“Cumprimos com as normas eleitorais e estamos comprometidos com a isonomia do uso das nossas plataformas por todos”, dizia a nota da plataforma Meta (que controla o Facebook, Instagram e Whastapp) em resposta à ao pedido de investigação da campanha do candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva, depois que suas postagens tiveram uma redução drástica do alcance aos usuários.
Esse episódio esteve longe de ser único, diversas vezes as plataformas foram acionadas para revisar “falhas” em seus sistemas e alegaram que estar passando por problemas técnicos que “logo” seriam corrigidos. No entanto, as horas se passavam e nem todos os engenheiros do Vale do Silício conseguiam dar um jeito no tal do bug, o que fez com que diversos candidatos e instituições desconfiassem de que poderia se tratar de uma tentativa de interferência no processo eleitoral.
Não por acaso, a desconfiança em relação às plataformas sociodigitais foi se tornando lugar-comum nas eleições brasileiras de 2026. Nossa memórias não pode esquecer uma das cenas icônicas da posse de Donald Trump como presidente norte-americano, em 2025, em que marcaram presença, em lugar de destaque, os bilionários da tecnologia Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Tim Cook (Apple), Sundar Pichai (Google), Sant Altman (OpenaAI) e o único trilionário do sistema solar, Elon Musk (X). Zuckerberg, um dos mais falastrões do grupo, apesar da pose de bom moço, disse naquele momento que, com Trump a liberdade de expressão seria retomada nos EUA. Não sei se Zuckberg acredita no que ele mesmo diz, mas o que temos visto é que, se um dia o Vale do Silício foi terra de liberdade, não o é mais. O que se tem visto na Costa Oeste dos EUA são ricaços que acreditam piamente ser “donos do mundo”, quase “gênios intergalácticos”, e que, dada a sua “sapiência superior”, podem fazer escolhas para todas as populações do planeta. Nunca nos esqueçamos daquele famigerado tweet de 25 de julho de 2020 que Elon Musk, ao ser questionado sobre um golpe que os EUA estariam tentando dar na Bolívia por causa de seu lítio, respoondeu, “Vamos golpear quem quisermos. Lide com isso!”.
Os fatos que aconteceram no Brasil neste 2026 chamaram a atenção pela gravidade e nível de intervenção das empresas na democracia brasileira, na medida em que não se tinha certeza se os conteúdos estavam ou não chegando às pessoas, ou se havia a prefêrencia por um dos lados. A jornalista Patrícia Campos Melo apurou que, em mensagens internas, funcionários da Meta admitiam que a conta de Lula estava limitada, e assim ficou por quase 24 horas. Os bloqueios aconteceram Lula, entidades estudantis, canais do Youtube (Revelando, por exemplo), jornalistas (Guilherme Amado etc.), políticos etc. Houve ainda a inabilitação de contas variadas ligadas à militância de esquerda, como “Brasil com Lula”, e a retirada da ferramenta “repost” do feed de inúmeras pessoas comuns. Tudo isso sem nenhuma explicação. Só a CTRL+Z, organização que monitora as bigtechs com o objetivo de enfrentá-las, recebeu mais de mil denúncias de restrições ou banimentos inexplicados em contas de cidadãos comuns. A própria Meta afirmou ter bloqueado automaticamente 206,9 mil publicações só entre 1º e 5 de outubro.
Nessa toada, organizações como a CTRL+Z, o projeto VigIA (AGência Lupa), a Eko, a Anistia Internacional levantaram milhares de problemas, da manutenção de conteúdos sintéticos desinformacionais nas plataformas ao bloqueio autoritário de contas. Ao mesmo tempo, as maiores mídias do mundo, como New York Times, Al Jazeera, Reuters, Associated Press, Democracy Now!, noticiaram as acusações generalizadas de censura das bigtechs em relação ao nosso pleito.
São tantos níveis de possíveis ferimentos à nossa Constituição que fica impossível debater isonomia da disputa eleitoral nas plataformas. Simplesmente porque as plataformas sociodigitais parecem ter feito das nossas eleições de 2026 o seu parque de diversões da manipulação.
E Nikolas Ferreira? Esse parece ser o queridinho da Meta e, em alguns posts, tem o mesmo engajamento que Beyoncé, Neymar e Kim Kardashian. Acredite se quiser.
Passado o pleito, é preciso, mais que nunca, a exigir transparência algorítmica das plataformas e investigações profundas sobre tudo o que vimos e não vimos.
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