Um dos fenômenos mais espetaculares para quem gosta de análise política é a movimentação de partidos e lideranças durante os meses que antecedem uma eleição. Sendo impossível conhecer todas as alternativas, a beleza está em interpretar ações. A lição que fica é: nem sempre o ideal termina nos resultados esperados.
O fenômeno da “terceira via”, capaz de desarticular a polarização cristalizada no Brasil, como reflexo de movimentos que se repetem em muitas democracias do mundo, não parecia fazer sentido meses atrás. O ano de 2025 terminou com Flavio Bolsonaro lançado pré-candidato para fixar o nome de sua família, e tendência acentuada à direita a partir do PL, na corrida presidencial. Cresceu nas pesquisas, imitou o pai em uma série de movimentos, foi envelhecido em fotos para ficar à imagem do ex-mandatário, mas cravou que as semelhanças não são absolutas, pois respeita mais a política e sabe que articulações são essenciais. O discurso busca arrefecer desconfianças e atrair apoios partidários que não estão garantidos.
Pelos lados da esquerda, ainda em 2025, Lula disse que será “muito difícil” ser derrotado na reeleição, e no final de semana passado garantiu que o pleito será “uma guerra”, colocando fim à ideia de Lulinha “paz e amor”. Assim, seu maior dilema hoje é escolher um vice. A fidelidade de Geraldo Alckmin no PSB o “atrapalhou”, e buscar o MDB para a composição da chapa passa por desqualificar uma parceria valiosa. A única desculpa é considerar que a esquerda não tem outro nome para a disputa que não o de: Lula – eternamente, o que fez até o camaleônico Ciro Gomes desistir do PDT. O que fazer?
A primeira alternativa é manter a chapa e entregar São Paulo para Simone Tebet, o que traria o MDB para perto. O problema é que a ala paulista da legenda é contra o Planalto, sobretudo a partir de Ricardo Nunes, prefeito da capital. Assim, Tebet sairia do MDB, e rumaria para o PSB que seria agraciado com forte apoio à sua trajetória em terras paulistas, uma vez que Alckmin disse que em São Paulo não disputará voto. A segunda alternativa, que pode ser complementar, traria Helder Barbalho como vice de Lula pelo MDB para entrar na região Norte, mas o eleitorado ali é pequeno. E o que fazer com Geraldo? Como pano de fundo estratégico: como reduzir a rejeição a Lula, que equilibra com aquela de Flavio Bolsonaro?
Aqui entra a tal “terceira via”. É grande a resistência a Lula e ao clã Bolsonaro no eleitorado. As taxas de rejeição são altas, e parece se repetir a ideia de 2022 que muita gente votará em A, apenas para evitar B. A fadiga não é pequena, mas faltam alternativas que representem um marco de equilíbrio, naturalidade e viabilidade. A última vez que se viu uma união ampla de centro foi em torno de Geraldo Alckmin (PSDB-PP-PTB-PSD-PRB-PR-DEM-SD-PPS) em 2018, marcando o fim da disputa PT x PSDB em candidatura tão artificial que a traição em favor de Bolsonaro ou de Lula/Haddad deu o tom da campanha pelo Brasil, a despeito dos partidos.
É aqui que entra o PSD 2026, do meticuloso Gilberto Kassab. Em 2022, a legenda ficou fora da disputa eleitoral, sem nomes e apoio formal. Nos últimos quatro anos deixou os estados livres para estabelecerem suas estratégias – e a autonomia estadual é, de longe, o maior desafio para algo que se coloque ao centro das disputas entre PT e PL. Em São Paulo, por exemplo, o PSD tem o vice na chapa de Tarcísio, enquanto na Bahia é parceiro tão visceral do PT que o senador Otto Alencar declarou que a legenda estará com Lula em 2026 – improvável demais.
Ao que tudo indica: o PSD, finalmente em sua história, terá nome próprio ao Planalto. No rol de postulantes, três governadores de peso: o gaúcho Eduardo Leite, o paranaense Ratinho Júnior e o goiano Ronaldo Caiado – o primeiro e o último tirados, respectivamente, de PSDB e União Brasil. Improvável que a chapa presidencial seja pura, e que Caiado seja o escolhido, sobretudo por conta de um vínculo mais intenso com o bolsonarismo. Mas o PSD precisa dele, em algo menos estratégico que a federação União-PP precisava. E aqui está outro elemento do jogo: onde estará a Federação União Progressista em 2026? Ambos têm bancadas expressivas no Congresso Nacional, construídas fortemente no Nordeste. Ciro Nogueira, presidente do Progressistas, por exemplo, se reelegeu senador em 2018 em forte aliança com um PT que criticou demais depois de ser ministro da Casa Civil de Bolsonaro. Mas em 2022, o PP quis processar o PT piauiense por associá-lo ao ex-presidente do PL no estado, e agora que o governador petista lidera a corrida estadual com mais de 80% dos votos, o que será de Ciro Nogueira, em casa, sem o PT? Entendamos aqui a reunião dele com Lula semana passada. E agora? Resta lembrar ainda que o PSD tem força em Pernambuco, Rio de Janeiro e Distrito Federal, pelo menos. E o Republicanos não pode ser deixado de lado dos cálculos por presidir a Câmara dos Deputados.
A chave eleitoral hoje está em perceber o quanto a centro-direita será capaz de arrefecer o bolsonarismo para ser, ela, a principal adversária de Lula, com hipotéticas chances maiores de vitória por uma questão de posicionamento no espectro – o que nem sempre explica o jogo. Viabilizada esta candidatura, o centro poderá voltar a ter peso nacional no Brasil a partir do PSD. Percebe por que Lula anda atrás do MDB e Flávio Bolsonaro atenuou o discurso? Alternativamente, PT e PL vão seguir subindo o tom, sonhando com a ideia de que em campo minado e stress intenso eles sabem jogar melhor um contra o outro. Mas e se um nome mais “equilibrado” se consolidar? Eis a chave da eleição hoje. Lembrando: parte expressiva dos partidos são muito mais autônomos nos estados, e a eleição presidencial passa por estar estruturas locais para se viabilizarem.
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