Artigo

Legitimidade fragmentada

Victor Pereira
é mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e gerente de Relações Institucionais e Internacionais na Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje)
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Victor Pereira
é mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e gerente de Relações Institucionais e Internacionais na Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje)

A legitimação pode ser entendida como um dos processos centrais da comunicação contemporânea. Num ambiente marcado por hiperexposição, pela fragmentação da atenção e pela disputa permanente de discursos, as organizações passaram a depender menos de estruturas formais de autoridade e mais da capacidade de justificar socialmente sua existência, suas práticas e seus valores.

A ideia de legitimidade está relacionada ao reconhecimento social. Trata-se da percepção de que determinada instituição atua de maneira adequada dentro de um sistema compartilhado de normas, crenças e expectativas. Os sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann, autores da obra A construção social da realidade (Vozes, 2014), compreendem esse processo como parte do que denominam “construção social da realidade”. Isto é, instituições precisam continuamente explicar e justificar a própria existência para serem reconhecidas e reproduzidas socialmente. A legitimação funciona, portanto, como mecanismo de estabilização do mundo social.

A legitimação pela comunicação pode ser observada em três movimentos principais: a utilidade, quando organizações demonstram competência e capacidade de gerar benefícios por meio de seus produtos e serviços; a compatibilidade, quando buscam identificação com valores sociais no âmbito nacional e com expectativas coletivas; e a transcendência, quando recorrem a propósitos, valores éticos e justificativas que ultrapassam uma razão simples para sustentar suas ações.

Nas organizações, esses movimentos acontecem sobretudo pela comunicação. É por meio de discursos, símbolos, posicionamentos públicos e narrativas institucionais que empresas constroem sentidos sobre si mesmas e buscam reconhecimento diante de seus públicos. Mais do que transmitir informações, a comunicação organiza interpretações, enquadra acontecimentos e oferece justificativas sobre decisões, identidades e propósitos.

No entanto, o ambiente contemporâneo cada vez mais tensiona profundamente esses processos. A fragmentação da atenção, a multiplicação das plataformas digitais e a hiperexposição permanente tornam mais instável a capacidade das organizações de sustentar narrativas coerentes e duradouras. A legitimação deixa de operar num espaço relativamente centralizado e passa a acontecer de forma dispersa, simultânea e constantemente contestada.

Ainda assim, isso não significa o fim da possibilidade da legitimação. Pelo contrário: quanto maior a instabilidade, maior a necessidade de construir sentidos capazes de sustentar vínculos, reconhecimento e confiança. A legitimidade talvez esteja mais fragmentada, volátil e disputada do que nunca, mas continua sendo uma das principais formas de estruturar a comunicação e garantir a perenidade das organizações em um tempo tumultuado.

No contexto empresarial, ela funciona como mecanismo de ordenação da própria realidade corporativa. Empresas constroem versões sobre quem são, quais valores representam e qual papel desempenham socialmente. Não basta existir institucionalmente; é necessário ser percebido como relevante, competente e autorizado diante de governos, imprensa, investidores, colaboradores e sociedade civil.

ESTE ARTIGO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​3 (​JUL/AGO) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

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