Artigo

Púlpito, palanque e algoritmo

Graziella Testa
é professora na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB
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Graziella Testa
é professora na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB

Em 1494, Girolamo Savonarola subia ao púlpito de São Marcos, em Florença, prometendo varrer a corrupção dos Médici, queimar a vaidade dos cidadãos e refundar a república sob o signo da virtude. O detalhe que costuma escapar é o cenário. Florença não era cidade atrasada nem periférica: era um dos centros financeiros e culturais mais sofisticados da Europa — banco dos Médici, oficinas de Botticelli, Leonardo e Michelangelo, universidade humanista, alfabetização acima da média continental. O frade dominicano arrebatou justamente essa cidade. Botticelli, segundo a tradição, atirou alguns dos próprios quadros na “fogueira das vaidades”, em 1497.

Não é necessário, portanto, supor terreno árido para que floresça o profeta moralista. Ele costuma medrar bem onde há audiência educada, classes médias inquietas com a corrupção visível das elites e meios capazes de amplificar sua voz. Maquiavel, então jovem secretário da Senhoria, observou tudo de perto — e tirou daí a lição do capítulo VI de O Príncipe: “todos os profetas armados venceram, e os desarmados se perderam”[1]. A frase costuma ser lida como prognóstico tranquilizador. Não é. É um diagnóstico sobre o estrago que o profeta deixa atrás de si.

Savonarola, de fato, ardeu em 1498 na mesma praça onde antes triunfara. Mas Florença não voltou a ser o que era. Os anos seguintes foram de instabilidade, faccionalismo crescente, intervenção estrangeira (francesa, espanhola, papal) e erosão do experimento republicano. Em 1512, os Médici retornaram — não mais como cidadãos influentes, mas como senhores. Em poucas décadas, duques hereditários. Maquiavel, demitido e torturado pelo novo regime, escreveu O Príncipe no exílio. E o povo florentino? Onde estava antes, continuou. Os artesãos de Santa Croce, as lavadeiras do Arno, os pequenos comerciantes — nenhum foi mais livre, mais próspero ou mais protegido depois da promessa de purificação.

Às vésperas das eleições de 2026, o paralelo deveria incomodar. A política brasileira é hoje terreno fértil para profetas — figuras que se apresentam como vozes purificadoras de um sistema corrompido, prometendo fogueiras de vaidades aplicadas às instituições, aos costumes e aos adversários. A fórmula, no entanto, opera em três tempos. Primeiro o púlpito, que mobiliza a multidão pela palavra. Depois o palanque, que a arregimenta para o voto. Por fim o algoritmo, que a entrega — segmentada, fidelizada, monitorada — à pré-campanha. Savonarola dispunha apenas do primeiro estágio, e ainda assim arrebatou Florença. Seus herdeiros simbólicos brasileiros operam os três simultaneamente: pregam de templos televisivos e de madrugadas transmitidas ao vivo, com um léxico curiosamente familiar — o da purificação, do combate aos vícios do mundo, da salvação contra as ameaças do tempo (outrora a heresia, hoje os “inimigos da família” e o “comunismo” que se vê em toda parte e em parte alguma). As pré-campanhas já formalizam, sem grande disfarce, a tentativa de converter essa capilaridade espiritual em capital eleitoral.

Convém resistir a uma forma de consolo recorrente: a de imaginar que esses profetas, mais cedo ou mais tarde, “se queimam” — e que a fogueira por eles acesa termina por consumi-los, devolvendo a cidade ao seu curso. Florença mostra o contrário. A queda do profeta não restaura a república. Restaura, no máximo, novas elites — mais autoritárias e menos limitadas — sobre as ruínas de instituições que ninguém mais consegue defender. O moralismo apocalíptico não falha por excesso: falha por excesso de sucesso. Cumpre exatamente aquilo a que se propõe — desativar a paciência institucional, esvaziar a confiança nos partidos, deslegitimar o ofício cotidiano da negociação. Entrega, no fim, uma cidade em que vencedores se tornam irrecuperáveis e perdedores, recorrentes.

2026 se aproxima com o já habitual cardápio de ressentimentos, candidaturas que se apresentam como antídoto ao “sistema” e promessas de varrer a sujeira do passado por decreto — agora amplificadas, em tempo real, por púlpito, palanque e algoritmo. Maquiavel diria, com seu sorriso amargo, que isso ele já viu. E sabe como termina. Em Florença, a república da virtude durou quatro anos. O que veio depois durou três séculos.


[1] Maquiavel, Nicolau. O Príncipe. Capítulo VI. Sobre Savonarola, ver também Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Livro I, capítulo XI.

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