O avanço das regulamentações climáticas e das exigências de ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês) transformaram o papel das reservas florestais privadas, que vivem um período de transição, uma vez que deixaram de ser vistas apenas como obrigação legal para serem tratadas como ativos financeiros estratégicos e geradores de valor.
Embora ainda pouco conhecidas do grande público, essas áreas protegidas representam uma parcela importante dos esforços de preservação do meio ambiente. Em paralelo, funcionam como laboratórios de pesquisa e inovação para a bioeconomia e, em alguns casos, são polos de ecoturismo. “Muitas reservas privadas foram criadas no contexto de exigências legais. O que está em curso é uma transição — ainda inicial —, em que algumas empresas começam a explorar esse potencial de forma mais estruturada”, avalia a diretora de Engajamento Corporativo da The Nature Conservancy (TNC) no Brasil, Aline Perez. Segundo ela, essas iniciativas têm, ainda, o potencial de expandir a conservação em regiões onde o Poder Público tem menos capacidade de atuação.
Manter áreas protegidas exige investimento, conhecimento técnico e planejamento permanente, o que torna evidente a necessidade de mecanismos para a sustentabilidade financeira dessas iniciativas, como turismo responsável, pesquisa científica e pagamento por serviços ambientais.
A chamada economia da natureza é o esforço para integrar o valor dos recursos naturais ao sistema econômico global. Florestas, áreas úmidas, restingas, campos naturais e outros ecossistemas prestam serviços fundamentais ao planeta, como regulação climática, proteção de recursos hídricos e armazenamento de carbono.
“Durante muito tempo, áreas conservadas foram vistas, principalmente, sob a ótica da proteção ambiental. Essa função continua sendo central e indispensável, mas já há uma compreensão mais ampla sobre o valor que elas geram para a sociedade”, observa o biólogo Tiago Egydio Barreto, porta-voz da Rede Brasileira de Reservas Privadas (RBRP) e gerente de Sustentabilidade da Fundação Eco+, mantida pela indústria química Basf, com reservas em Guaratinguetá, Jacareí e São Bernardo do Campo (SP).
O Brasil tem 1.902 reservas particulares legalizadas, que protegem 837 mil hectares de áreas naturais. A maior parte (cerca de 72%) encontra-se na Mata Atlântica, com os Estados de Minas Gerais, Paraná e Bahia no topo do ranking em número de unidades criadas, segundo a Confederação Nacional de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (CNRPPN).
A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) é um instrumento jurídico que reconhece uma propriedade particular como Unidade de Conservação (UC). Essas reservas têm caráter perpétuo e funcionam por meio de um compromisso voluntário em que o proprietário destina seu imóvel à preservação ambiental, sem perder a titularidade da terra. Embora criadas para conservação da biodiversidade, são permitidas atividades de turismo, educação ambiental e pesquisa científica, além da comercialização de créditos de carbono.
O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criado em dezembro de 2024, deu segurança jurídica à expansão desse negócio, um divisor de águas tanto para o mercado de créditos de carbono em geral quanto para projetos dentro de áreas protegidas como as RPPNs.
O Legado das Águas, no Vale do Ribeira, no sul do Estado de São Paulo, gerido pela Reservas Votorantim, foi o primeiro território a aplicar a PSA Carbonflor, primeira metodologia registrada na B3 para a catalogação de créditos de carbono no Brasil. No ano passado, recebeu de seus clientes em potencial mais de 1 milhão de hectares de áreas conservadas para análise e verificação da viabilidade de desenvolvimento de projetos de carbono. “Na avaliação da Votorantim, as reservas passaram a ser vistas como ativos estratégicos capazes de gerar receita, fortalecer reputação e contribuir para metas de descarbonização”, destaca a coordenadora de Projetos e Carbono da Reservas Votorantim, Tatiana Motta.
Maior reserva privada de Mata Atlântica, com 31 mil hectares, o Legado das Águas abriga pesquisas científicas, projetos de carbono, restauração ecológica, ecoturismo, educação ambiental e produção de espécies nativas, bem como eventos corporativos e observação de aves — a área é lar de 42% da avifauna do Estado de São Paulo. No ano passado, recebeu mais de 300 turistas por mês e 330 alunos de diversas instituições de ensino. Em 2025, firmou parceria com a International Flavors & Fragrances (IFF) para a instalação de um laboratório de bioprospecção de espécies nativas, com foco no desenvolvimento de extratos para perfumaria e cosméticos.
Com três territórios sob gestão na Mata Atlântica, no Cerrado e no Pantanal, a Reservas Votorantim encerrou 2025 com crescimento de receita de 22% em relação ao ano anterior, resultado que, para a empresa, aponta a solidez do modelo. “A multiplicidade de fontes de receita permite gerar valor a partir da floresta em pé, criando fontes diversificadas que fortalecem a conservação e ampliam o potencial dos territórios ao longo do tempo”, afirma a executiva.
Além do aspecto ambiental, as reservas florestais também podem contribuir para a pesquisa científica, o monitoramento e a geração de conhecimento sobre biodiversidade e clima.
É o caso da Reserva Ambiental Águia Branca, mantida pelo grupo de mesmo nome, que atua na área de transporte e logística. Em conjunto com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), trabalha na conservação da uruçu-capixaba (Melipona capixaba), uma das abelhas mais raras do Brasil, endêmica das montanhas do Espírito Santo e ameaçada de extinção. Além disso, uma parceria com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) resultou na descoberta da espécie vegetal Philodendron quartziticola, da família Araceae, a mesma dos antúrios e jiboias, classificada como “em perigo”.
Localizada em Vargem Alta (ES), em uma área de 2,2 mil hectares, 91% de sua cobertura florestal é composta por vegetação primária ou em estágio avançado de regeneração. Uma pousada e um restaurante completam a infraestrutura de visitação — desde 2022, 30 mil pessoas passaram pela reserva, que fica próxima à formação rochosa Pedra Azul, um dos principais destinos turísticos capixabas.
Na visão da head de Sustentabilidade do Grupo Águia Branca, Adriana Denadai, empresas que investem em reservas ambientais são beneficiadas pela reputação e pelo fortalecimento do seu compromisso público com a sustentabilidade. “As reservas geram muito valor, mas não apenas como estratégia de compensação ambiental. Além do valor ecológico intrínseco, incluindo sequestro de carbono, conservação da biodiversidade e proteção hídrica, as áreas naturais são socialmente relevantes para as comunidades vizinhas”, explica Adriana.
No Parque das Neblinas, área com 7 mil hectares de Mata Atlântica em Mogi das Cruzes e Bertioga (SP), a Suzano desenvolve ações integradas de educação ambiental, pesquisa científica, ecoturismo, manejo e restauração florestal, além de iniciativas de participação e engajamento comunitário. O território — resultado da transformação de uma área degradada e desmatada para produção de carvão e, posteriormente, ocupada por plantios de eucalipto — recebeu mais de 8 mil pessoas em 2025 e foi palco de 81 estudos científicos. Na área de Educação Ambiental, beneficiou 27 escolas, formou 57 professores e envolveu 1.469 alunos.
A Suzano mantém 1,1 milhão de hectares, o equivalente a 40% da área total do parque, em um modelo que integra conservação, preservação e restauração ecológica. “A estratégia combina a proteção da vegetação nativa, ao mesmo tempo que sustenta a produção de eucalipto”, conta Beatriz Greco Tavora, gerente de Sustentabilidade do Instituto Ecofuturo, Organização Não Governamental (ONG) criada pela produtora de papel e celulose.
Além da área que liga a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) ao litoral paulista, em 2025 a Suzano criou mais duas RPPNs: a Nova Descoberta, no Maranhão, inserida no Corredor Amazônia e no Mosaico do Gurupi, e a Entre Rios, em Angatuba e Bofete (SP), na transição entre o Cerrado e a Mata Atlântica. Segundo a gerente do Instituto Ecofuturo, as reservas privadas ganham protagonismo na agenda climática ao viabilizarem projetos de restauração e captura de carbono em larga escala.
No mercado de carbono, a empresa atua por meio do Projeto Horizonte, estruturado para o mercado voluntário e focado na recuperação de áreas degradadas com reflorestamento e geração de benefícios socioambientais. Em medição realizada em junho de 2025, registrou 2,3 milhões de toneladas de remoções médias de dióxido de carbono (CO₂), das quais 1,9 milhão elegível para emissão e comercialização de créditos.
A Klabin, também do setor de papel e celulose, mantém cinco RPPNs na Região Sul do Brasil que, juntas, somam quase 10 mil hectares destinados à conservação da Mata Atlântica. Na RPPN Complexo Serra da Farofa, em Santa Catarina, construiu o Centro de Interpretação da Natureza (Cinat), estrutura destinada a apoiar as pesquisas científicas, o monitoramento da biodiversidade e a disseminação do conhecimento sobre o bioma. No local, foram desenvolvidos 40 estudos e pesquisas, como o que identificou duas espécies de árvores — o guamirim (Myrceugenia euosma) e o camboim (Siphoneugena reitzii), pertencentes à mesma família da goiaba e da pitanga.
O diretor de Sustentabilidade, P&D+I e Estratégia & Mercado da Klabin, Darlon Orlamunder de Souza, pontua que, como uma empresa de base florestal, a Klabin acredita que, mais do que uma obrigação legal ou ética, conservar a natureza é um investimento que garante a perenidade do negócio. “Conservar é uma condição cada vez mais associada à capacidade das empresas de gerarem valor e manterem sua competitividade no longo prazo”, enfatiza.
No ponto de vista de Aline, da TNC Brasil, há questões relevantes para a consolidação do modelo de negócios das reservas privadas, como viabilidade financeira no longo prazo, qualidade da gestão, segurança jurídica e necessidade de mais alinhamento com políticas públicas. Além disso, há impasses quanto à participação das populações locais. Num país com desigualdade no acesso à terra, a convivência entre áreas protegidas e comunidades pode gerar conflitos. “Quando a conservação impõe restrições sem diálogo ou benefícios claros às populações locais, pode haver resistência. O desafio não é apenas ampliar essas áreas, mas garantir que elas sejam socialmente legítimas e bem integradas ao território”, opina Aline.
Para aproveitar a vocação do turismo de natureza, a Fundação Grupo Boticário implementou, em 2025, oito novos roteiros na Reserva Natural Salto Morato. A área fica na Grande Reserva Mata Atlântica, que abrange 60 municípios entre São Paulo, Paraná e Santa Catarina. “A Salto Morato dá impulso à economia local. São roteiros integrados à comunidade, que fortalecem toda a cadeia de serviços, como guias, pousadas, restaurantes e negócios sustentáveis”, detalha André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da fundação. O local recebe cerca de 5 mil visitantes por ano.
O Grupo Boticário, que também gere a Reserva Natural Serra do Tombador, em Cavalcante (GO), não comercializa créditos de carbono nem realiza pesquisas com interesse comercial em suas reservas. Juntas, ambas as reservas conservam 11 mil hectares de Mata Atlântica e Cerrado. “As nossas RPPNs nasceram com o propósito de conservar a natureza”, ressalta Ferretti, que considera ser cada vez mais importante criar mecanismos que reconheçam e valorizem o papel das áreas protegidas. “Instrumentos como pagamento por serviços ambientais, créditos de carbono, créditos de biodiversidade e o ICMS Ecológico podem contribuir para a manutenção dessas unidades de conservação, fortalecendo iniciativas privadas que ajudem o Brasil a cumprir suas metas climáticas e seus compromissos de proteção da biodiversidade”, completa.
As reservas privadas são fundamentais para as empresas atingirem as metas nacionais e internacionais de conservação ambiental, avalia o biólogo e coordenador de Projetos da SOS Mata Atlântica, Diego Igawa Martinez. Cerca de 80% das terras do bioma são privadas e grande parte dos remanescentes florestais estão fora de UCs públicas — apenas 9,8% do território está incluído em alguma categoria de unidade de conservação. “As metas demandam quase triplicar esse número. E atingi-las sem engajamento das reservas particulares seria impossível”, assegura Martinez.
A SOS Mata Atlântica entende que as vantagens destinadas a quem cria RPPN ainda são pequenas, como isenção do Imposto Territorial Rural (ITR) sobre a área da reserva, possibilidade de acesso a recursos do Fundo Nacional de Meio Ambiente (FNMA) e preferência na análise de crédito rural. “Existem projetos de lei e propostas para a modernização dos instrumentos legais que regulamentam as RPPNs, com a intenção de criar programas de apoio e maiores incentivos financeiros. Contudo, ainda não se tornaram realidade”, aponta.
De acordo com dados do Mapbiomas, o desmatamento em UCs alcança apenas 4% do total. “Em muitas regiões da Mata Atlântica, as RPPNs são as únicas áreas protegidas de um determinado município ou microbacia, e considerando a alta fragmentação e o pequeno tamanho dos remanescentes florestais, as reservas particulares desempenham papel fundamental à conservação”, finaliza Martinez.