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Eleição empatada se decide nos detalhes

Humberto Dantas
é cientista político, doutor em Ciência Política. Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.
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Humberto Dantas
é cientista político, doutor em Ciência Política. Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.

Em 2022, as estatísticas oficiais do Tribunal Superior Eleitoral indicam que no primeiro turno, quase 33 milhões de brasileiros deixaram de comparecer às urnas. Isso significa que mais de 20% dos eleitores inscritos não votaram, numa realidade em que o exercício é considerado obrigatório para quase 90% do total habilitado. O número cresce discretamente entre as eleições, ou seja, não há razões para se estimar algo diferente de expressivos um quinto dos cadastrados distantes das urnas em 2026.

Um olhar rápido sobre os dados sugeriria que estamos nos distanciando da política, demonstrando desinteresse ou falta de capacidade de acreditar que, por meio do voto, podemos mudar ou manter a nossa realidade com base no trabalho de representação dos políticos. Não é bem assim. Parte desses eleitores vive situações distintas à intuitiva justificativa de apatia ou protesto. São brasileiros que estão no trabalho, viajando, mudaram de cidade e não atualizaram o cadastro eleitoral, estão impossibilitados de se locomoverem por razões de saúde, tiveram imprevistos dos mais diversos ou estão encarcerados sem acesso ao voto. Isso significa que uma parte dessa abstenção é ocasional e não exatamente está associada a desinteresse ou distanciamento deliberados. Ademais, há um percentual que faleceu e não foi retirado do cadastro da justiça. Na pandemia, por exemplo, foram mais de 700 mil mortes oficiais associadas ao COVID-19. Isso significaria mais pessoas que todo o eleitorado que, em 2022, estava apto a votar fora do Brasil. Mais que o eleitorado do Acre ou do Amapá, e quase o dobro dos votantes de Roraima. 

Assim, como considerar a abstenção nos cálculos eleitorais? Quantos brasileiros realmente deixam de votar por absoluto descrédito no sistema e na lógica política? Quantos estão efetivamente cansados da democracia, para utilizar termo da moda, e associam isso a um distanciamento deliberado? A distribuição desses ausentes respeita critérios estatísticos capazes de se refletir tal qual um espelho às intenções de votos declaradas nas pesquisas? Esse ponto é essencial e pode definir as eleições. E desde já não há razões para se crer, de forma absoluta, que um quinto do eleitorado que estará ausente nas eleições votaria 40% em Lula, outros 40% em Flávio Bolsonaro e assim por diante, como sugerem os estudos de comportamento mais recentes.

Diante desse elemento, parece essencial discutir dois pontos: 1) a eleição pode ser definida em detalhes não capturados pelas pesquisas, o que não indica que elas estariam erradas, mas sim que trabalham em uma realidade que não capturam de forma absoluta e; 2) a capacidade de mobilização do eleitorado parece tão importante, nesse instante, quanto a intenção de voto, representando dizer que num pleito extremamente equilibrado como o presidencial o comparecimento pode dizer algo muito decisivo e para além do que medem as pesquisas.

Assim, a caracterização desse contingente de faltantes é difícil, e dialogar com as pesquisas é essencial. Em 2022, 2,8% dos brasileiros anularam o voto no primeiro turno presidencial, e outros 1,6% votaram em branco – o que representa a mesma atitude de invalidar o voto para efeitos de cálculos eleitorais. De acordo com a pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro, e com o estudo Datafolha finalizado dia 23 do mesmo mês, na pergunta espontânea 3% e 5% dos entrevistados nas respectivas empresas indicaram voto branco, nulo ou indisposição para comparecimento. Na pergunta estimulada, esse percentual sobre para 10% na Quaest e se mantém em 5% no Datafolha. Soma-se a isso o fato de que a pesquisa espontânea Quaest tem 31% que ainda se dizem indecisos no voto presidencial faltando uma semana para a definição diante da urna. Mas no Datafolha terminado em 23 de setembro esse percentual era de 18% – bastante diferente, menor e capaz de desafiar análises dessa realidade. No levantamento estimulado, os indecisos da Quest vão a 5% e no Datafolha a 2%. Os percentuais combinados sugerem que algo não está sendo capturado e isso pode pesar demais numa eleição “empatada”.

Aqui não seria essencial separar alguns elementos? Os dados de votos inválidos nesse instante até combinam com 2022, mas e o “não voto”? O quanto estamos olhando para os líderes e ignorando essa resposta associada ao comparecimento para entender as eleições? Qual o estímulo que eleitores de candidatos com menos chance têm para irem às urnas? Estamos debatendo nesse instante o voto útil, mas e o comparecimento? A ausência de eleitores de candidatos sem chances pode explicar, até mesmo, o aumento da chance de término do pleito em primeiro turno.

Para além disso, o quanto seria importante, na semana das eleições, incluir uma pergunta sobre a possibilidade de o respondente de fato comparecer às urnas no domingo? Na Quaest, pergunta-se algo sobre interesse pelas eleições presidenciais, com 23% indicando “nada interessado”. Como o voto desse contingente se distribui entre Lula e Flávio? Por fim, nesta mesma empresa, o questionário registrado no TSE busca entender se o eleitor “sempre vota para presidente e vai votar esse ano”, “sempre vota, mas não pretende ir esse ano”, “já deixou de votar, mas vai esse ano”, “já deixou de votar e não pretender ir esse ano” ou “não votou e não vai votar esse ano”. Onde está a tabulação dessa questão no relatório? Como ela se divide entre os principais candidatos?

Numa eleição tão renhida, que sugere empate entre os dois líderes, ao que tudo indica, são esses elementos que tornarão possíveis compreender as razões capazes de explicar por que Lula ou Flávio serão, um deles, o próximo presidente do Brasil. O fato é que mobilizar o eleitor, hoje, é tão importante quanto compreender como ele se comportaria diante do direito ao voto. A eleição, lembremos, é num domingo, e o final de semana decisivo com amigos e familiares, em diferentes padrões comunitários, tem um peso expressivo nessa realidade.

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