Artigo

200 anos: D. Pedro II e Camilo Castelo Branco

Leandro Garcia
é professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
N
Leandro Garcia
é professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Na literatura e nos estudos literários, as efemérides sempre têm lugar especial, pois sugerem (re)avaliações críticas, novas abordagens, publicações temáticas etc. Em 2025, tivemos dois bicentenários de nascimento de figuras de imensa importância para as literaturas brasileira e portuguesa: Dom Pedro II e Camilo Castelo Branco.

Ambos foram amigos, como atesta uma ampla documentação recíproca — cartas, telegramas, diários e fotografias —, salvaguardada nos respectivos arquivos. Dom Pedro II conheceu Camilo em 1871, durante a sua primeira viagem a Portugal, no momento em que passou pela cidade do Porto. De lá, tomou um trem e foi até o conselho de São Miguel de Seide, em Vila Nova de Famalicão, onde residia o grande escritor. A admiração do monarca pelo romancista já era imensa, mas fortaleceu-se após essa visita e o impacto que esta causou para o seu íntimo de homem das letras e das ciências. Meses depois desse encontro, Camilo enviou esta carta a Dom Pedro II:

Meu amigo,

O pior é que todos havemos de pagar a infâmia de meia dúzia de biltres. Tenho lido com espanto e até com lágrimas no coração, o que por aí se imprime contra o imperador. A garotice das “Farpas” não tem sequer graça que lhe descontemos. As caricaturas não chegaram cá por enquanto; mas deste chafurdeiro já esparrinhou lama que farte. Há dois opúsculos à competência de sórdidos. Em um sou eu escoiceado por besta anônima; noutro, que se chama o palhaço, é d. Pedro assobiado com desbragada gaiatice. A maioria destes cidadãos gostam e aplaudem. Que infeliz ideia teve o imperador de vir a esta estrebaria! Quem me dera ler o que os brasileiros lá hão de escrever a nosso respeito!

Pouquíssima saúde, meu amigo e vontade de escrever nenhuma. Se eu viver em outubro, vamos para Lisboa. Outro inverno não me apanha cá, a não ser no cemitério. Em junho tenciono ir aí procurar casa e repará-la para a família ir depois. Devem estar lindos os dias aí. Cá não se sente ainda a primavera. A filha da poesia e do amor não tem que ver com estes bêbados. Tenho um filho doente. Chega o médico. Vou ver se intendo a moléstia na cara do doutor. Nunca me deixam estes bocados amargos.

De v. ex.ª Amigo do coração

Porto 10 de abril 1872.

Camillo Castello Branco

Alguns aspectos críticos chamam a nossa atenção: a) a forma de tratamento “meu amigo”, algo totalmente equivocado quando se tratava de um monarca, mas que demonstra a imensa amizade entre ambos; b) a defesa de Camilo em relação ao imperador em razão das críticas feitas a este no periódico republicano As farpas, editado por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão; c) o tom confessional e sincero, próprio da correspondência entre amigos.

Nas outras cartas trocadas, o estilo e conteúdo amistoso permanecem, confirmando os fortes laços que uniam o imperador e o autor de Amor de perdição, um dos mais importantes romances da literatura portuguesa. Não são poucos os registros que Dom Pedro II fez, no seu diário, a respeito do seu amigo. Dentre as tantas, ressalto esta, de 11 de junho de 1890, poucos dias após a trágica morte — por suicídio — de Camilo:

Recebi pormenores da morte e do enterro — chamar de covarde o suicida é escarrar na face de um morto. Não se pode ser mais cruel nem mais infame. Quando confronto a minha covardia com as tentações redentoras do suicídio então compreendo a grandeza de ânimo dos que se matam. A vida dos desgraçados irremediáveis seria um pérfido escárneo do Criador se o suicídio lhes fosse defeso — Um dos cânticos do “Inferno”, de Dante, é um poema de lágrimas. São os suicidas que passam gementes. Camilo ocupava-se quando cegou de um trabalho relativo a Leonor Teles do qual resultava a reabilitação de sua memória, a respeito de Inez de Castro mostrando que não era espanhola, mas que nascera na quinta de Oliveira (em Gaia), propriedade do visconde do mesmo título.

Trata-se de uma das afirmações mais sinceras e humanas feitas pelo imperador em seu diário particular, o que nos permite adentrar um pouco no seu mundo todo pessoal. Longe de defender o ato em si do suicídio, nessa passagem Dom Pedro II sai em defesa da memória do seu amigo, independentemente do seu ato trágico e findo. Era a pessoa do escritor que estava sendo julgada e difamada, especialmente pela imprensa local, muito conservadora à época.

Nessa memória dos 200 anos de nascimento de Dom Pedro II e de Camilo Castelo Branco, temos uma excelente oportunidade para (re)avaliarmos os seus legados e conhecermos um pouco mais de suas vidas e das suas obras.

ESTE ARTIGO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​1 (​M​AR/​ABR) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

leia também