A Bolívia está em ebulição. Há cerca de quatro semanas o país está tomado por marchas, protestos, greves e barreiras nas vias que dão acesso à capital. Sitiada, La Paz sofre com o desabastecimento de alimentos e combustíveis. Com crescente violência, os agentes de segurança, junto com as forças armadas, reprimem a massa de trabalhadores urbanos e do campo, as organizações comunitárias e dos povos originários, além de estudantes e cidadãos em geral que ocupam as ruas da cidade e adensam o entorno da Plaza Murillo, onde fica a sede do governo.
Sem um dia sequer de paz, em La Paz, Rodrigo Paz sinaliza estar disposto a negociar alguns pontos das suas políticas e a remodelar o seu ministério. Resolutos, os manifestantes pedem a sua renúncia. Exasperados, parlamentares governistas acusam a oposição de tentativa de golpe de Estado. Aturdidos, membros do governo cogitam decretar estado de exceção. Presunçoso, Marco Rubio, Secretário de Estado do farol da democracia, já adiantou que o governo estadunidense não aceitará a deposição de Rodrigo Paz.
Desde a Argentina, o presidente “¡viva la libertad c@r%j*!”, Javier Milei, expressou o seu apoio ao governo de Paz. Seguiu-o Benjamin Netanyahu, desde Israel, a “única democracia” da Ásia Ocidental. Ambos, preocupados com a paz, clamaram pela garantia dos direitos humanos [?!?!]. No contrafluxo, da Colômbia, Gustavo Petro ressaltou que as ruas do país vizinho estão ocupadas por movimentos obreiros, portanto, legítimos. Indignado com o que considerou uma interferência na política boliviana, o governo de La Paz expulsou a embaixadora colombiana, Elizabeth Carrillo, abrindo outra frente de tensão diplomática na região envolvendo um governo de esquerda/centro-esquerda e um governo de direita. Do Brasil, Lula, mais conciliador, enviou ajuda humanitária e defendeu uma solução pacífica e negociada.
Toda essa efervescência, porém, não é de agora. Logo após o segundo turno da eleição que deu vitória a Rodrigo Paz, em outubro de 2025, começaram os protestos, marchas e bloqueios sob a liderança das centrais sindicais, que continuaram até janeiro deste ano. Ocorre que a conquista da Presidência da República não foi um cheque em branco dos trabalhadores ao candidato da centro-direita. A força política que governava o país há quase vinte anos, o Movimento ao Socialismo [MAS], estava desgastada com a crise econômica dos últimos anos e as disputas internas que provocaram uma cisão no partido de Evo Morales. Com baixa popularidade, Luis Arce, o então presidente em exercício, decidiu não concorrer em 2025, deixando um vácuo no espaço da esquerda eleitoral. No segundo turno entre Paz [centro-direita, em princípio, moderada] e Jorge Quiroga [representante de uma direita mais conservadora e simpatizante de Pinochet], o eleitorado órfão do MAS votou, de maneira estratégica, pelo “menos pior”.
Rodrigo Paz fez uma campanha moderada, prometendo estabilidade política e econômica com um “capitalismo para todos”. Vitorioso nas urnas, Paz anunciou um pacote de “emergência econômica e social” para enfrentar a inflação, o déficit fiscal, o baixo volume de reservas internacionais, o crescente esgotamento do estoque de gás e a volatilidade do seu preço, além do desabastecimento de combustíveis e alimentos. Aqui veio a guinada neoliberal com medidas que sacudiram o frágil apoio eleitoral conquistado no segundo turno: empréstimo junto ao FMI, corte de 30% nos gastos públicos, reestruturação do Estado, flexibilização das leis trabalhistas, mudanças na propriedade rural, redução dos impostos dos mais ricos e retirada dos subsídios estatais à gasolina e ao diesel —a velha e conhecida agenda da austeridade fiscal.
Instalado no governo, Paz procurou implementar essas medidas alijando a população das decisões, contrariando a prática de elevada participação popular nos espaços estatais iniciada em 2005 como parte constitutiva do Estado Plurinacional. Restabeleceu as relações com Israel, reinstalou no país a Drug Enforcement Administration [DEA] —um braço do Departamento de Justiça dos EUA—, avançou um acordo para a exploração do lítio com o governo estadunidense e permitiu a expansão da Starlink. Tais ações reavivaram a memória de luta popular contra o “imperialismo ianque”.
Mas, a Bolívia não é um caso isolado. No Chile, no Peru, na Argentina e em Honduras a crise política está em banho maria, numa temperatura intermediária que pode aumentar a qualquer instante e chegar ao ponto de ebulição. De fato, todos esses casos expressam a resistência das suas populações ao eterno retorno da agenda neoliberal. Inclusive, o quadro político mais estrutural revela um fenômeno mais profundo que se manifesta em toda a região desde a redemocratização dos anos de 1980-1990.
Por um lado, temos uma dinâmica pendular, em geral de curta duração, entre governos mais à esquerda [nacionalistas, social-democratas/trabalhistas e progressistas no sentido da pauta identitária] e governos mais à direita [às vezes moderados, às vezes radicais, mas sempre neoliberais e plenamente alinhados com os EUA]. No atual contexto de reconfiguração da ordem geopolítica mundial, essa polaridade tende a se radicalizar não apenas nas disputas internas de cada país, mas também do ponto de vista externa, na relação entre os países, com a possibilidade de produzir crises diplomáticas e até entrechoques mais violentos.
Por outro lado, a oscilação entre ondas direitistas e ondas esquerdistas em ciclos eleitorais estreitos expressa paradoxos que limitam a consistência dessas forças políticas. Partidos mais à esquerda se veem obrigados a fazer concessões aos grupos mais à direita para chegar ao poder e para governar, de maneira que as suas políticas sociais e desenvolvimentistas avançam até o limite das próprias concessões. Assim, as promessas ficam aquém das expectativas dos seus próprios eleitores. Partidos mais à direita, por sua vez, chegam ao poder com promessas de prosperidade por meio do livre mercado, da redução do Estado e da austeridade fiscal, angariando apoio dos eleitores frustrados com a esquerda. Essas políticas, contudo, rapidamente se revelam falaciosas, pois impõem o sucateamento dos serviços públicos a populações majoritariamente carentes, relações de trabalho precárias, arrocho salarial, desemprego, aumento da pobreza e acentuada concentração da riqueza. O resultado, então, é um ciclo de promessas e frustrações à esquerda e à direita.
Agora em junho haverá segundo turno no Peru e na Colômbia; nos dois casos a disputa é bipolar entre a esquerda e a direita. Em outubro, será a vez do Brasil, com uma disputa polarizada e mais uma vez radicalizada à direita, que colocará frente a frente, pela terceira vez, a centro-esquerda de Lula e a direita bolsonarista. No ano passado, no Chile e na Bolívia o pêndulo retornou à direita. Para onde o pêndulo se moverá na Colômbia, no Peru e no Brasil? Aguardemos. Enquanto isso, na Bolívia, sem paz para Paz em La Paz.
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