Faz décadas um cientista político afirmou que quanto maior a ininteligibilidade do sistema eleitoral, mais dificuldades o cidadão tem de se sentir representado e vivenciar a lógica democrática. Em que pese o fato de existirem outros fatores, inclusive mais modernos, a explicar o distanciamento de parcelas da sociedade às eleições, é possível afirmar que características de nosso modelo eleitoral ainda causam dúvidas e dificuldades no eleitorado.
A eleição para o cargo de senador é um dos pontos delicados. Por mais que vigore aqui o sistema majoritário de turno único, onde tradicionalmente “o vencedor leva tudo”, e isso facilite a compreensão, alguns pontos causam estranhamento. Primeiros desafios: os mandatos dos senadores têm oito anos, e não quatro, e eles são eleitos em chapas compostas por titulares e dois suplentes pré-definidos em convenção. Mas para além disso, cada estado brasileiro tem três senadores, e por se tratar de uma casa em que a renovação nunca ocorrerá num único pleito, alternamos o total de eleitos entre um e dois senadores por unidade federativa. Em 2018 elegemos dois senadores, em 2022 foi um, e esse ano o desafio é escolhermos novamente um par. Assim, cada eleitor deve votar em até dois nomes, ou tornar o voto inválido – nulo ou branco. O que não pode? Votar duas vezes na mesma candidatura, sob a pena de garantir a primeira e anular a segunda escolha. Sabemos disso?
Para jovens que votarão pela primeira vez em 2026, por exemplo, a resposta mais provável é: não, o que não difere de grandes parcelas da sociedade. Para aqueles que têm menos de 18 anos e decidiram participar facultativamente, vindos provavelmente do Ensino Médio, onde deveriam aprender algo sobre as eleições, a resposta também é negativa. Assim, mesmo acompanhando política, muitos brasileiros têm dificuldade em compreender os dois votos para senador. Agora pensemos em massas de cidadãos que sequer tiveram a oportunidade de estudar: quantos chegam à urna sem esta informação?
O intuito desse artigo é compreender em que medida o eleitor, faltando cerca de um mês para o primeiro turno, está ciente desse compromisso. Os resultados são desanimadores. Em se tratando de uma eleição majoritária, onde poucos nomes disputam os votos, alguns muito bem conhecidos em suas respectivas realidades, esperava-se maior assertividade diante da pergunta: em quais dois nomes para o Senado você pretende votar?
Para observarmos o tamanho da dificuldade de grandes parcelas do eleitorado, tomamos por base um único instituto de pesquisa, o Quaest, que na semana de 24 a 28 de agosto divulgou pesquisas para 25 estados – as exceções foram Ceará e Piauí. Unificar a empresa facilita verificar fenômenos, pois pesquisa em eleição para dois senadores traz dificuldades sobre a maneira como dados aparecem.
Em todos os estados analisados, temos um mínimo de seis e um máximo de doze candidaturas que atingem ao menos um ponto percentual nos levantamentos agregados entre a primeira e a segunda escolha de senador. Isso mostra que o trabalho do eleitor não é tão grande quanto nos pleitos proporcionais e suas dezenas ou centenas de nomes por estado para os cargos de deputados. Na pergunta espontânea sobre os senadores a média de indecisos atinge expressivos 82%, com 94% em Minas Gerais e 57% no Amapá. Nas pesquisas estimuladas, onde o eleitor responde olhando uma lista de nomes, a média de votos inválidos, indecisos e convictos de que não vão votar atinge 36%, e aqui um novo desafio. A diferença, na etapa estimulada, entre o primeiro e o segundo voto para senador faz crescer de forma significativa o total de votos inválidos, indecisos e “não voto”, com média de 17% entre tais escolhas nos estados pesquisados. Isso significa que se no primeiro voto já há incertezas, elas sobem demais quando o desafio é encontrar um “segundo senador”.
Aqui novamente olhamos para os jovens. Para quem debuta nas eleições é necessário pensar, a exemplo de todos os outros eleitores, em nomes para presidente, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual, cargos com funções e durações de mandatos diferentes em modelos eleitorais que carregam consigo distinções. E é justamente o Senado, com tantas atribuições políticas essenciais, estratégicas e muitas vezes exclusivas, que exige duas escolhas que parecem estar entre as disputas sobre as quais menos debatemos.
Para se ter uma ideia final do desafio de se consolidar esse voto faltando cerca de um mês para a eleição, em apenas cinco estados o primeiro colocado nas pesquisas avaliadas atinge 25% ou mais dos votos – considerando que como a pesquisa aqui é agregada entre as duas escolhas, o máximo possível a ser atingido seria 50%. Ainda assim, importante considerar que em sete estados o líder tem 15% ou menos das intenções de votos. Por fim, é igualmente desafiador, considerando que o segundo colocado também será eleito em 2026, perceber que a média das intenções de voto dos vice-líderes é de 13%, apenas três pontos acima de quem está em terceiro e cinco de quem está em quarto. O pleito está absolutamente aberto, destacando que isoladamente os indecisos somam 19%, o mesmo percentual atingido pela média de quem está em primeiro lugar. Aqui, fechamos a análise dos números atuais da Quaest destacando que uma média de 57% dos entrevistados afirma que ainda pode mudar de posição até outubro – pudera!
Um levantamento complementar com pesquisas para governador realizadas pelo mesmo instituto permite enxergar essa dificuldade por outro ângulo, sugerindo que os desafios podem ser mais amplos. Importante salientar que por mais que tenhamos que promover a escolha de dois senadores e de um governador, a diferença no total de candidaturas é de apenas 60% a mais de senadores, ou seja, a dificuldade de analisar os nomes não dobra no caso do voto duplicado. Aqui nos interessa especialmente contabilizar o total de indecisos. Faltando cerca de um mês para as eleições, em doze estados as indefinições agregadas para as duas vagas de senador são maiores que o total para governador, mas em outros treze estados a situação se inverte, ou seja, as indefinições para o governo são maiores. Pernambuco e Minas Gerais são os cenários mais agudos de indecisão para o Senado, enquanto Pará e Goiás os locais mais incertos para o governo. Em termos históricos, de acordo com o TSE o total de votos inválidos para governador tende a ser menor que senador. Em 2018, por exemplo, 81% dos votos registrados para os governos foram válidos, contra 73% de senador. Em resumo, as dificuldades dos dois senadores tendem a permanecer, por mais que faltando um mês para o pleito os desafios também abranjam o cenário do Executivo estadual.
Por fim, voltemos aos dilemas enfrentados pela juventude para entender o primeiro voto. Aos 16 anos, uma pessoa escolherá para o Senado alguém que lá estará por oito anos, o que equivale a 50% de sua vida atual, e representará um terço de sua trajetória ao fim do mandato. Gerações atuais não conseguem conceber tal período com naturalidade. Para um jovem, oito anos parecem uma vida inteira. Nos próximos oito, para um jovem de classe média, é esperado que termine o Ensino Médio, passe por uma graduação, promova escolhas profissionais, decida aspectos da vida pessoal e se mostre bem diferente daquele eleitor que apertou pela primeira vez o botão “confirma” na urna. Isso não é uma crítica ao sistema, mas à necessidade de compreendermos quem se responsabiliza pelo voto. Votar não seria apenas escolher quem parece melhor hoje, mas confiar a alguém uma parcela do futuro que ainda se tem muita dificuldade de imaginar. Aos dezesseis anos, um jovem consegue projetar onde estará aos 24?
Em semana que ministro do STF deu declarações de que o sistema eleitoral proporcional brasileiro “está falido”, o modelo majoritário também mostra que o desafio parece maior do que propor alternativas que não estejam associadas a reaproximar o cidadão da política e educar a sociedade sobre as eleições de formas mais consistentes do que estimular reformas ou disseminar mensagens vazias sobre a importância do voto, sem explicá-lo de maneira formal nas escolas e à sociedade em geral.
Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.