Dia 9 de setembro, em texto assinado por Humberto Dantas e Francesca Della Manna, mostramos aqui um abismo entre o compreensível e pouco criticado modelo de eleição majoritária, para senador e governador, e a percepção dos eleitores sobre candidaturas e a definição do voto. O Brasil tem muitas dificuldades com o sistema proporcional, mas a despeito da lógica escolhida para as eleições, a eterna discussão sobre a reforma política parece distante do real problema: precisamos reduzir o abismo entre o cidadão e as decisões políticas, a começar pelo exercício do voto. Assim, a resposta para problemas complexos desse tipo está mais em uma educação política de longo prazo que seja capaz de nos conectar à Democracia, às eleições e aos seus desafios. O eleitor precisa se perceber mais responsável e pertencente à realidade. Por quê?
A Democracia requer responsabilização, confiança e senso de inclusão. E sua crise provavelmente seria, em parte, explicada pela incapacidade atual de desenvolver nas pessoas tais sentimentos. Este desafio não é local, não se restringe ao Brasil, tampouco ao continente. Trata-se de algo que visualizamos em parte do mundo, o que não nos isenta do dever de buscarmos reverter o cenário tenebroso que enfrentamos por aqui.
Desde a Proclamação da República, em 1889, nos comprometemos com políticas de educação que falam em disseminação e garantia de conteúdos que formem o cidadão para o exercício da Cidadania. Ao longo do século XX oscilamos ações educativas, principalmente entre 1946 e 1964, e perigosas atividades doutrinárias nas escolas. Aqui se destacam a propaganda antimonarquista da Primeira República, com forte carga ufanista; a educação varguista em primeira pessoa, com material didático edulcorado louvando o ditador; e o período autoritário de 1964 a 1985. A redemocratização não trouxe um realinhamento escolar imediato para o ensino da Cidadania, pelo contrário, assistimos a um pacto de cumplicidade entre uma direita que acusava professores de disseminarem conteúdos de esquerda nas aulas, sobretudo em Educação Moral e Cívica e OSPB, e uma esquerda que considerava que Política se aprendia no fazer das ruas, enquanto na escola se doutrinava com disciplinas pró ditadura.
Em termos legais não demoramos para nos livrar desse vazio de narrativas acusatórias. O artigo 205 da Constituição Federal de 1988 foi escrito tratando da obrigação do Estado brasileiro com “o preparo para o exercício da Cidadania” a partir da Educação, vista como direito de todos e dever do Estado. Adicionalmente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, a Base Nacional Comum Curricular, os debates sobre o Ensino Médio, a volta e o recuo sobre a obrigatoriedade de Sociologia e Filosofia nos currículos, simbolizaram formalizações acerca dessa responsabilidade formadora do Estado brasileiro. Mais recentemente, chegamos à instituição nacional do Programa Educação para a Cidadania e Sustentabilidade, com diretrizes concretas sobre tal ensino nas escolas. Mas entre o que está escrito em lei e a execução de tais conteúdos, logo sobraram perguntas sem resposta: o quanto os professores foram preparados para a disseminação desses conteúdos? O quanto respeitam as barreiras da ética suprapartidária? Qual a qualidade do material didático oferecido? O quanto os governos conseguem tirar princípios legais do papel? E não culpemos os jovens por falta de interesse, pois não faltam pesquisas onde estudantes reconhecem a importância da política como objeto escolar e formativo essencial.
Para além dos desafios postos, diante da polarização extrema, e cristalizada, o quanto estamos preparados para a construção de conteúdos didáticos essenciais à vida democrática? Ana Paula Macedo defendeu mestrado em 2025 na área de Educação onde mostrou que professores da rede pública de São Paulo-SP apresentavam dificuldades para desenvolverem tais saberes em sala. Se sentem pouco seguros, não têm respaldo das respectivas direções e coordenações, e por vezes são ameaçados violentamente pelas famílias. Estamos em um instante da história em que pais invadem escolas para agredirem professores que tratam temas constitucionais nas aulas.
Tal cenário não é verificado apenas na rede pública paulista. O RenovaBR, escola de política para a formação de políticos, recentemente recebeu em estágio de férias voluntário dois estudantes de ensino médio de escolas privadas de elite dos Estados Unidos e do Brasil. Trata-se de uma dupla que tem entre si algo incomum: gosta de política, quer debatê-la e se enxerga envolvida no futuro com suas atividades, para além de participar de ações desse tipo no presente. O intuito de ambos era, com respaldo de suas diretorias escolares, aplicar um survey que permitisse comparar a visão de seus colegas brasileiros e norte-americanos sobre algo trivial: a política. Os resultados foram transformados em um artigo submetido à revista acadêmica da Câmara dos Deputados do Brasil, sem identificação das escolas. Mas o que mais assombra está por vir.
Diante do questionário elaborado por cientistas políticos habilitados para discutir educação política e cultura política, as escolas passaram a vetar a realização do estudo como um fenômeno a ser investigado em âmbito acadêmico. Mesmo sob a garantia de absoluto sigilo dos respondentes, e dos nomes de tais escolas, as pesquisas foram barradas. Por quê? A resposta é simples: medo, temor, absoluta precaução com base em algo que tem se disseminado pelo mundo. As famílias acham que estão preparadas para ensinar política aos seus filhos, e não entendem que as políticas públicas de educação políticas são capazes de formar para a Democracia. Não estamos mais em um instante em que as pessoas sabem pouco, ou quase nada, sobre o funcionamento da Democracia. Entramos, faz anos, num mundo em que as pessoas, além de baixo conhecimento, resistem e buscam evitar que tratemos de política em aula. Não é da Democracia, mas sim da ditadura, os dizeres associados ao fato de que “política não se discute”. O mesmo se pode dizer sobre o fato de que “política não se ensina”. Na Democracia, não há alternativa: participação e educação são os pilares que amparam tal conceito, e isso está escrito em quase três mil anos de teorias acerca dessa temática desafiadora e essencial. Política se ensina sim. A pesquisa foi realizada de forma paralela pelos estudantes, em ambiente privado de relacionamento com seus colegas de escola, que viram no esforço científico dos colegas algo mais natural do que a neurose atual pressupõe.
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