O apito final contra a Noruega, em 2026, não encerrou apenas mais uma participação melancólica do Brasil em uma Copa do Mundo. A derrota, menos pelo placar do que pela postura em campo, expôs uma rendição filosófica: a equipe pareceu jogar como se não houvesse alternativa ao futebol pragmático e reativo.
Esse sentimento de impotência lembra, ainda que de forma indireta, o que Mark Fisher chamou de Realismo capitalista: ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim de um certo modelo de jogo. No futebol, o paralelo seria a sensação de que o “futebol-arte” morreu e que o futebol de resultados, mesmo quando medíocre, é a única via possível.
Diante de uma Noruega que, embora não fosse brilhante, mostrou mais organização e intensidade, a seleção brasileira, optou por se encolher. Entregou a bola e abdicou da posse. Não foi apenas um erro tático; foi a confissão de um futebol que não acredita mais em si mesmo e que, no lugar do velho estilo, não encontrou nada que realmente funcionasse. O futebol-arte foi derrotado, mas o que veio depois também não venceu.
Para compreender esse colapso, é preciso evocar o fantasma que assombra o imaginário do futebol brasileiro desde 5 de julho de 1982. A “tragédia do Sarriá” não foi apenas uma derrota para a Itália; foi o trauma fundador do ajuste neoliberal no futebol. A comunidade futebolística interpretou a eliminação daquela equipe mágica, liderada por Sócrates e Zico, como uma sentença definitiva: o futebol-arte não recompensa. A beleza, o drible e a invenção foram subitamente taxados de irresponsáveis. Dali em diante, enquanto o neoliberalismo reestruturava a sociedade brasileira sob a égide da austeridade e da concorrência perpétua, o futebol também se “ajustou”. O tetra de 1994, conquistado contra a própria Itália com um futebol defensivo e pragmático, foi o momento da identificação com o agressor. Vencemos, mas a que preço? A poesia deu lugar à estatística; e a ginga, à marcação por zona.
Este é o cerne do Realismo capitalista aplicado aos gramados: a ideia de que o “futebol de resultado” é a única realidade possível, uma imposição do mercado global. O técnico Carlo Ancelotti, ao olhar para o plantel brasileiro em 2026, e ao concluir que a melhor estratégia era entregar a bola à Noruega e jogar no contra-ataque, não fez mais do que ratificar um diagnóstico de escassez autoproferida. Ele não viu uma constelação de craques; viu ativos financeiros limitados, matérias-primas que precisam ser protegidas para não desvalorizarem.
Como bem analisou Fábio Barbosa dos Santos em Saudades do que nunca fomos, o futebol brasileiro nunca espelhou o país como ele é, mas sim como ele poderia ser: um lugar onde os negros, discriminados na sociedade, tornavam-se heróis pela inventividade, transformando a sobrevivência na opressão em drible na liberdade. Contudo, esse horizonte se fechou. O que vimos na Copa de 2026 foi a versão mais cruel do neoextrativismo: não mais a exportação de minério ou soja, mas a exportação precoce de jogadores, tratados como commodities que retornam desbotados, despojados de sua assinatura original, para representar uma nação que já não os reconhece.
Essa lógica se aprofunda quando observamos as engrenagens. A Copa de 2026 não é apenas um torneio esportivo; é a vitrine do que poderíamos chamar de “espetáculo autoritário”, personificado pelas figuras de Donald Trump e Gianni Infantino. As atitudes racistas da FIFA, as interferências suspeitas na arbitragem (com o VAR atuando como um Grande Outro tecnocrático que disciplina a fluidez do jogo) e a criação de tempos de hidratação meramente para veiculação publicitária são sintomas de um mesmo mal: a subsunção total da vida à lógica da financeirização. A bola não rola para a glória; ela rola para o acionista.
Neste contexto, a ascensão avassaladora das bets (casas de apostas) é a coroa do Realismo capitalista. O torcedor não é mais o sujeito da festa futebolística, mas um especulador de si mesmo. A gramática da aposta é a gramática do mercado financeiro: risco calculado, retorno imediato, indiferença ao coletivo.
Conforme noticiou a DW brasil, basta olhar para a ADI Predictstreet, uma das principais patrocinadoras da FIFA para a Copa de 2026 que desembolsou 150 milhões de dólares para estampar sua marca ao lado da entidade máxima do futebol. A empresa que é uma plataforma que funciona como uma bolsa de valores do mundo das apostas, permitindo comprar e vender contratos sobre resultados esportivos, eleições e outros eventos reais, está sendo investigada pela Alemanha e seu CEO é acusado de participar do escândalo “Qatargate”.
Todavia, há frestas. O futebol ainda guarda territórios de encantamento. Há uma reapropriação festiva quando a multidão vibra com a seleção de Cabo Verde ou quando um drible arranca um sorriso. Como mostrou Ricardo Benzaquen de Araújo, o craque só existe no coletivo; sua genialidade se realiza na solidariedade e interdependência. A coletividade é a alma do jogo.
Enquanto o desejo lúdico pulsar, o jogo não acabou. A reinvenção não virá da FIFA, da CBF, nem das bets, mas das peladas de várzea, do drible inventivo, do futebol-poesia. Reencantar é recusar o Realismo capitalista e retomar a utopia de Sócrates: a vida é muito mais que resultados.
Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.