A cada ano, os estudos e as pesquisas envolvendo arquivos literários vêm crescendo no Brasil e abrindo novas fronteiras investigativas e epistemológicas. Pesquisadores, professores e alunos têm percebido a potência da pesquisa arquivística e o quanto esta impulsiona e redimensiona os estudos históricos e literários, seja na descoberta de muito material inédito, seja na reformulação e questionamento dos antigos cânones.
Costumo dizer, aos meus alunos de graduação e aos orientandos da pós-graduação, que muito do futuro dos estudos literários está nos arquivos. Tal afirmação pode soar paradoxal, afinal, os arquivos salvaguardam documentos materialmente antigos e alguns danificados pela ação do tempo. Todavia, o conhecimento científico que desenvolvemos sobre eles é novo, gera novas formulações e postulados e questiona verdades historicamente engessadas e nem sempre (re)avaliadas. Por isso, esse aparente paradoxo explica-se e faz-nos compreender a importância e o valor que devemos dar aos arquivos.
Cartas, bilhetes, telegramas, anotações, desenhos, esquemas de obra, recortes de jornais e revistas, rascunhos, mapas, fotografias, manuscritos em geral… todas essas materialidades são encontradas nos arquivos. Existe mesmo uma espécie de meio ambiente próprio nas instituições que os abrigam, deparamo-nos com uma outra lógica temporal e invadimos aquele universo documental tão significativo para as nossas investigações e teorizações.
Entretanto, espera-se uma equilibrada postura por parte do pesquisador: a pesquisa em arquivos não deve ser produzida com o intuito de provar algo. Ao contrário, esse tipo de pesquisa deve problematizar, questionar as fontes documentais e repensar os cânones. De fato, há um constante movimento de questionamento canônico, pois cada vez que descobrimos e analisamos um documento, este pode despertar um novo conceito e obrigar-nos a reescrever os cânones, especialmente aqueles da historiografia literária.
Felizmente, temos, no Brasil, inúmeras instituições de capital importância na salvaguarda de documentos literários, como o o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP); a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), também da USP; a Fundação Casa de Rui Barbosa, vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), instalada no Rio de Janeiro; o Acervo dos Escritores Mineiros da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); o arquivo do Museu Mariano Procópio (Mapro), da Prefeitura de Juiz de Fora, em Minas Gerais; a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), instituição federal com sede em Recife, Pernambuco; o Centro de Documentação Cultural da Universidade Estadual de Campinas (Cedae/Unicamp); o Delfos — Espaço de Documentação e Memória, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em Porto Alegre; o Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (Caal), em Petrópolis, Rio de Janeiro; e tantas outras que são fundamentais na preservação da memória documental da literatura brasileira.
Mas nem tudo é beleza! Infelizmente, sabemos o quanto muitos documentos têm sofrido uma verdadeira odisseia para se manterem minimamente preservados — instituições decadentes e insalubres, descaso de muitos familiares e herdeiros de escritores e nossa crônica falta de uma política pública de arquivos.
Entretanto, sou otimista e acho que o saldo positivo ainda é maior. Prova disso tem sido um profícuo número de publicações que exploram as mais diferentes fontes documentais dos nossos arquivos literários, bem como já temos uma considerável teorização sobre essa temática. Tudo isso tem arejado e perfumado a nossa área de estudos, o que é bom e revigorante para os estudos literários brasileiros.
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