A literatura brasileira reúne inúmeras formas de expressão, ainda mais nos tempos atuais, profundamente marcados pelas experiências tecnológicas de comunicação e interação sociais. Nesse sentido, temos visto certos experimentalismos poéticos nem sempre interessantes, na minha opinião, pois seguem os modismos da época, inserindo-se num contexto espaço-temporal assaz definido e não universal. Por outro lado, surgem algumas obras que, embora publicados neste ano de 2026, já chegam assumindo uma certa universalidade, uma certa atemporalidade. É o caso de O menino é irmão do Homem (Loyola, 2026), de André Araújo.
Esse poeta, com sólida formação na área dos Estudos Literários, é também teólogo e sacerdote jesuíta da Companhia de Jesus, atuando há alguns bons anos na educação superior, bem como na básica, produzindo ciência e conhecimento que interligam literatura e teologia em diálogo com a fé e o mundo da cultura.
É difícil escolher um poema entre tantas opções que esse livro nos apresenta, e não ousaria indicar aqui o melhor, aquele que mais despertou o meu interesse; avalio que isso seria uma pequena covardia da minha parte. Mas preciso fazer uma rápida apresentação, exortando os leitores a conhecer essa obra. Então selecionei “A cruz com vida”, do qual destaco esses versos:
“Há muitos crucificados
que ainda estão vivos!
Desça-os da cruz!”
A esse imperativo
meu corpo todo estremeceu.
Confesso, nunca havia pensado
no tempo gasto
pra alguém morrer na cruz.
Asfixia, cansaço, esgotamento,
pernas quebradas,
os corpos nus,
requinte de crueldade!
[…]
Um dos mais fortes desse livro, com a mensagem mais incisiva e até cruel, como cruel foi a Paixão vivida por Cristo e que se renova nas agruras da vida de cada um. Flagelação, dor, tortura, exposição pública e humilhação. Precisava de tanto? Um corpo seviciado e apresentado em praça pública, vítima justamente daquilo que fora contra: a violência e o ódio como expressão e identidade. Assim, “(…) Asfixia, cansaço, esgotamento, / pernas quebradas, / os corpos nus (…)” são realidades que denunciam a maldade plantada e cultivada no coração humano, mas que, na economia do Mistério, tornam-se sinais escatológicos da redenção.
Os poemas de O menino é irmão do Homem são atravessados por uma profunda experiência de fé do seu autor, André Araújo, e tal fato é o que enriquece e dinamiza esse livro, pelo menos na minha interpretação crítica. E fé no sentido mais amplo, aberto e dialogal. Fé como experiência do caminho, e não como arma e experiência unilateral. Fé como serviço transformador, impulsionada pela existência, que traz Deus ao chão da vida, que humaniza o Homem e diviniza o homem. Isso é realmente belo e inspirador.
Algo próprio quando lemos o poema “Meu irmão”, principalmente nos seus primeiros versos: “Ali naquela casa de pedra, /onde hoje é uma capela, / vivemos juntos uma espera”. Todo esse poema incorpora o profundo sentido messiânico da espera, mas não uma espera sem sentido, vazia; ao contrário, temos uma espera preenchida por uma certeza, pela esperança que se realiza e dá sentido à própria vida, e tal caminho é atravessado por uma experiência madura de fé do autor.
Por fim, destaco ainda alguns versos de “Alegrai-vos e exultai!”:
Vivo na mais pura expectação da Alegria
Vou assim, de deflagração em deflagração
esperando por um novo dia
Hoje
o Menino é desejo
amanhã
vai cantar comigo
o hino dos bem-aventurados!
O texto fala por si, não precisa ser explicado. E está em O menino é irmão do Homem, de André Araújo, que acabou de ser publicado e requer a nossa leitura, o nosso sentimento e a nossa partilha. Não exagero em afirmar que é um dos grandes lançamentos poéticos deste ano de 2026. Aproveitem!
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