Agora é oficial! Foi dada a largada da corrida presidencial. Treze competidores se apresentaram, mas apenas dois deles estão realmente no páreo, reproduzindo o padrão estrutural de competição bipolar que, invariavelmente, caracteriza as eleições presidenciais brasileiras desde o estabelecimento da Nova República.
Como já discuti aqui em mais de uma oportunidade, essa polarização conformou uma dinâmica de disputa moderada entre forças político-partidárias de centro-direita e de centro-esquerda. Cada vez mais tendente ao centro, fazendo convergir a agenda liberal com pinceladas sociais do PSDB com a agenda social com pinceladas liberais do PT, essa polarização começou a se radicalizar rumo à direita na eleição de 2010, ainda que de maneira atenuada, mas facilmente perceptível. Àquela altura, José Serra, candidato do PSDB, puxou para os debates para a seara dos temas morais conservadores, mais caros a grupos religiosos —em alguns pontos, esse deslocamento tangenciou a fronteira que demarca o território reacionário.
Na eleição de 2014, ainda que mantendo alguma discrição, mas já distanciando-se demais da sua tradição liberal-social, o PSDB confirmou a sua desastrosa guinada à direita, com a candidatura de Aécio Neves e os seus desdobramentos no quase inexistente segundo mandato de Dilma Rousseff. Na eleição de 2018, esse deslocamento cobrou o alto preço do encolhimento eleitoral do partido, dando início à irremediável derrocada dos tucanos. A partir de então, o polo opositor ao PT foi assumido por um bloco político-partidário mais radicalizado à direita, capitaneado pelo fenômeno personalista do assim chamado bolsonarismo.
As duas alterações no padrão de competição das eleições presidenciais —a saber, a substituição do PSDB como líder do bloco político opositor à centro-esquerda liderada pelo PT e a radicalização à direita da disputa bipolar— representam um realinhamento parcial da política nacional, que não apenas foi confirmado em 2022 como, ao que parece, será mantido nesta eleição de 2026. Ou seja, o país está dividido entre uma agenda nacionalista, multilateralista, progressista e socialdemocrata de forças políticas convergentes na centro-esquerda, por um lado, e, por outro, uma agenda pró-EUA-Israel, unilateralista, conservadora e neoliberal de uma aliança mais radicalizada entre forças políticas da direita e da extrema-direita.
Em linhas gerais, essas mudanças são uma “adaptação evolutiva” dos agentes políticos contrários à agenda da centro-esquerda brasileira, esse conglomerado de partidos e movimentos que vão da esquerda que participa efetivamente do “jogo eleitoral” e é adepta da “estratégia democrática” para conquistar o poder institucional até a esquerda trabalhista, cujo representante máximo é o Partido dos Trabalhadores, mais próximo do centro —esse espaço ideológico que teima em desafiar os cientistas políticos que procuram defini-lo com alguma precisão. Acontece que, desde que a socialdemocracia do trabalhismo petista chegou à Presidência da República, em 2022, as eleições se tornaram um plebiscito a respeito do partido no poder: mantê-lo ou removê-lo?
Assim como o trabalhismo varguista dominou a competição presidencial de 1945-64, o PT, herdeiro da bandeira trabalhista —obviamente com as suas especificidades contextuais—, logrou vencer todas as eleições até 2014. A sequência de vitórias do trabalhismo varguista, num período de intensa turbulência política, somente foi interrompida com vitória eleitoral de Jânio Quadros, um fenômeno personalista de direita que, com os seus trejeitos performáticos, bradava contra a corrupção da classe política estabelecida. A sequência de presidências petistas, por sua vez, foi interrompida com o impeachment de Rousseff, em 2016, e o subsequente “impedimento preventivo” de Lula, em 2018, retirado da competição eleitoral pelo Poder Judiciário. Com isso, a aliança entre a direita e a extrema-direita encontrou um caminho mais favorável para chegar ao Planalto por intermédio da liderança personalista e performática de Bolsonaro.
O errático e decepcionante governo de Jânio Quadros desembocou no seu pedido de renúncia, em 1961, um ato que abriu as portas para o golpe de Estado em 1964. Afinal, quando a UDN —o “liberalismo brasileiro”— finalmente chegou ao poder pegando carona na candidatura de Quadros, depois de sucessivas vitórias do trabalhismo varguista, o seu adversário figadal, João Goulart, reconduziu o varguismo ao poder devido à renúncia do Presidente —sim, aquele era um sistema eleitoral ímpar, Presidente e Vice-Presidente eram votados separadamente, de maneira que Quadros foi eleito Presidente e João Goulart, do grupo adversário, foi eleito Vice-Presidente.
Naquele clima radicalmente polarizado, a oposição ao trabalhismo varguista, sob a liderança da UDN, negou-se a aceitar a posse de Goulart, dobrando-se apenas com a condição de que o país substituísse o sistema presidencialista pelo parlamentarismo. Assim, Goulart assumiria a presidência, mas não governaria de fato. Contudo, no referendo popular acerca dessa alteração, realizado no início de 1963, o parlamentarismo foi rejeitado, o que provocou o retorno do presidencialismo e a efetivação de Goulart como chefe de governo, cujo mandato foi logo interrompido no ano seguinte.
No caso do PT, o retorno à Presidência da República foi protagonizado pela liderança indissociável do partido e do trabalhismo progressista que ele representa. Lula, num retorno triunfal, foi eleito para o terceiro mandato em 2022, e dá sinais de que é altamente provável, mas não garantido, a conquista do quarto mandato nesta eleição de outubro. Entretanto, caso o PT vença outra disputa com o bolsonarismo, a vitória tende a reproduzir o resultado apertado de 2022 diante da candidatura de Jair Bolsonaro, mesmo depois de um governo arrastado que angariou rejeições crescentes —uma situação que confirma a consolidação dessa polarização radicalizada à direita no padrão de eleições plebiscitárias em relação a Lula e o PT.
Então, assim como o trabalhismo varguista imprimiu uma lógica plebiscitária nas eleições de 1945-60, num contexto de polarização que foi se radicalizando à direita, com a liderança do bloco opositor pela UDN, o trabalhismo progressista do PT e de Lula impôs à estrutura de competição presidencial uma lógica igualmente plebiscitária que provocou a radicalização da sua oposição —antes, liberal-social, tendente ao centro, agora, conservadora, muitas vezes reacionária, e neoliberal do tipo laissez-faire. Assim como a radicalização à direita da polarização do período de 1945-64 contou com a interferência dos EUA, inclusive no apoio ao golpe de Estado, a radicalização à direita da polarização atual também conta com o apoio dos EUA, que declara abertamente as suas interferências já em curso e futuras, algo que já lhe rendeu resultados positivos nas eleições do ano passado e deste ano na América Latina. Neste momento, o campo de batalha eleitoral é o Brasil. Se a história se repete como tragédia, e como tragédia se repetiu, poderá se repetir agora como farsa?
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