Artigo

A institucionalização do sadismo como método de acumulação 

Bárbara Dias
é doutora pelo Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ-IESP e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.
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Bárbara Dias
é doutora pelo Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ-IESP e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.

O capitalismo financeiro predatório não alterou apenas a circulação do dinheiro, mas a própria estrutura do desejo e da violência. Para que o sistema funcione em sua lógica de extração máxima e descarte imediato, ele precisa produzir um sujeito específico: aquele que é capaz de extrair valor sem nenhum vínculo com o território, com o trabalho vivo ou com o outro. Esse sujeito opera na lógica de uma negociação de alta frequência, uma tomada de decisão tão rápida que elimina qualquer mediação ética, onde o outro (a empresa, a nação, o corpo) é reduzido a um ativo a ser comprado, desmembrado e vendido em frações de segundo.

A financeirização da vida, mostra que essa lógica invade o cotidiano e os corpos. Não é só o mercado que se torna financeiro; são as relações afetivas, a autoestima e a sobrevivência que passam a ser geridas como ativos. Nesse contexto, a violência contra a mulher deixa de ser um resquício arcaico para se tornar a vanguarda da brutalidade neoliberal. O estuprador e o assassino de mulheres não agem à margem do sistema; eles são os seus soldados mais bem treinados. Eles aprenderam que o outro não é um sujeito de direitos, mas um obstáculo a ser removido ou um recurso a ser consumido.

Silvia Federici nos lembra que a acumulação primitiva nunca terminou; ela se reinventa a cada crise. Hoje, o corpo feminino é o território da acumulação por expropriação mais imediata. A guerra contra as mulheres é a guerra do capital contra tudo o que é vivo, contra tudo o que reproduz a vida. O capital financeiro não produz nada; ele apenas suga, especula e descarta. Para que isso seja possível, é preciso aniquilar a empatia, a solidariedade e o cuidado, valores historicamente associados ao feminino e ao trabalho reprodutivo.

É aí que a “agressividade sádica” se torna o motor da guerra. Não se trata apenas de matar o inimigo, mas de gozar com o seu sofrimento. O sadismo, como bem analisou Rita Segato, é a pedagogia que ensina que o poder se exerce pela capacidade de infligir dor sem piedade. Os vídeos de execuções, as torturas compartilhadas em grupos de WhatsApp, os estupros coletivos, os estupros de idosas, os feminicidios precedidos de sevícias: tudo isso é a encenação de um poder que já não precisa de legitimidade, apenas de submissão pelo terror. É a “guerra total” porque não há mais frente de batalha; o corpo da mulher é a trincheira, o campo minado e o espólio.

Nessa lógica, os discursos de Bolsonaro e Trump encontram ressonância profunda. Quando Bolsonaro diz que a mulher “merece ser estuprada” porque “usou roupa que não devia”, ele não está apenas sendo grosseiro; ele está formulando a lei do mercado financeiro aplicada ao corpo: se você se expõe, será precificada, atacada e descartada. A culpa é sempre da vítima por existir em um espaço que o agressor considera seu por direito de conquista.

O caso Epstein é o exemplo máximo dessa simbiose entre poder financeiro e violência sexual. Epstein não era um desviante solitário; ele era um nó de uma rede que conectava bilionários, políticos e serviços de inteligência. O tráfico de meninas não era um vício privado, mas uma moeda de troca, um sistema de chantagem e um ritual de iniciação no clube dos predadores. A mídia que normalizou o adesivo da Dilma de perna aberta é a mesma que tratou o caso Epstein como um escândalo de “fofoca de celebridade”, ocultando a estrutura de poder que o tornava possível.

Da mesma forma, o ataque à escola de meninas no Irã, executado com o cinismo de quem diz “libertar” as mulheres, é a expressão geopolítica dessa guerra. A bomba que destrói uma sala de aula é o mesmo instrumento que, na bolsa de valores, desestabiliza uma economia rival. As meninas mortas são “danos colaterais”, a expressão máxima do descarte. O que une o agressor sexual, o traficante de Epstein, o eleitor de Bolsonaro e o general que ordena o bombardeio é a mesma subjetividade: a certeza de que o outro é uma coisa, um obstáculo, um nada que pode ser aniquilado sem culpa.

Portanto, a guerra contra as mulheres é a base material e simbólica da guerra do capital contra a vida. Enquanto o lucro depender da capacidade de extrair e descartar, os corpos femininos continuarão sendo os laboratórios onde essa brutalidade é testada e aperfeiçoada. A resistência passa por recusar essa lógica, por reconstruir o comum e por afirmar que o corpo não é mercadoria, mas território de existência e de luta.

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