Para quem acompanha mais de perto as peripécias do imperialismo orgulhosamente agressivo de Donald Trump, não havia qualquer expectativa de que as negociações deste último dia 12 de abril, em Islamabad, chegassem a bons termos. Dito e feito. Mais próximas de uma tentativa de extorsão do que de uma negociação, as exigências dos EUA ao Irã para encerrar a sua guerra de agressão contra o país, se aceitas, significariam a sua rendição e o condenariam à submissão militar aos desígnios do Estado de Israel para a região, por um lado, e, por outro, à vassalagem política para com os EUA. Em termos geoestratégicos, teria início o seu desacoplamento com a China e, por consequência, o entrave do seu desenvolvimento soberano.
Nenhum acordo, portanto, foi alcançado, como declarou à imprensa o Vice-Presidente J. D. Vance ao término da longa reunião de 21 horas. Mesmo sob a ameaça trumpista de “lançar os iranianos de volta à idade da pedra”, tudo que se tem até agora é o breve cessar-fogo de duas semanas que, na prática, vem sendo violado desde as primeiras horas.
Em represália à resistência iraniana, o governo Trump anunciou um “bloqueio ao bloqueio”. Ou seja, para pressionar contra o bloqueio do estreito de Ormuz, os EUA se propuseram a estabelecer um bloqueio aos portos do Irã, uma medida que traz à memória a antológica cena de um dos episódios mais divertidos da clássica série de TV dos anos de 1960 chamada “Get Smart” — traduzida no Brasil como “Agente 86”. Criada por Mel Brooks e Buck Henry, a série parodiava os filmes e livros sobre espionagem naquele contexto da Guerra Fria, principalmente o personagem James Bond, criado por Ian Fleming, e os seus mais inacreditáveis apetrechos tecnológicos. Maxwell Smart, o “Agente 86”, juntamente com a sua parceira “Agente 99”, atuavam no serviço de contra-inteligência C.O.N.T.R.O.L. no combate à organização criminosa internacional KAOS. Na cena mencionada [“The Tequila Mockingbird”, temporada 5, episódio 103], um agente aponta uma arma para outro, mas logo aparece, atrás dele, um terceiro agente, aliado do primeiro, que aponta a arma para o segundo, e logo aparece um quarto, um quinto, um sexto, e assim por diante, até se formar uma longa fila com agentes fazendo ameaças a agentes que faziam ameaças a agentes que faziam ameaças e por aí vai.
Flagrantemente desprovido das habituais máscaras liberais que marcaram a política externa dos EUA no pós-Segunda Guerra, Trump opera o seu governo sendo ele próprio uma “arma de distração em massa”. À frente do palco, parece ser o protagonista de um enredo tragicômico, um “fanfarrão” desenfreado que embanana, ofende, provoca risos e raiva, faz chantagens deslavadas, intimidações ultrajantes e, com temerária desfaçatez, vocifera aos quatro ventos o seu apetite para cometer o maior de todos os crimes de guerra: “eliminar toda uma civilização”.
Esse “bloqueio ao bloqueio”, por exemplo, aparece como um ato tresloucado, quase caricato, desesperado até, de um governo sem rumo, sem planos de longo prazo, e que na tentativa de encontrar uma saída para evitar a perda da sua hegemonia global move-se como um elefante esbaforido encurralado numa loja de cristais. Afinal, de que capacidades reais dispõem as forças navais estadunidenses para bloquear navios chineses no seu fluxo de entradas e saídas dos portos iranianos?
Mas não nos enganemos. Como já afirmei aqui em artigos anteriores, Trump implementa uma nova etapa, mais dura e brutal, de um plano de longo prazo cujo objetivo final é estrangular a China e, desse modo, conter uma ordem efetivamente multipolar. Para isso, a dissolução do “regime dos aiatolás” não é uma condição sine qua non — mesmo que o Irã resista, o KAOS [permitam-me um trocadilho] estará instalado na região, com impactos econômicos e políticos críticos. De fato, uma tática que os EUA aprenderam com o império britânico segue valendo: quando a competição aberta não garante a superioridade do país perante os concorrentes, a alternativa mais pragmática é inviabilizar a competitividade dos adversários enredando-os nas mais variadas formas de crise para submetê-los à sua dominação ou, na pior das hipóteses, atrasar o seu desenvolvimento.
Efetivamente, a guerra na Ucrânia, os conflitos na Ásia Ocidental, os ataques à Venezuela e a alguns países africanos e as pressões sobre países latino-americanos são todos lances articulados de um jogo maior que os EUA vêm jogando com mais afinco desde o começo deste século, quando ficou claro que havia uma mudança de posicionamento na política russa, com a chegada de Vladimir Putin ao poder, uma “onda rosa” nacionalista e social-democrática na América Latina e a acelerada ascensão econômica e tecnológica da China.
Para ilustrar esse jogo sequencial que os EUA jogam independentemente do presidente e do partido que ocupam a Casa Branca, tomemos o próprio caso do cerco ao Irã. A “mudança de regime” naquele país é um projeto de longo prazo que ganhou maior impulso quando Bush filho (2000-2007) declarou a “guerra ao terror”, na sequência do 11 de setembro. Além das razões específicas intrínsecas ao caso de cada país sob a alça de mira de Washington, as invasões do Iraque e do Afeganistão tinham como uma das suas metas desestabilizar áreas sensíveis no entorno do Irã. No governo Obama (2008-2015), a despeito da assinatura de um acordo nuclear com os iranianos, os EUA deram seguimento aos preparativos para ampliar a desestabilização política regional, dando suporte à chamada “revolução árabe”. Ainda na administração Obama, os EUA promoveram, direta ou indiretamente, as guerras na Líbia, no Iêmen e na Síria.
No seu primeiro mandato, Donald Trump retirou os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã e aumentou as pressões diplomáticas e econômicas sobre o país. Joe Biden deu seguimento à agenda contribuindo decisivamente para a queda do governo Bashar al-Assad, em 2024, além de liberar o bombardeio da infraestrutura militar da Síria pelas forças de Israel. Com isso, as vias de acesso da ajuda militar do Irã ao Hezbollah, no Líbano, foram interrompidas e um vasto território para incursões militares no território iraniano foi liberado. Neste segundo mandato, Trump atacou diretamente o Irã em 2025 e, agora, juntamente com Israel, pôs em andamento uma guerra mais densa e destrutiva que ameaça as economias e a segurança do mundo.
Então, sim, o império segue um plano — e os seus planos são pacientes e de longo prazo. O caos faz parte da sua execução. O Brasil e o seu governo finalmente começaram a perceber, com mais realismo, que fazem parte desse jogo. Claro está que é urgente uma doutrina geopolítica para orientar a defesa e os posicionamentos regional e mundial do país para além do idealismo liberal da “tradição do Itamaraty”. Vide a Venezuela. Vide o Irã. Observe o que vem ocorrendo na Argentina e no Paraguai, cada vez mais abertos às ocupações militares dos EUA.
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