Diálogo possível

06 de fevereiro de 2026

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Ruptura, choque, consternação, traição, desastre, beira do precipício. Estas foram algumas das palavras escolhidas pela mídia europeia para descrever o que aconteceu durante o Fórum Econômico Mundial, que aconteceu na cidade de Davos, na Suíça, entre os dias 19 e 23 de janeiro. Também ganhou destaque o episódio em que a presidente do Banco Central europeu, Christine Lagarde, saiu em meio a um jantar, durante um discurso do secretário do Comércio norte-americano, Howard Lutnick. Nem sombra do diálogo proposto como tema central da edição de 2026 — Um Espírito de Diálogo (A Spirit of Dialogue).

O grande causador da ruptura vista nesta edição tem nome e sobrenome: Donald Trump. A confirmação da presença do presidente dos Estados Unidos — que não compareceu na edição passada — foi, primeiro, interpretada como um sucesso do fórum. Mas a sua participação acabou por impor pouca margem para o diálogo esperado diante de um mundo que atravessa muitas e intensas turbulências. Antes do evento, Trump anunciou aumento de tarifas para oito países da Europa. Na sequência, desistiu ao declarar que chegou a um acordo sobre a Groenlândia, sem ninguém entender exatamente que acordo é esse.

“Ele recua muitas vezes no que diz, mas não recua sempre. De qualquer forma, não é um recuo pelo diálogo, porque ele tem uma postura muito agressiva. Ele faz sua comunicação, depois vê como os outros reagem”, analisa António Alvarenga, professor na Nova Business School of Economics (Nova SBE), de Portugal.

Se, de um lado, as declarações que Trump atiram para todas as direções e tornam a comunicação norte-americana confusa, Alvarenga critica também a Europa pelo mau uso das palavras. “Um dos problemas da Europa é que há um discurso muito politicamente correto, mas que não leva a ações concretas. Por exemplo, repete-se que a União Europeia (UE) deve ficar menos dependente dos Estados Unidos, mas o parlamento europeu adiou a ratificação do acordo com o Mercosul. Esse descolamento entre conversa e prática aumenta o ceticismo”, pontua o professor.

Ainda que o cenário não parecesse propício ao diálogo, Alvarenga avalia que houve passos reais em Davos. “Passados quatro anos desde o início da guerra na Ucrânia, Zelensky [Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia] anunciou que vai conversar com a Rússia e os Estados Unidos. Gerir desacordos e divergências pode não parecer uma boa definição de diálogo, mas é melhor do que nada”, opina.

No entanto, foram vários os momentos em que a gestão de desacordos foi trocada pelo enfrentamento. O desejo de não ceder, mesmo quando um país com a força dos Estados Unidos passa a atacar antigos aliados e a desdenhar de instituições internacionais dos quais antes era o principal garantidor, foi traduzido no discurso de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá. Carney conclamou para uma aliança de potências médias contra “o poder duro”. “Não devemos permitir que a ascensão do poder duro nos cegue para o fato de que o poder da legitimidade, da integridade e das regras continuará forte, se escolhermos exercê-lo juntos”, disse.

Descentralizar alianças

Parcerias independentes dos Estados Unidos são, em certa medida, um caminho para evitar retrocessos na globalização, acredita Paulo Feldmann, professor na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). “Trump tem atitudes imperialistas como no século 19, o que a gente não achava que não existiria mais. Mas estamos mais escolados para combater imperadores, porque a globalização é uma conquista da civilização. Uma saída que foi discutida em Davos é justamente a união dos países prejudicados”, aponta.

Assim, embora Trump tenha dominado a agenda e obtido os principais holofotes com suas decisões unilaterais, artigos de opinião nos principais jornais da Europa assinalaram que suas atitudes levam a uma derrota maior. O espanhol El País publicou que os “EUA marcham rapidamente para o suicídio geopolítico”. Segundo o francês Le Monde, a hegemonia norte-americana durou de 1944 a 2025. O britânico Financial Times anunciou que “é hora de procurar novos amigos”.

O país que realmente sai ganhando com a falta de abertura para o diálogo do presidente Trump é a China, que passa a se consolidar como um país de economia estável e confiável. A economia global está se acomodando para depender menos de Washington, enquanto depende cada vez mais de Pequim. “Apesar de Trump, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que o mundo vai crescer 3,5% em 2026, que é uma taxa muito boa, porque a China continua crescendo. O saldo comercial chinês chegou US$ 1,2 trilhão no ano passado”, observa o professor da FEA.

Passos para trás

Ao focar num discurso protecionista e beligerante, os norte-americanos estão ficando para trás também em outro tema essencial para o mundo atual: a transição energética. “Joe Biden [ex-presidente dos Estados Unidos] havia lançado uma política para estimular a fabricação interna de equipamentos de energia limpa, que Trump revogou porque quer ressuscitar o petróleo. Contudo, a China é o maior fabricante de equipamentos para a produção de energia limpa. O mundo todo sabe e, principalmente, a China sabe que o futuro está na energia limpa”, pontua Feldmann.

As disputas geopolíticas acabaram eclipsando os debates sobre os problemas que costumavam ter mais destaque em edições anteriores do Fórum Econômico Mundial. No entanto, mesmo fora do radar midiático, eles aconteceram. “Pautas que sempre chamam a atenção, que ensejam iniciativas, acabaram ficando em segundo plano. Mas tivemos 1,3 mil especialistas conversando sobre assuntos como emergência climática, infraestrutura de energia, cibersegurança e mudanças sociais por causa da IA”, destaca José Carlos de Souza Filho, professor na FIA Business School.

As divergências entre líderes mundiais, tão gritantes no momento, devem ir “se acomodando”, porque as necessidades da economia vão falar mais alto, prevê Souza Filho. “A economia não globalizada traz consequências negativas, como a desaceleração do crescimento. Isso pode até acontecer, mas não é interessante para ninguém. Vivemos, sim, tempos turbulentos, mas que vão gerar acomodações futuras”, conclui.

Luciana Alvarez
Annima de Mattos
Luciana Alvarez
Annima de Mattos