Artigo

Guimarães Rosa e suas veredas

Leandro Garcia
é professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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Leandro Garcia
é professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Neste ano de 2026, temos várias efemérides literárias que merecem a nossa atenção e, principalmente, a nossa celebração. A principal delas, na minha opinião, é a dos 70 anos de publicação de Grande sertão: veredas e de Corpo de baile, ambas de autoria de Guimarães Rosa. Costumo dizer que Rosa reinventou o Brasil por meio da sua literatura, bem como recriou (ou atualizou?) a língua portuguesa em suas criações.

Mineiro de Cordisburgo, João Guimarães Rosa optou pela Medicina e, mais tarde, pela diplomacia. Como médico, a partir de 1930, atuou em diversas frentes de trabalho que desafiaram o então jovem médico: Belo Horizonte, Itaguara, Passa Quatro, Barbacena e outras pequenas localidades e distritos do interior mineiro que muito influenciaram a sua visão de mundo. Em 1934, mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital nacional, e prestou concurso para o Itamaraty [Ministério das Relações Exteriores do Brasil], tendo sido aprovado, iniciando uma sólida carreira diplomática que o levou a assumir postos e missões em diferentes países da Europa e da América do Sul. Entre 1938 e 1942, assumiu o cargo de cônsul-adjunto em Hamburgo, na Alemanha, no auge da Segunda Guerra Mundial. Foi responsável por emitir centenas de vistos para cidadãos judeus deixarem a Alemanha e fugirem para o Brasil, o que lhe rendeu reconhecimento como um importante humanista.

Realismo mágico, fabulação, regionalismo literário e (re)invenção linguística são algumas das mais importantes características da literatura produzida por esse autor. Os mundos de Rosa são verdadeiramente uma outra experiência existencial, com regras e lógica próprias. O autor não apenas “ficcionaliza” o interior do Brasil, mas (re)inventa um outro país, com língua, alma, religiosidade e costumes particulares de cada vereda e espaço por onde se deslocam os seus personagens.

Ao lermos Grande sertão: veredas, além de adentrarmos uma história contada, conhecemos e convivemos com um outro mundo que segue as próprias regras e ritmos, no qual Riobaldo e Diadorim não são símbolos do Brasil interiorano, mas sintomas complexos da nossa história e da configuração de brasilidade. E por falar em Diadorim, considero-a uma das personagens mais emblemáticas, não só da obra de Guimarães Rosa, mas de toda a literatura brasileira: uma personificação ambígua do bem e do mal, um entre-lugar do masculino e do feminino, um caminho perigoso entre a dúvida e a certeza.

Em relação à dimensão linguística, a literatura de Rosa criou uma espécie de língua brasileira, isto é, uma nova possibilidade de se pensar e conceber a língua portuguesa, recheada por neologismos sintagmáticos e uma morfologia toda particular e “roseana”. Sim, além das línguas portuguesa e brasileira, também podemos falar de uma língua roseana que se expressa na sua escrita, com regras e características sintáticas que lhe são peculiares.

Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Manuelzão e Miguilim são alguns dos personagens mais emblemáticos do universo desse criador de mundos e formatador de histórias e causos. Vale muito ler e reler a sua obra, particularmente Grande sertão: veredas e Corpo de baile, neste importante aniversário de 70 anos de suas publicações. Um outro Brasil, uma outra literatura e uma interessante oportunidade para criarmos — na companhia de Guimarães Rosa — o nosso próprio mundo todo pessoal.

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