Sabíamos todos que esta seria uma eleição disputada voto a voto e que as plataformas sociodigitais não ficariam de fora do cabo de guerra. Assim, desde o começo de agosto, o projeto Brasil Online, do OBSERVA, Observatório de Conflitos na Internet, grupo de pesquisa do qual faço parte e sob coordenação do Professor Dr. Cláudio Penteado (UFABC), vem se dedicando a entender as controvérsias vistas no X, TikTok e Instagram a partir de 162 perfis de lideranças políticas, influenciadores e jornalistas, classificados em esquerda e direita.
Desde então, foram seis semanas de monitoramento, com 41 pesquisadoras e pesquisadores participando do processo e mais de 34 mil publicações analisadas. Neste tempo, algumas observações gerais já podem ser retiradas e trago aqui informações quentinhas para a Problemas Brasileiros.
A primeira é que a esquerda, em geral, publica mais, mas a direita tem obtido maior engajamento. Esse é um achado geral da série, a esquerda publicou mais durante as seis semanas observadas e em quase todos os dias da semana, mas foi a direita que ficou com a maior parte das interações em todos os relatórios, rendendo de 2 a 4 vezes mais interatividade. O que parece acontecer é que, na direita, poucos perfis grandes e poucos posts virais fazem o papel de puxadores de likes e compartilhamentos. Sendo que, de 4 a 10 de agosto, primeira semana que analisamos, o candidato a presidente Renan Santos (Missão) foi o perfil com maior interatividade. Entre 11 e 17 de agosto, foi o candidato e deputado federal Flávio Bolsonaro (PL). Entre 18 e 24 de agosto e entre 1 e 7 de setembro foi o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), entre 25 e 31 de agosto, foi candidato a presidente Augusto Cury (Avante).
Algumas tensões entre as forças de direita e esquerda estiveram presentes em todas as semanas. A primeira delas diz respeito ao debate sobre corrupção. A direita utiliza como argumentos de ataque o caso do INSS, as denúncias envolvendo Lulinha, entre outros episódios, enquanto a esquerda mobiliza o caso do Banco Master, o filme Dark Horse, as rachadinhas e as milícias. Há também conflitos indiretos, nos quais uma ideologia realiza um ataque e a outra responde deslocando o debate para outro tema. Nesse caso, a direita sublinha a questão da segurança pública, frequentemente em um tom punitivista, enquanto a esquerda tem destacado, de maneira recorrente, o debate sobre a escala 6×1. Outra controvérsia diz respeito à democracia. Para a direita, a principal ameaça estaria no STF. Para a esquerda, no início do período analisado, o perigo estaria no Congresso conservador, percepção que posteriormente se deslocou para a ideia de uma tentativa de captura da PF e do STF por setores conservadores. Também tem havido um conflito demarcado em torno das concepções de soberania. A direita fala em libertar o Brasil de uma “ditadura interna”, enquanto a esquerda enfatiza a soberania brasileira diante de atores externos, especialmente dos Estados Unidos. Por fim, observa-se um debate bastante marcado sobre gênero e família. A direita defende uma definição biológica de mulher e realiza ataques misóginos à primeira-dama Janja, enquanto a esquerda mobiliza o debate sobre diferentes configurações familiares e outras formas de paternidade.
A partir de 1º de setembro, o caso Banco Master e o debate sobre o STF passaram a ocupar um espaço importante na campanha. É nesse momento que o cenário de interatividade começa a mudar, ainda que moderadamente, em favor da esquerda.
Entre 8 e 14 de setembro, Lula foi o perfil com maior engajamento, rompendo o padrão que vinha se consolidando. Além disso, o domínio percentual das interações da direita, que havia sido de 66,3% na primeira semana, 61,2% na segunda, 77,6% na terceira, 64,4% na quarta e 64,4% na quinta, apresentou um arrefecimento na sexta semana (8 a 14 de setembro), caindo para 55%.
Algumas publicações do candidato à Presidência e presidente Lula se sobressaíram nesse período. Nelas, cobrava-se do STF explicações e medidas imediatas para a solução da crise institucional que envolvia o banqueiro Vorcaro, Flávio Bolsonaro e ministros do Supremo.
A percepção que emerge dos dados é que a direita, desde o começo da campanha, vem utilizando com maior frequência a linguagem da campanha negativa e do ataque. Esse não era, inicialmente, o caso da esquerda, que ainda buscava espaço para apresentar feitos e propostas de políticas públicas. No entanto, quando a esquerda passa a tensionar mais o debate e a produzir conteúdo de maior conflito, ela consegue também ampliar sua interação nas plataformas digitais. Esse resultado não chega a ser inesperado, considerando a própria lógica de funcionamento das plataformas digitais. Os algoritmos de recomendação tendem a privilegiar conteúdos marcados pela controvérsia, pela agressividade e por emoções negativas.
Convido todas as leitoras e todos os leitores da coluna Ciência Política a acompanharem os relatórios do OBSERVA pelo Instagram e pelo site do Observatório.
Agradeço a todas as queridas e queridos amigos pesquisadores do OBSERVA por serem essa equipe sensacional e por estarem empreendendo este trabalho espetacular.
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