A multiplicação dos cursos masculinistas e as recentes campanhas para deslegitimar o voto feminino não são episódios isolados. São batalhas em uma guerra que o capital trava contra a democracia e a autonomia das mulheres. O objetivo não é restaurar um passado idealizado, mas projetar um futuro onde a acumulação prossiga sem a “interferência” da soberania popular.
Para compreender essa ofensiva, é preciso ir além do discurso religioso. Há uma racionalidade econômica profunda em ação: a defesa de uma teoria específica de reprodução social. Longe de serem resquícios pré-capitalistas, a família patriarcal e a hierarquia de gênero são estruturas funcionais para a produção de valor no capitalismo contemporâneo.
O Partido Missão propõe substituir o voto universal pelo “voto familiar”. Influenciadores ligados ao grupo declaram que mulheres “votam mal”, pois tenderiam a eleger políticos que ampliam o Estado de bem-estar social. A ideia, porém, não nasce aí: Paulo Figueiredo, assessor do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), já defendeu posição semelhante. Vozes próximas a Trump também já sugeriram que as mulheres perdessem o direito ao voto.
A proposta do “voto familiar” visa subordinar a vontade política da mulher à autoridade do “chefe da família”, partindo do pressuposto de que a autoridade familiar pertence ao homem. Neutraliza-se, assim, o que o pensamento conservador considera a “falha” mais perigosa do sistema democrático. Mas a decisão não é apenas política: é, a um só tempo, econômica e moral. O que une esses fenômenos é a demofobia: o medo da democracia de massas que marca o projeto neoliberal e encontra no conservadorismo moral seu aliado estratégico.
Para a tradição que remonta a Friedrich Hayek e à Sociedade Mont Pèlerin, fundada em 1947, o sufrágio universal é visto como ameaça à estabilidade econômica. As massas, ao votarem, “extorquiriam” o Estado em busca de direitos sociais e redistribuição. O voto feminino, nessa perspectiva, é a maior “falha”: dobrou o eleitorado propenso a demandar gasto público e políticas de cuidado.
O discurso religioso, nesse contexto, não é acessório nem mera roupagem ideológica. Sua eficácia reside na sua articulação com a racionalidade econômica neoliberal. Ao pregar a submissão feminina e a centralidade da família patriarcal, esses grupos legitimam aquilo que o capital exige em termos materiais: a transferência da reprodução da vida (saúde, educação, cuidado) do público para o trabalho doméstico não remunerado das mulheres.
Essa transferência, contudo, não se esgota na privatização do custo da vida. Ela configura um novo cercamento, no sentido histórico de captura de terras comuns, agora aplicado à vida cotidiana. O capital extrai desse processo múltiplos ganhos: na mais-valia do trabalho reprodutivo não pago, na disciplinarização da classe trabalhadora, na fragmentação dos trabalhadores, na mercantilização do cuidado e do afeto, agora capturados pelas plataformas digitais e pelos “coaches” masculinistas. Cerca-se o que ainda não é mercantil. E, nesse movimento, produz-se uma tragédia silenciosa: destrói-se justamente aquilo que é condição necessária para a própria reprodução social.
No Estado de bem-estar, a casa funcionava como fábrica: produzia o trabalhador industrial. Agora, com o desmonte das garantias coletivas, a casa se transforma em laboratório. Nela se experimentam novas formas de exploração e controle, sem mediação pública.
A pandemia escancarou essa transformação. O trabalho doméstico e o cuidado se intensificaram dentro de casa, sem a rede de proteção de outros tempos. A violência contra as mulheres, nesse cenário, não é um acidente. Ela opera como pedagogia da crueldade: habitua a sociedade à violência e à indiferença, ensinando que o corpo feminino é território disponível para a disciplina.
Como argumenta Silvia Federici, a violência contra as mulheres e a desvalorização do trabalho doméstico são ferramentas sistemáticas de disciplinamento da força de trabalho. Melinda Cooper complementa: a aliança entre livre mercado e conservadores morais respondeu à “indisciplina” gerada pelo Estado de bem-estar social.
A destruição das garantias coletivas e o apelo à “família tradicional” são as formas que o capitalismo encontrou para gerir a precariedade que ele mesmo produz. A família é a unidade básica de reprodução do capital, onde o cuidado é extorquido gratuitamente e a autoridade masculina funciona como disciplina. Impede-se, assim, que os trabalhadores se reconheçam como classe.
Ao atacar a autonomia feminina e o sufrágio universal, esses grupos atacam as bases da soberania popular. Substituem a cidadania pela submissão e a política pela autoridade doméstica. A violência contra as mulheres não é efeito colateral do autoritarismo: é sua condição de possibilidade.
Não se trata, porém, apenas de uma racionalidade demofóbica. O que vemos é uma guerra mais longa contra a democracia, que ganhou forma explícita com Pinochet. No Chile, ele retirou as panelas das cozinhas coletivas, proibiu o divórcio, privatizou a saúde e a educação. E matou para impor esse modelo, que desde então evolui em estratégias e táticas, sem abandonar seu núcleo. O que muda é a sofisticação dos instrumentos, não o objetivo.
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