Artigo

O gato de Schrödinger

Paulo Peres
é cientista político, especialista em análise institucional e professor no departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
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Paulo Peres
é cientista político, especialista em análise institucional e professor no departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Estamos na reta final do primeiro turno das eleições de 2026. Mas, como tem sido a regra desde que Fernando Collor chegou à presidência, voltaremos às cabines de votação no dia 25 de outubro para o segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro —vale sempre observar que apenas Fernando Henrique Cardoso logrou vitória na primeira votação. Como também tem sido a regra em toda eleição, os cientistas políticos são buscados por jornalistas que procuram dar sentido à campanha, ao humor do eleitorado, ao andamento das intenções de voto e, principalmente, a antecipação dos resultados eleitorais mais prováveis.

Desprovidos de uma bola de cristal, leigos na leitura de tarô e sem nenhum conhecimento de qualquer prática ou ritual de adivinhação, tudo o que nos resta para satisfazer tal demanda é recorrer à análise dos dados disponíveis fazendo uso da prudência. No meu caso, procuro traçar cenários plausíveis a partir de uma análise estrutural das conjunturas políticas. Isso consiste em usar a mais longa série histórica possível de eleições para identificar padrões, que devem ser compreendidos como a expressão dinâmica e recorrente da estrutura política [arranjo institucional e preferências eleitorais agregadas], portanto, de algo mais permanente.

Como essa estrutura é a base sobre a qual transcorrem eventos conjunturais, no caso, cada processo eleitoral específico, é prudente —e prudente é um termo escolhido a dedo aqui— supor que, na maior parte das vezes, os padrões estruturais tenderão a ser replicados nas eleições singulares. Mesmo quando observamos fugas ao padrão, ainda assim a análise estrutural das conjunturas é essencial para se diagnosticar as rupturas ou desvios momentâneos daquilo que era o esperado. Inclusive, isso permite que se examine até que ponto a próxima eleição confirmará o novo quadro, sugerindo a possível emergência de outro padrão, ou retornará ao padrão eleitoral anterior. 

Então, enquanto muitos prestam mais atenção ao vai-e-vem dos números das sucessivas ondas de pesquisas eleitorais [observação da dinâmica conjuntural], costumo utilizar mais intensamente a análise estrutural da série histórica das eleições. Além de detectar padrões históricos, essa abordagem —que também pode recorrer à análise estatística e índices matemáticos— favorece o vislumbre dos cenários possíveis dos resultados eleitorais. Mas, atenção nisto: cenários possíveis!

Desde tal perspectiva, como já disse no artigo anterior desta coluna, esta eleição mantém a estrutura bipolar de uma competição que tem o PT como o seu eixo; além disso, sedimenta a radicalização dos últimos dez anos do polo opositor ao PT, que se deslocou para uma posição extremada de direita. Por isso, pode-se dizer, nunca foram tão nítidas como agora as diferenças, que realmente são abissais, entre os dois projetos políticos de país que Lula e Flávio representam. 

Para simplificar, de um lado temos um projeto socialdemocrata moderadamente desenvolvimentista e nacionalista, de outro um projeto neoliberal laissez-faire alinhado à geopolítica da hegemonia estadunidense. Quando o PSDB liderava a oposição ao PT, as posições em disputa eram moderadas, tendentes ao centro, de maneira que as escolhas eleitorais eram mais nuançadas. Entre o trabalhismo do PT, que oferecia políticas socialdemocratas, e o liberalismo social do PSDB, que acenava mais efusivamente para o mercado, mas resguardava funções sociais básicas para o Estado, as diferenças programáticas eram mais de ênfase ou gradação das políticas do que dicotomias irreconciliáveis. 

Portanto, ao se tornar mais radicalizada à direita, a partir de 2018, a eleição presidencial bipolar vem se expressando com mais nitidez ideológica, programática e até no que se refere à concepção moral do mundo. Por consequência, o eleitorado está mais propenso ao congelamento dos apoios a um ou outro polo da competição. Os dados das pesquisas eleitorais dessa conjuntura política evidenciam isso —apesar do reboliço da imprensa com a dança dos números das intenções de votos a cada nova pesquisa divulgada, na prática, as preferências eleitorais capturadas pelos principais institutos [Quaest, AtlasIntel e Datafolha] estão praticamente congeladas desde o início deste ano referente a ambos os turnos.

Soma-se a esse perfil mais recente da competição polarizada um padrão que vem se estabelecendo, gradativamente, há três ciclos eleitorais. Refiro-me ao estreitamento da diferença entre os dois principais competidores —enquanto a diferença média das votações obtidas pelos dois candidatos nos segundos turnos de 2002-2010 foi 18,77 p.p., essa distância foi de apenas 5,11 p.p. nas eleições de 2014-2022. Isso indica que a polarização não somente se tornou mais radicalizada [à direita, vale insistir] como também ficou mais congelada [blocos eleitorais estáveis] e extremamente competitiva [estreitíssima diferença de votos]. Concretamente, Dilma Rousseff venceu Aécio Neves, em 2014, por uma diferença de 3,28 p.p., e, em 2022, Lula venceu Bolsonaro por uma margem de 1,8 p.p. [cerca de 2,1 milhões de votos]; por sua vez, as últimas pesquisas para o segundo turno da Quaest [Lula e Flávio com 42%], do Datafolha [Lula: 47%; Flávio: 45%] e da AtlasIntel [Lula: 47,7%; e Flávio: 47,4%] indicam um estreitamento possivelmente ainda mais acentuado.

Como diz o velho bordão, “o segundo turno é outra campanha”, porém, com essa estrutura de competição as margens para ganhar votos são reduzidas e um tanto incertas. Dada a atual conjuntura eleitoral, antecipar o resultado final é como realizar o experimento conhecido como “gato de Schrödinger” —que aqui vale como metáfora, obviamente. Só depois de contados os votos saberemos se o gato está morto ou se ainda está vivo. A decisão estará nas mãos dos indecisos!

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