Filho da revolução

09 de outubro de 2026

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“Mesmo quem não gosta, conhece.” A frase é do jornalista Carlos Marcelo, autor da biografia Renato Russo: o filho da revolução, publicada originalmente em 2009 pela Editoria Agir e revista e ampliada em 2018 pela Editora Planeta. E define bem a grandeza desse músico e o legado deixado, sobretudo, pela banda que comandou, a Legião Urbana.

Renato Manfredini Júnior, o Renato Russo, morreu há 30 anos, em 11 de outubro de 1996, de complicações decorrentes da aids. Ele tinha apenas 36 anos. Deixou hits que marcaram uma geração, a primeira que se tornava jovem num cenário pós-ditadura e consciente de conquistas cidadãs e de liberdades individuais.

Se a banda foi extinta oficialmente 11 dias depois da sua morte, ela permanece ressoando graças aos devotos admiradores que fazem de seu culto quase uma religião. “Renato costumava dizer que a verdadeira Legião Urbana era os fãs”, conta a empresária artística Anita Carvalho, fundadora da escola Music Rio Academy e pesquisadora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “Trinta anos depois, isso ganhou um sentido quase literal”, ressalta. Na sua visão, o que “mantém a obra viva” é o “público que continua cantando, compartilhando e apresentando essas canções a quem nem tinha nascido em 1996”, completa.

Não é pouca coisa. A discografia da Legião Urbana soma bilhões de reproduções nas plataformas de streamings e a banda é a única do rock nacional a emplacar mais de uma música no Top 200 do Spotify Brasil — com as famosas Será e Tempo perdido.

Música atemporal

Para o biógrafo Marcelo, a explicação está no fato de que a maior parte das músicas do grupo “nasceu sob o signo da atemporalidade” ao falarem de sentimentos marcantes em diversas fases da vida de todo mundo: a descoberta das primeiras paixões (e decepções), a insurgência contra a desigualdade e a injustiça, o sexo, a espiritualidade, as dúvidas existenciais e os impasses geracionais. “Mesmo as músicas com referências à época em que foram escritas — a exemplo de Geração Coca-Cola, Eduardo e Mônica ou O teatro dos vampiros — têm elementos que garantem essa atemporalidade”, enfatiza.

Nascido no Rio de Janeiro, filho de um economista e de uma professora de inglês, Renato Russo passou parte da infância em Nova York, nos Estados Unidos, e, na adolescência, a família instalou-se em Brasília. Na capital federal, o início da juventude foi ao lado de outros fãs do punk rock inglês, com presença frequente nas festas da chamada Turma da Colina, a efervescência cultural que gravitava em torno da Universidade de Brasília (UnB).

Trabalhava como professor de inglês em uma escola privada e, em 1978, montou a primeira banda. Era o Aborto Elétrico, projeto que duraria apenas três anos, sem nenhum disco gravado, mas cujo espólio foi aproveitado pelas duas bandas que se tornaram suas herdeiras, o Capital Inicial e a Legião Urbana, criada mais tarde por Renato.

Antes da fundação do grupo que o consagraria, chegou a se apresentar em carreira solo, autodefinindo-se como “o trovador solitário”.

Poeta de uma geração

Criada em agosto de 1982, a Legião Urbana fazia apresentações sobretudo em festivais e circuitos ligados ao meio universitário. Em 1983, uma fita demo chegou ao músico Herbert Vianna, de Os Paralamas do Sucesso. Ele gostou e fez com que o material chegasse ao pessoal da gravadora EMI, que lançou o primeiro álbum da banda, em 1985.

O LP “chegou chegando”, como se diz. Já trazia sucessos marcantes, como Será, Ainda é cedo e Por enquanto. Inaugurou-se uma profícua seara com oito discos de estúdio — Uma outra estação foi lançado após a morte de Renato — e números impressionantes. De lá para cá, compilações, coletâneas e gravações ao vivo somaram-se à discografia do grupo e, calcula-se, que a Legião Urbana tenha acumulado um total de mais de 30 milhões de álbuns vendidos.

Entre 1994 e 1995, Renato Russo empreendeu ainda dois projetos-solo. O álbum The Stonewall Celebration Concert, com renda revertida à campanha contra a fome promovida pelo ativista Herbert de Souza (1935–1997), o Betinho, era uma celebração aos direitos LGBTQIA+, em referência aos 25 anos da Rebelião de Stonewall, série de protestos ocorridos em Nova York. Em seguida, fez uma incursão no cancioneiro italiano e lançou Equilíbrio distante.

De acordo com Marcelo, Renato tornou-se poeta fundamental de sua geração pela “capacidade de dar voz, simultaneamente, ao que há de mais íntimo e a um mal-estar coletivo”. Sensível aos problemas de seu tempo e pessoalmente enfrentando constantes dilemas por causa da sua homossexualidade — e, mais tarde, pela luta contra a aids —, o músico soube canalizar essas circunstâncias para sua arte.

Tais ingredientes, somados ao esmero com que ele e os demais integrantes da banda trabalhavam no repertório, fizeram da Legião Urbana um grupo especialmente marcante. “Suas músicas estão presentes no imaginário coletivo de diversas gerações”, pontua Marcelo. “Podemos dizer que é uma banda incontornável.”

Na visão do biógrafo, a trajetória de Renato deixou “um exemplo de autenticidade e convicção no caminho traçado por contra própria, não por imposições da indústria fonográfica ou das rádios” — o que é comprovado por suas ousadias. “Dentre outras proezas, ele conseguiu fazer com que uma música de nove minutos, Faroeste caboclo, se tornasse um sucesso radiofônico”, cita, lembrando ainda que, pelas referências embutidas em suas composições, Renato conseguiu despertar o interesse de milhões de jovens pela poesia, pelo cinema e pela literatura. “Ele provou que o ‘faça você mesmo’, o lema do punk rock, podia dar certo”, sintetiza.

Edison Veiga
Débora Faria
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Débora Faria