IA que dizia, entre outras coisas: “Por isso peço que vocês recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue, meu filho Flávio. Vem com fé. O Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”.
O vídeo provocou reação do ministro do STF Alexandre de Moraes, que determinou que a defesa de Bolsonaro esclarecesse se o ex-presidente havia autorizado ou consentido com a produção e a divulgação da peça. A questão estava relacionada às restrições impostas a Bolsonaro durante sua prisão domiciliar, que limitavam sua participação e comunicação política, inclusive em palanques físicos ou digitais.
Além de um Bolsonaro de IA, Flávio Bolsonaro tem feito história, no pior sentido, e tem usado inúmeros jingles feitos por inteligência artificial e acompanhados de clipes feitos por inteligência artificial. O que não é crime, mas é de um grande mau gosto.
IAs generativas não criam propriamente, mas produzem conteúdos a partir da análise e recombinação de padrões presentes em grandes volumes de dados e produções preexistentes. Ou seja, não há verdadeira inteligência na IA. Há capacidade de entender padrões já feitos por humanos. A inteligência é humana.
Se em algum momento da história os jingles foram a pura arte do marketing em ação, não é com Flávio Bolsonaro que essa tradição será continuada. Em maio, foi lançado o primeiro jingle em IA, “Entrar com o pé direito”, acompanhado de um clipe feito também com imagens de IA. Depois vieram mais músicas sintéticas: “Vem com Fé”, “Zero Um, Novo Capitão”, o “Jingle do Pix (versão funk)” e o “Jingle do Pix (versão samba)”.
O uso deliberado de inteligência artificial na campanha oficial me soa como uma ofensa à arte, à música e à política brasileira. É o completo esvaziamento do sentido da política como diálogo, conversa com representados ou disputa pela produção de sentidos. Se é uma IA generativa que está calculando, a partir de mensagens estandardizadas, pré-fabricadas, com significantes completamente vazios, a comunicação de um candidato à Presidência da República, o que se pode esperar sobre o conhecimento que aquele mandato tem das políticas que seu próprio povo anseia?
O que esperar de um candidato que se emociona ao ver o discurso de um Bolsonaro de IA?
Stop the count!
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