Artigo

Rebeldes do retrocesso

Bárbara Dias
é doutora pelo Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ-IESP e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.
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Bárbara Dias
é doutora pelo Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ-IESP e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.

Primeira cena. Num grupo de WhatsApp, homens que se identificam como bolsonaristas do RJ conversam diariamente. Não há programa, projeto de país, economia ou instituições. Há uma estética da revolta: memes, vídeos curtos, ironias contra “os intelectuais”, piadas sobre “o sistema”, agressividade como virtude. A política vira entretenimento; engajar-se confunde-se com consumir conteúdo. Não se veem conservadores, mas rebeldes insurgentes contra uma ordem que os teria traído. A autoimagem é revolucionária: estão contra tudo o que chamam de “sistema”.

Segunda cena. A eleição de 2026 canibalizou a direita tradicional. A ultradireita não só venceu — devorou os partidos da direita institucional. Não foi vitória conservadora, mas de uma estética da ruptura, da imediatez, de uma máquina que não pede programa, apenas adesão afetiva. O que se elegeu não foi um projeto de país: foram afetos tristes organizados em rede (raiva, ressentimento, ódio).

As cenas são distintas — uma micro, cotidiana; outra macro, eleitoral — mas revelam o mesmo fenômeno: o bolsonarismo disfarça-se de revolucionário e anti-sistema para operar uma contrarrevolução antipopular.

Segundo Miguel Lago, ele não é acidente eleitoral nem fruto só do antipetismo. O Brasil passou por uma revolução sociocultural e comunicacional estrutural em vinte anos — e o bolsonarismo soube capturá-la melhor que qualquer outra força. Ela se assenta em três pilares: a identidade religiosa militante, a hegemonia da cultura sertaneja do agronegócio e a descentralização comunicacional — que juntos produzem uma nova cosmovisão e uma máquina de mobilização direta.

Essas transformações permitem que o bolsonarismo se apresente como o inverso do que é: diz-se conservador, mas não preserva nada, produz rupturas contínuas, ataca instituições, dissolve consensos. “Onde há consenso, Bolsonaro definha”, observa Lago. Não cresce na política consensual, apenas na produção de dissenso e conflito. Não se trata de conservação. Do que se trata?

Trata-se de uma contrarrevolução. Em nome do combate a fantasmas, o bolsonarismo quer normalizar o estado de exceção e converter a política democrática em política securitária regressiva, rebaixando a vida pública à gestão de ameaças contra inimigos fantasiados. Ele se apresenta como revolucionário, mas opera como contrarrevolucionário: mobiliza afetos tristes em nome da rebeldia — raiva contra “o sistema”, ressentimento contra “os intelectuais”, ódio contra as instituições democráticas. O objetivo é sempre aprofundar a hierarquia e a desigualdade.. A retórica “revolucionária” recruta os abandonados como rebeldes, enquanto a narrativa “contrarrevolucionária” marca os oponentes a eliminar. As duas são faces da mesma moeda.

O lento cancelamento do futuro alimenta a falsa revolução. Tudo parece mudar, mas a forma de viver permanece intocada, porque o reacionarismo precisa reforçar que a desigualdade e a hierarquia são fenômenos naturais e imutáveis.

O bolsonarismo captura essa aceleração estagnada e a converte em energia política: oferece a ilusão de movimento — a “revolução” — enquanto aprofunda o retrocesso. Sua versão 2.0 é uma atualização de software da versão de 2018: não muda o sistema, apenas o torna mais eficiente na predação. A estética da imediatez, a gramática do feed e a política como entretenimento expressam a experiência de uma geração que perdeu o horizonte de futuro.

O bolsonarismo 2.0 converte o “empreendedorismo popular” em promessa de ascensão social e alcança jovens no Instagram e no TikTok. Não é revolução política: é a difusão da lógica das Big Techs, um colonialismo tecnofeudal que transforma plataformas em territórios e usuários em súditos. Essa mesma lógica organiza sua infraestrutura: descentralizada, plataformizada, baseada em lealdades pessoais e redes informais, ela contorna os partidos e produz uma máquina digital cuja flexibilidade é inalcançável para a esquerda tradicional.

A esquerda está presa na “espera eleitoral”, enquanto a extrema-direita coloniza o tempo cotidiano pela produção contínua de dissenso. O bolsonarismo opera na aceleração estagnada: tudo muda o tempo todo, mas a desigualdade e a hierarquia seguem como sempre foram — naturais e imutáveis. A “revolução” é permanente porque nunca se completa — e nunca se completa porque não é revolução, é contrarrevolução.

No grupo de WhatsApp, não há comunidade política organizada em torno de programa, mas circulação de afetos tristes. A “revolução” que celebram é a tecnológica da obsolescência programada: sentem-se rebeldes porque consomem conteúdo rebelde, opõem-se a “os intelectuais” e “o sistema”. Mas essa rebeldia é funcional à ordem que dizem combater. Esses homens não estão contra o sistema: estão contra a política, contra a mediação, contra a possibilidade de um futuro que não seja a repetição acelerada do presente. A contrarrevolução opera na micropolítica: captura o desejo de rebeldia e o converte em combustível para o retrocesso.

Compreender as raízes teóricas dessa eficácia — a fusão entre retórica revolucionária e projeto contrarrevolucionário — é o ponto de partida para qualquer resistência efetiva. Talvez a primeira tarefa seja desmascarar a farsa: mostrar que a “revolução” bolsonarista é, na verdade, uma contrarrevolução — e que a única revolução possível é aquela que nos devolve o futuro e a potência de desejá-lo.

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