Primeira cena. Num grupo de WhatsApp, homens que se identificam como bolsonaristas do RJ conversam diariamente. Não há programa, projeto de país, economia ou instituições. Há uma estética da revolta: memes, vídeos curtos, ironias contra “os intelectuais”, piadas sobre “o sistema”, agressividade como virtude. A política vira entretenimento; engajar-se confunde-se com consumir conteúdo. Não se veem conservadores, mas rebeldes insurgentes contra uma ordem que os teria traído. A autoimagem é revolucionária: estão contra tudo o que chamam de “sistema”.
Segunda cena. A eleição de 2026 canibalizou a direita tradicional. A ultradireita não só venceu — devorou os partidos da direita institucional. Não foi vitória conservadora, mas de uma estética da ruptura, da imediatez, de uma máquina que não pede programa, apenas adesão afetiva. O que se elegeu não foi um projeto de país: foram afetos tristes organizados em rede (raiva, ressentimento, ódio).
As cenas são distintas — uma micro, cotidiana; outra macro, eleitoral — mas revelam o mesmo fenômeno: o bolsonarismo disfarça-se de revolucionário e anti-sistema para operar uma contrarrevolução antipopular.
Segundo Miguel Lago, ele não é acidente eleitoral nem fruto só do antipetismo. O Brasil passou por uma revolução sociocultural e comunicacional estrutural em vinte anos — e o bolsonarismo soube capturá-la melhor que qualquer outra força. Ela se assenta em três pilares: a identidade religiosa militante, a hegemonia da cultura sertaneja do agronegócio e a descentralização comunicacional — que juntos produzem uma nova cosmovisão e uma máquina de mobilização direta.
Essas transformações permitem que o bolsonarismo se apresente como o inverso do que é: diz-se conservador, mas não preserva nada, produz rupturas contínuas, ataca instituições, dissolve consensos. “Onde há consenso, Bolsonaro definha”, observa Lago. Não cresce na política consensual, apenas na produção de dissenso e conflito. Não se trata de conservação. Do que se trata?
Trata-se de uma contrarrevolução. Em nome do combate a fantasmas, o bolsonarismo quer normalizar o estado de exceção e converter a política democrática em política securitária regressiva, rebaixando a vida pública à gestão de ameaças contra inimigos fantasiados. Ele se apresenta como revolucionário, mas opera como contrarrevolucionário: mobiliza afetos tristes em nome da rebeldia — raiva contra “o sistema”, ressentimento contra “os intelectuais”, ódio contra as instituições democráticas. O objetivo é sempre aprofundar a hierarquia e a desigualdade.. A retórica “revolucionária” recruta os abandonados como rebeldes, enquanto a narrativa “contrarrevolucionária” marca os oponentes a eliminar. As duas são faces da mesma moeda.
O lento cancelamento do futuro alimenta a falsa revolução. Tudo parece mudar, mas a forma de viver permanece intocada, porque o reacionarismo precisa reforçar que a desigualdade e a hierarquia são fenômenos naturais e imutáveis.
O bolsonarismo captura essa aceleração estagnada e a converte em energia política: oferece a ilusão de movimento — a “revolução” — enquanto aprofunda o retrocesso. Sua versão 2.0 é uma atualização de software da versão de 2018: não muda o sistema, apenas o torna mais eficiente na predação. A estética da imediatez, a gramática do feed e a política como entretenimento expressam a experiência de uma geração que perdeu o horizonte de futuro.
O bolsonarismo 2.0 converte o “empreendedorismo popular” em promessa de ascensão social e alcança jovens no Instagram e no TikTok. Não é revolução política: é a difusão da lógica das Big Techs, um colonialismo tecnofeudal que transforma plataformas em territórios e usuários em súditos. Essa mesma lógica organiza sua infraestrutura: descentralizada, plataformizada, baseada em lealdades pessoais e redes informais, ela contorna os partidos e produz uma máquina digital cuja flexibilidade é inalcançável para a esquerda tradicional.
A esquerda está presa na “espera eleitoral”, enquanto a extrema-direita coloniza o tempo cotidiano pela produção contínua de dissenso. O bolsonarismo opera na aceleração estagnada: tudo muda o tempo todo, mas a desigualdade e a hierarquia seguem como sempre foram — naturais e imutáveis. A “revolução” é permanente porque nunca se completa — e nunca se completa porque não é revolução, é contrarrevolução.
No grupo de WhatsApp, não há comunidade política organizada em torno de programa, mas circulação de afetos tristes. A “revolução” que celebram é a tecnológica da obsolescência programada: sentem-se rebeldes porque consomem conteúdo rebelde, opõem-se a “os intelectuais” e “o sistema”. Mas essa rebeldia é funcional à ordem que dizem combater. Esses homens não estão contra o sistema: estão contra a política, contra a mediação, contra a possibilidade de um futuro que não seja a repetição acelerada do presente. A contrarrevolução opera na micropolítica: captura o desejo de rebeldia e o converte em combustível para o retrocesso.
Compreender as raízes teóricas dessa eficácia — a fusão entre retórica revolucionária e projeto contrarrevolucionário — é o ponto de partida para qualquer resistência efetiva. Talvez a primeira tarefa seja desmascarar a farsa: mostrar que a “revolução” bolsonarista é, na verdade, uma contrarrevolução — e que a única revolução possível é aquela que nos devolve o futuro e a potência de desejá-lo.
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