Artigo

Corolário Trump

Paulo Peres
é cientista político, especialista em análise institucional e professor no departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
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Paulo Peres
é cientista político, especialista em análise institucional e professor no departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O ano geopolítico de 2026 começou quente. Muito quente. E não há razões para acreditar que essa temperatura se arrefecerá tão cedo, a julgar pelas diretrizes expostas no National Security Strategy of the United States of America [NSS], divulgado no início de dezembro de 2025. O documento deixa claro que os atos aparentemente erráticos do governo de Donald Trump não são improvisações, mas parte de uma estratégia geopolítica coerente, ainda que agressiva, voltada à manutenção da hegemonia dos Estados Unidos, se não mais em escala global, ao menos no Hemisfério Ocidental. Trata-se, essencialmente, da continuidade da Doutrina Monroe numa versão realista e pragmática expressa pelo assim chamado Corolário Trump.

Essa reatualização apresenta duas inovações. A primeira é a ruptura explícita com a tradição liberal que moldou a política externa norte-americana desde Woodrow Wilson, no pós-Primeira Guerra, e levada a cabo especialmente após a Segunda Guerra Mundial. A outra é a ampliação do escopo da Doutrina Monroe para além de sua formulação original, incorporando o controle direto de investimentos estrangeiros, cadeias de suprimento críticas e infraestrutura estratégica. Nesse novo enquadramento, China e Rússia não devem exercer qualquer influência política, econômica ou militar no continente americano e mesmo no contexto europeu. Portanto, os objetivos estratégicos permanecem os mesmos de sempre, mas o método empregado para alcançá-los retoma, de maneira ampliada, o modelo político do século XIX. 

De fato, a história da política externa dos EUA é marcada menos por rupturas substantivas do que por ajustes estratégicos na forma de exercer o poder. Desde o século XIX, o objetivo central tem sido assegurar a primazia norte-americana por meio do controle de territórios, mercados, rotas comerciais e recursos estratégicos. Com efeito, a Doutrina Monroe, formulada em 1823, nunca foi uma defesa da autodeterminação dos povos latino-americanos, mas sim a base ideológica para a construção de uma hierarquia hemisférica subordinada aos interesses geopolíticos das elites norte-americanas num programa imperialista progressivo. Nesse sentido, ela se alinhava profundamente à Doutrina da Conquista, que naturalizou a expansão territorial dos EUA, a expropriação de terras indígenas e a anexação de territórios mexicanos, baseando-se em argumentos de supremacia racial e civilizacional.

No campo econômico, os Estados Unidos também estiveram longe do liberalismo do livre mercado. No final do século XIX, o presidente William McKinley, fonte de inspiração para a política tarifária de Trump, elevou as tarifas médias de importação para quase 50% em 1890 [McKinley Tariff Act], com o objetivo de proteger a indústria nacional contra a concorrência europeia. Esse episódio consolidou o protecionismo como instrumento estratégico de poder econômico, numa lógica mercantilista tardia mais próxima de Friedrich List do que de Adam Smith. 

Theodore Roosevelt aprofundou essa orientação ao formular, em 1904, o seu Corolário à Doutrina Monroe. A crise venezuelana de 1902–1903 [sim, a Venezuela!], quando potências europeias impuseram um bloqueio naval ao país por dívidas não pagas, foi utilizada como justificativa para afirmar o direito dos Estados Unidos de intervir nos “assuntos americanos” sempre que julgassem necessário. Assim, Roosevelt consolidou a ideia de que os EUA poderiam atuar como “polícia internacional” no hemisfério, um princípio que sustentou intervenções em Cuba, Nicarágua, Haiti e outras nações latino-americanas ao longo do século XX.

Entretanto, o governo de Woodrow Wilson provocou uma inflexão na geopolítica dos EUA. A partir da sua presidência, o idealismo liberal passou a operar como o eixo central da política, transformando a Doutrina Monroe numa missão universal. A democracia foi elevada à condição de arma geopolítica, sintetizada no lema “tornar o mundo seguro para a democracia”, um slogan usado pelo seu governo para legitimar a entrada do país na Primeira Guerra. Essa mudança permitiu expandir o alcance da doutrina para além do hemisfério, materializando-se nos 14 Pontos de 1918, na criação da Liga das Nações e, posteriormente, na consolidação de instituições multilaterais, programas de desenvolvimento e estratégias de nation building. Agências como a USAID e disciplinas das ciências sociais foram amplamente instrumentalizadas nesse processo, convertendo a mudança social em ferramenta de soft power desse projeto imperialista.

O atual governo Trump representa uma ruptura instrumental com essa tradição liberal, considerada idealista, custosa e ineficaz. Ao rejeitar a promoção da democracia e dos planos de nation building em outras nações, a sua administração retoma práticas explícitas de coerção econômica, protecionismo, intimidação diplomática e uso direto da força, desvinculadas de qualquer retórica normativa universalista. Nesse contexto, ações como o ataque à Venezuela e o sequestro de Maduro não devem ser interpretadas apenas como disputas por recursos, mas como sinalizações estratégicas à China e à América Latina de que o hemisfério —agora ampliado para incluir a Europa— permanece sob controle dos Estados Unidos. Sobretudo, essa hegemonia é condição estrutural para a manutenção do dólar como moeda internacional e vice-versa.

O chamado Corolário Trump deve ser compreendido, portanto, como a atualização histórica da Doutrina da Conquista, do Corolário Roosevelt e do protecionismo de McKinley, mas num mundo radicalmente distinto e com enorme capacidade de resistência. Em que medida os Estados Unidos terão capacidades políticas, econômicas e sociais para sustentar essa estratégia agressiva sem colapsar ou se enveredar por uma guerra civil? Em que medida a sua eventual derrocada poderá desencadear um conflito em escala mundial?

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