Artigo

Sobre as eleições presidenciais de 2026 e a rejeição

Humberto Dantas
é cientista político, doutor em Ciência Política. Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.
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Humberto Dantas
é cientista político, doutor em Ciência Política. Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.

A despeito da quantidade significativa de ocorrências “paralelas” às eleições, o que é absolutamente esperado em meio ao dinamismo das sociedades, temos um pleito presidencial. Assim, apesar dos arroubos de Donald Trump, dos conflitos no Oriente Médio, da guerra na Ucrânia, do ativismo do STF, dos conflitos entre Judiciário e Legislativo, do enfraquecimento da agenda do Executivo perante o Congresso Nacional, do ainda ignorado protagonismo político do parlamento, do Banco Master, dos debates sobre juros, do aumento doentio dos feminicídios, das percepções sobre jornada de trabalho etc., temos um pleito presidencial.

Sob tal desafio, existem diversas maneiras de se observar o fenômeno. Uma delas está atrelada à pergunta: continuaremos assistindo à polarização cristalizada que nos caracteriza e divide enquanto sociedade? Foi essa a questão que dirigi ao cientista político Felipe Nunes em entrevista ao Canal Um Brasil. E a resposta não trouxe margem para dúvidas: sim. De olho duro e certeza na voz.

O desejo de parcelas de brasileiros estimadas em cerca de um terço da sociedade de encontrar “alternativa” continua adormecido. Trata-se, inclusive, de um conjunto que Nunes tem chamado de Independentes que “peca” por dois elementos cruciais à necessidade de uma convergência que leve a uma “nova” candidatura viável: uma heterogeneidade incapaz de constituir respostas únicas à polarização e um afastamento acima da média em relação à política, o que resulta em cansaço, apatia e um desejo maior de não comparecer às urnas ou invalidar o voto. Encantar esse público seria um desafio maior do que manter em alta as variáveis que sustentam a polarização – baseada em medos que passam por costumes e religiosidade, bem como em respostas à estafa econômica do trabalhador e à crise de violência que atravessa o país. Essa será a agenda, e Lula e Flávio trafegam em respostas a tais debates. Por que uma alternativa?

Dificilmente teremos uma “terceira via” consistente e capaz de servir de real escape para o que temos em termos de conjuntura eleitoral. Alguns partidos pequenos apostam em nomes frágeis, e tais agentes não carregam consigo mais do que promessas infundadas. Há candidaturas tratando da paz no mundo. Há outras que falam em acabar com o Rio de Janeiro. Há quem traga o STF para a pauta como se isso fosse uma preocupação de 155 milhões de eleitores. Num mundo de verdades paralelas esses nomes podem trazer incômodos, mas leia novamente o que está escrito e pense racionalmente para além de cortes nas redes sociais, conflitos infantis e lacrações imaturas.

Em meio a este debate o PSD seria, tardiamente, sem grandes planejamentos e atitudes de longo prazo, o único partido minimamente estruturado que até agora buscou oferecer alternativa ao debate polarizado entre Lula e os Bolsonaro. Em meio aos seus dilemas internos, três opções surgiram. O ex-governador do Rio Grande do Sul parecia o mais sintonizado à ideia de se apresentar como agente alheio ao conflito atual. Ratinho Jr. apareceu menos, em perfil discreto que poderia alavancar curiosidade. Mas a legenda optou pelo estridente Ronaldo Caiado, cujo discurso não apresenta nada diferente de uma alternativa ao anti-petismo – mais uma. Ele quer convencer o eleitorado que é o único nome capaz de vencer a eleição e se reeleger, e este segundo capítulo é justamente o que o diferencia dos Bolsonaro, tratados como inexperiente (Flávio) ou incompetente (Jair). Seria possível? Com racionalidade extrema sim, como o camaleônico Ciro Gomes tentou fazer em 2018, ao dizer que ele no segundo turno pela esquerda era mais viável do que Haddad para derrotar Bolsonaro. Em resumo: Caiado é linha auxiliar de Bolsonaro, como Ciro foi para o PT.

Aqui, para finalizar essa percepção, entra a figura do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. Ele sabe que não controla um partido homogêneo e nacionalmente preparado para uma candidatura presidencial. Nos estados, é impossível imaginar o PSD longe do PT na Bahia, e até mesmo no Rio de Janeiro, assim como em São Paulo e em boa parte dos estados, será difícil imaginar Caiado em palanques fervorosos com governadores excessivamente bolsonaristas. O partido que mais tem prefeitos no Brasil hoje, superando mil cidades e se aproximando do poder histórico que o (P)MDB perdeu, sabe que não terá essa horda de cabos eleitorais, pois foi exatamente assim que o MDB se manteve grande por décadas: descentralizando e mantendo a unidade na diversidade.

E aqui entra a interpretação otimista de Kassab para a ascensão inesperada de seu candidato: nesse instante a rejeição a Lula e a Flávio é muito alta. Verdade. E isso o fez afirmar que não vê qualquer um dos dois como vencedores. E aqui está o engano, ao menos com base nos números. Em abril de 2022, foram divulgadas onze pesquisas de intenção de votos para o cargo de Presidente. Dez delas, de formas diferentes, mediram rejeição. A média de Lula era de 41% e a de Bolsonaro 53%. Surgiu uma terceira via? Em setembro, às vésperas do primeiro turno, um conjunto de 33 pesquisas mostravam Lula com 42% e Bolsonaro com 52% de rejeição. Surgiu uma terceira via? Foi no segundo turno que isso mudou e caiu discretamente, mas note: a rejeição acima dos 50 pontos não impediu o presidente de ir ao segundo turno, e a alta rejeição ao ex-mandatário não o impediu de ganhar. A rejeição de 2026 fala pouco sobre inviabilizar candidaturas a ponto de Ronaldo Caiado ser competitivo. Primeiro porque seu discurso intensificado e alinhado com os valores da direita, provavelmente, o levará a ser rejeitado por boa parcela do eleitorado em breve. Segundo porque a cristalização da polarização não apenas faz com que se negue algo com incidência, mas também se compre o oposto como salvação, por pior que possa parecer. Assim, no atual cenário, não é só Lula e Flávio que somam votos, mas são esses dois a representar a solução para o que se mais teme: o adversário. Vota-se em Lula para evitar Bolsonaro. Vota-se em Bolsonaro para se evitar Lula, de novo. E é assim desde os anos 90 em parte do mundo, segundo nos disse Castells. Em resumo: polarização extrema, cristalizada e conhecida não faz da rejeição algo expressivo, e a eleição dificilmente será sobre uma terceira via, tampouco excessivamente sobre propostas, mas sim sobre o medo do voto no outro. Lula passou a semana do segundo turno de 2022 com rejeição a 46 pontos e Bolsonaro a 49. Não é sobre rejeição, é sobre algo cristalizado que envolve rejeição.

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