Democracia interativa

29 de setembro de 2026

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Pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) — lançaram o Portal da Classe Política, uma plataforma digital brasileira que reúne informações de 2,8 milhões de candidaturas registradas entre 1998 e 2024 no Brasil, um raio-X completo da política nacional. A ferramenta transforma os complexos dados eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em informação visual e interativa acessível a qualquer cidadão, ampliando a ação de fiscalização dos representantes.

Com poucos cliques, é possível descobrir o patrimônio declarado de um deputado, verificar em quais municípios um senador recebeu mais votos ou comparar a evolução da participação feminina nas eleições ao longo das últimas duas décadas. O desenvolvimento exigiu o processamento de 47 planilhas oficiais do TSE, totalizando 8 gigabytes de dados brutos.

“Até hoje, esses dados existiam legalmente como públicos, mas permaneciam tecnicamente inacessíveis para 99% dos brasileiros”, explica o professor Nilton Sainz, coordenador do projeto. “Eram milhões de linhas fragmentadas em planilhas que só especialistas conseguiam processar. Agora, um jornalista investigando uma denúncia, um cidadão fiscalizando seu representante ou um estudante pesquisando sobre democracia têm acesso às mesmas informações de forma visual e intuitiva”, detalha.

O portal oferece três tipos principais de análise, todas gratuitas e sem necessidade de cadastro:

– perfil individual dos candidatos: a partir do nome de qualquer político, é possível acessar seu histórico completo, como todas as eleições disputadas desde 1998, evolução patrimonial, cargos conquistados e um mapa interativo mostrando onde recebeu mais votos. O sistema já identificou 1,8 milhão de pessoas únicas que disputaram eleições no período;

– indicadores científicos automatizados: 12 métricas usadas por cientistas políticos estão disponíveis em gráficos simples. Por exemplo, o “Número Efetivo de Partidos” mostra se o Congresso está mais ou menos fragmentado ao longo do tempo, informação crucial para entender a dificuldade de formar maiorias e aprovar reformas;

– cruzamentos personalizados: comparação de candidaturas por gênero, raça, escolaridade, ocupação ou partido em qualquer período. Por exemplo, é possível visualizar que, apesar da lei de cotas de 30% a candidaturas femininas existir desde 2009, as mulheres receberam apenas 12% do total de votos para vereador em 2024.

“Transformamos fórmulas matemáticas complexas em visualizações que qualquer pessoa consegue interpretar”, destaca o professor Adriano Codato, coordenador do INCT ReDem, que é um dos principais centros de pesquisa sobre democracia do Brasil, reunindo pesquisadores e pesquisadoras de diversas universidades para produzir conhecimento científico aplicado ao fortalecimento das instituições democráticas.

A plataforma cobre todas as 5,57 mil cidades brasileiras e permite análises de eleições municipais, estaduais e federais. Um exemplo: para a busca pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, o sistema mostra que sua votação está geograficamente concentrada em poucos municípios da Paraíba, uma informação relevante para entender sua base política e seu poder de articulação.

Outro resultado obtido com dados do portal mostra que as candidaturas femininas para deputada federal cresceram quase dez vezes, enquanto as eleitas, pouco mais de três. O número de mulheres que disputam uma vaga na Câmara dos Deputados saiu de 358 candidatas, em 1998, para 3.668, em 2022, um crescimento de aproximadamente 925% ao longo de sete ciclos eleitorais.

No mesmo período, o número de deputadas federais eleitas passou de 29 para 90, um crescimento de 210%. Nas assembleias estaduais, o padrão repete-se em escala diferente: candidaturas femininas cresceram 314,1% (de 1.396 para 5.781), enquanto o número de eleitas avançou 76,6% (de 107 para 189). Parte desse crescimento de candidaturas é explicado pela Lei das Eleições (Lei 9.504/1997) e pela Minirreforma Eleitoral (Lei 12.034/2009), que fixou a reserva de ao menos 30% das candidaturas proporcionais para cada gênero.

O portal foi desenvolvido com o objetivo de atingir diferentes públicos, como jornalistas, que podem checar rapidamente declarações de políticos e identificar padrões suspeitos; gestores públicos, que conseguem avaliar o efeito de reformas eleitorais com dados objetivos; Organizações da Sociedade Civil (OSCs), que passam a ter argumentos concretos para campanhas por maior representatividade; professores e estudantes, que podem acessar material didático sobre o funcionamento real da democracia; e cidadãos comuns, que podem fiscalizar seus representantes sem precisar de conhecimento técnico.

A equipe planeja disponibilizar uma Interface de Programação de Aplicativos (API) para que outros desenvolvedores criem aplicativos usando os dados e um pacote R (ferramenta de análise) para pesquisadores. Há também interesse de instituições internacionais em replicar o modelo em outras democracias.

O Portal da Classe Política é fruto de um investimento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em ciência aplicada à transparência democrática. A iniciativa posiciona o Brasil como referência em dados eleitorais abertos e acessíveis, fortalecendo a confiança nas instituições em tempos de crescente desinformação.

*A BORI oferece soluções para tornar o conhecimento científico acessível, transformando conhecimento em impacto público, com soluções personalizadas por meio de tecnologia, curadoria e expertise jornalística e científica. Pelo seu trabalho pioneiro e inovador, a BORI já recebeu mais de dez prêmios nacionais e internacionais na área de divulgação científica. Acessewww.abori.com.br.

ESTE CONTEÚDO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​4 (​SET/OUT) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Agência Bori* Maria Fernanda Gama
Agência Bori* Maria Fernanda Gama