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A crítica literária ainda existe?

Leandro Garcia
é professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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Leandro Garcia
é professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A crítica literária é uma dimensão dos estudos literários responsável pela análise ensaística (por isso, crítica) da produção de literatura de um país, de uma região. Já tivemos, no Brasil, nomes de peso e respeito, como José Veríssimo, Alceu Amoroso Lima, Álvaro Lins, Agrippino Grieco, Lúcia Miguel Pereira, Wilson Martins e tantos outros. 

Desde o surgimento na imprensa — a chamada crítica de rodapé — até o seu amadurecimento na universidade, a crítica literária brasileira passou por altos e baixos. Mas, nos dias de hoje, será que ela ainda existe e tem uma função?

A imprensa foi o lugar de excelência, no qual a crítica literária brasileira surgiu e tomou corpo, fortalecendo-se e se tornando uma verdadeira produção de conhecimento. 

Foi nos jornais que figuras como Alceu Amoroso Lima (conhecido pelo pseudônimo Tristão de Athayde) e Álvaro Lins acompanharam e analisaram décadas de lançamentos de obras e surgimento de novos autores. Com colunas semanais na parte inferior das páginas dos jornais (ou seja, no rodapé), esses profissionais da exegese literária analisaram com isenção e coragem o que se publicou de melhor (e também de pior) na literatura brasileira. Não sem motivo, despertaram amores e também ódios, pois não hesitavam em dizer a verdade — nem sempre laudatória — acerca do objeto analisado.

Com o surgimento dos primeiros cursos de Letras nas universidades brasileiras (a partir do início dos anos 1940) e a posterior criação dos cursos de pós-graduação, a crítica literária passou a ser produzida no âmbito universitário por professores e especialistas. Se esse tipo de produção ganhou em qualidade técnica, perdeu muito a horizontalidade de contato com o grande público que a imprensa sempre permitiu. Afinal, ao ser publicada em jornais, todo e qualquer tipo de leitor poderia ver tais análises, informando-se das novidades e lançamentos. Entretanto, na universidade, o público é restringido a professores e alunos e as publicações são feitas em periódicos especializados que, nem sempre, são de amplo acesso ao grande público.

Então, hoje, ainda existe crítica literária? Ela tem alguma função? Leitores e autores ainda levam em consideração essas opiniões?

Vivemos numa era digital fluida, cuja referência é não ter muitas referências. A divulgação da literatura perdeu espaço na imprensa e os antigos cadernos de resenhas desapareceram, salvo uma ou outra honrosa exceção. Com isso, há muito que não lemos textos analíticos nos nossos jornais e nossas revistas. 

A crítica universitária continua… universitária, ou seja, é produzida e circula mais nos ambientes interligados à universidade, embora o advento das revistas eletrônicas tenha ajudado muito para que qualquer um acesse esses textos publicados nesses veículos digitais.

A internet, principalmente sites e redes sociais, se mostram um espaço privilegiado para a publicação de resenhas e exegeses literárias. Nem sempre com a devida isenção, a crítica (ou o que restou dela) sobrevive, hoje, em jogos de elogios mútuos, amigos que se analisam de maneira recíproca, o que impede a isenção tão necessária para se compreender uma obra e um autor, notadamente aqueles novos no mercado editorial.

Que futuro podemos esperar? Não sei. Contudo, opino que a crítica literária seja fundamental para o sistema literário, pois busca sempre compreender o objeto publicado e, também, o estilo e as particularidades do respectivo autor, iluminando e abrindo os nossos olhos para as produções literárias e a forma de se fazer literatura.

Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.

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