A madrugada de 3 de janeiro de 2026 consolida um novo patamar de ruptura na ordem internacional. A operação “Determinação Absoluta” realizada na Venezuela e sincronizada por Trump ao som de “Fortunate Son” – é a expressão máxima de uma lógica do choque aplicada à geopolítica.
Composta por John Fogerty em 1969, no auge da Guerra do Vietnã, “Fortunate Son” é um hino de revolta contra a hipocrisia de classe. A letra ataca os “filhos afortunados” que usavam seus privilégios para escapar do alistamento, enquanto os pobres eram enviados para o front. A ironia histórica aqui é tão aguda quanto cortante: Donald Trump, que evitou o serviço militar no Vietnã graças a um diagnóstico de esporões ósseos, apropria-se de um símbolo da resistência ao poder bélico que ele próprio personifica.
A lógica do choque, longe de ser original, resgata a estratégia nazista de criar fatos consumados midiáticos e militares para paralisar a oposição e corroer os limites do aceitável.
Assim como a propaganda de Goebbels pavimentou o Anschluss (a invasão da Áustria por Hitler em 1938) e se alimentou do apaziguamento covarde da França, Reino Unido e Itália no Acordo de Munique, o espetáculo pós-moderno de Trump visa normalizar o intolerável. A violência transcende seu caráter instrumental para se tornar um fim pedagógico em si, uma exibição de soberania que anula a razão e alimenta o desejo sádico da base.
O episódio do sequestro de Nicolas Maduro parece ficcional, diretamente saído dos estúdios de Hollywood. No entanto, a operação “Determinação Absoluta” faz parte de um conjunto de encenações de um processo político real e atual: a condensação, pela extrema direita, do desejo político em uma forma pura e brutal. Ora, a estrutura discursiva e afetiva do desejo trumpiano (como, outrora, do Bolsonaro) emerge diretamente do patriarcado proprietário recessivo, e é disseminada através da pedagogia da crueldade.
O sequestro de um presidente, assim como a proposta de compra ou invasão do território da Groelândia, são o vértice de um projeto mais profundo e estruturado, que tenta legitimar seus excessos políticos e jurídicos em um poder soberano de ditar quem pode viver e quem deve morrer a nível global. A tentativa de Trump de erigir uma Gestapo contemporânea materializou-se no fortalecimento radical do ICE (Immigration and Customs Enforcement). Criado em 2003 no rastro do 11 de setembro, o ICE transformou-se em uma máquina de morte e lucro, graças ao aumento de orçamento e poderes através da Lei BBB (a qual já foi objeto de artigo aqui na PB). Sua atuação, executada por agentes mascarados e milícias privadas que atuam como seus braços irregulares, tem como alvos específicos os corpos racializados, prendendo pessoas por seu sotaque ou fenótipo. Trump fornece a retórica de desumanização necessária para lubrificar essa engrenagem.
O resultado é uma geografia do terror: megacentros de detenção que monetizam o sofrimento, 32 mortes de pessoas sob custódia do ICE em 2025, e pelo menos 2 execuções sumárias (e públicas) cometidas pelos agentes do ICE em Minneapolis em 2026. Esta violência de Estado, que ignora governos locais e consolida um Executivo federal onipotente, segue a cartilha dos métodos da polícia nazista.
Trata-se de criar uma categoria de “não-gente” para servir de bode expiatório e espetáculo de “lei e ordem”, solidificando assim uma base eleitoral alimentada pelo medo. Na lógica descrita pelo primeiro-ministro canadense, “quem não está à mesa está no cardápio” – e o cardápio da necropolítica trumpiana é composto de vidas dispensáveis.
O projeto é, portanto, totalizante. A pedagogia da crueldade opera em simbiose com a política de morte. Internamente, fabrica o inimigo interno racializado e gerencia sua eliminação social, física ou civil. Externamente, trata nações soberanas – da Venezuela invadida, à cobiçada Groenlândia, como territórios-corpos a serem possuídos e explorados. A lógica trumpiana reedita a lógica nazista do Lebensraum (espaço vital) sob o disfarce do neoliberalismo extrativista. Propostas absurdas como um “Conselho da Paz”, com taxa de entrada de um bilhão de dólares, são exercícios da retórica do choque, destinados a banalizar o extremo e anestesiar a consciência coletiva.
Contra essa máquina de morte, porém, insurgem-se focos de vida e autodefesa comunitária. A necropolítica, que designa quem é matável, gera inevitavelmente sua antítese: a organização coletiva para proteger a vida. As redes de alerta contra as batidas do ICE, os acompanhamentos legais comunitários, a proteção a santuários e a resistência popular, como a que se organizou em Minnesota, são atos de autodefesa. Eles representam a recusa dos corpos a serem transformados em alvos ou mercadorias. Enquanto o Estado necropolítico fragmenta e isola, a autodefesa tece laços e cria zonas de fuga temporárias do controle estatal. É a disputa entre o poder de fazer morrer e o poder coletivo de fazer viver.
Os atos de Trump materializam o patriarcado proprietário recessivo, a visão do mundo como um bem a ser possuído, em escala geopolítica, enquanto seu braço doméstico, o ICE, executa a mesma lógica sobre corpos indesejados. O poder já não se justifica; exibe-se. E, diante de sua exibição mais cruel, a resposta não vem de cúpulas internacionais, mas das comunidades que se armam de solidariedade. Se a necropolítica é global, digital e rentável, sua contestação mais vital não está nos palácios, mas nas ruas, nas redes de apoio mútuo e na coragem daqueles que, colocados no cardápio, recusam-se a ser servidos.
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