Corrida ao topo

12 de maio de 2026

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Os Estados Unidos exportaram US$ 171,3 bilhões em produtos agrícolas em 2025, 2,8% a menos que no ano anterior, segundo o Departamento de Agricultura do país (USDA, pela sigla em inglês). Enquanto isso, o Agronegócio brasileiro vendeu para o exterior US$ 169,2 bilhões, um aumento de 3% em relação a 2024, de acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

O país do Norte é, há muito tempo, o principal exportador agrícola do mundo, com o Brasil em segundo lugar, quando a União Europeia (UE) não é considerada como um bloco único. Como a diferença entre as duas nações vem diminuindo ano a ano, especialistas que acompanham o comércio agrícola global acreditam que o Brasil pode chegar ao topo do pódio antes do previsto. A expectativa é que ultrapasse os Estados Unidos em uma década.

Relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em conjunto com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) projeta que o Brasil e outras grandes nações agrícolas da América Latina continuarão gerando superávits de exportação até 2034, enquanto a América do Norte deve ver as exportações líquidas estabilizarem abaixo do pico atingido em 2020.

No entanto, comparar Brasil e Estados Unidos não é tarefa fácil. Há diferenças metodológicas importantes, sobretudo no que diz respeito ao nível de processamento do que é incluído na pauta agrícola, se contempla apenas matérias-primas ou também itens processados. Mas, independentemente do critério, o panorama geral é consistente: as exportações brasileiras estão em ascensão, enquanto as dos Estados Unidos desaceleram.

Brasil, líder em commodities

Considerando apenas as commodities agrícolas — como grãos, carne, celulose, etanol e café —, o Brasil já ultrapassou os Estados Unidos. Segundo um estudo do Insper Agro Global, o País é o maior exportador mundial de commodities desde 2023. Entre 2000 e 2024, o crescimento médio anual foi de 8,6% nesse segmento, enquanto as vendas do país norte-americano aumentaram 5,3% no período.

Essa mudança foi fortemente influenciada pela ascensão da China como uma grande importadora de commodities — e pelas consequentes turbulências. Até o primeiro mandato de Donald Trump (2017–2021), os Estados Unidos eram o maior fornecedor agrícola da China, mas a guerra comercial iniciada em 2018 levou Pequim a diversificar suas fontes, com a competição pelas exportações de soja, acirrando-se no atual mandato de Trump. “Por causa da guerra comercial, os Estados Unidos perderam mercados e, nas commodities mais básicas, parte desse espaço foi ocupado pelo Brasil”, detalha Leandro Gillio, pesquisador no Insper Agro Global.

Com a guerra tarifária de Trump, a China interrompeu brevemente as compras de soja norte-americana em 2025, transferindo parte de seus pedidos para o Brasil. Essa dinâmica mudou de novo mais recentemente, explica Gillio, com Pequim pressionada a reduzir sua dependência de oleaginosas brasileiras, elevando o fornecimento estadunidense.

Nas atividades de soja, milho e carne bovina, Brasil e Estados Unidos são concorrentes diretos no mercado global. O Brasil é o maior exportador de soja desde a década de 2010 e, desde então, consolidou sua posição dominante. De outro lado, os Estados Unidos seguem na liderança no fornecimento de milho, embora o Brasil tenha ultrapassado brevemente o país em volume em 2023, impulsionado por uma safra recorde e um acordo de fornecimento com a China. A produção brasileira manteve-se forte, já que nosso clima permite duas safras de milho por ano, mas voltou ao segundo lugar com a crescente demanda interna por etanol à base do cereal.

No setor de carne bovina, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos como o maior produtor mundial em 2025, segundo dados do USDA, ocupando a liderança entre os exportadores. O volume exportado foi recorde, mesmo com a restrição temporária de embarques causada pelo tarifaço de Trump, no ano passado.

EUA, líder em valor agregado

A maior divergência entre os dois países está na pauta agrícola de maior valor agregado, como óleos, laticínios, ração animal, frutas processadas, vinho e outros produtos acabados. Os norte-americanos exportaram US$ 75,5 bilhões em produtos desse tipo em 2024, contra US$ 10,7 bilhões do Brasil, segundo dados do Insper, ainda não atualizados para 2025.

Os itens de maior valor agregado representaram 38% do total das exportações agrícolas norte-americanas, mas apenas 7% das do Brasil. Desde 2000, as exportações brasileiras desse tipo de produto cresceram, em média, 6,3% ao ano (a.a.), enquanto as dos Estados Unidos aumentaram 5,1% a.a. Ainda assim, a diferença continua enorme.

Décadas de investimento na indústria alimentícia e a promoção de marcas norte-americanas no exterior impulsionaram o setor agrícola do país na direção de produtos com margens de lucro mais altas, garantindo receitas mais robustas e um posicionamento mais estratégico nos mercados globais, segundo estudo do Insper. O Brasil, por outro lado, alavancou vastos recursos naturais e avanços na tecnologia agrícola para tornar-se um fornecedor dominante de commodities — embora grande parte da produção agrícola processada seja consumida internamente.

“As barreiras comerciais para produtos de valor agregado são maiores, uma vez que envolvem mais exigências sanitárias e mais tarifas”, observa Gillio. “Isso exige mais investimento tanto na produção quanto na superação dessas barreiras, como a construção do reconhecimento da marca e o acesso a novos mercados.” Desde 2023, o governo brasileiro abriu 555 novos mercados agrícolas em 86 países, a maior parte para proteínas animais e produtos derivados.

Diversificação

Outra diferença significativa entre Estados Unidos e Brasil é a forma como distribuem suas exportações agrícolas entre os compradores. O primeiro beneficia-se de fortes laços comerciais com seus vizinhos imediatos. Só o México representou 18% das exportações agrícolas estadunidenses. Os vizinhos do Brasil, por outro lado, compram muito menos, e a China é o principal cliente, absorvendo 33% do total das exportações agrícolas em 2025.

No entanto, novos acordos comerciais podem alterar alguns desses padrões. O acordo de livre-comércio entre UE e Mercosul deve gerar ganhos comerciais ao longo do tempo. Contudo, Gillio alerta que o resultado não será imediato, uma vez que a abertura de mercados será gradual e muitos produtos permanecerão sujeitos a cotas salvaguardadas por anos.

A concentração das exportações brasileiras em produtos agrícolas também reflete restrições estruturais mais amplas. Os produtos agrícolas representaram 48% do total das exportações brasileiras em 2025, uma participação que reflete gargalos de longa data em seu setor industrial. As vendas do Brasil para o exterior tornaram-se menos sofisticadas e diversificadas ao longo do tempo. Em 1997, minério de ferro, petróleo bruto e soja representavam 8,4% das exportações; atualmente, são 31%.

Assim, o número de empresas brasileiras exportadoras de produtos agrícolas cresceu 60,8% entre 2015 e 2025, para 2.316 empresas. Os pequenos agricultores e os agricultores individuais puxaram grande parte dessa expansão, com um aumento de 189% na última década.Nos Estados Unidos, os produtos agrícolas representam, geralmente, cerca de 10% do total das exportações, uma diferença que ressalta o quanto a economia do país do Norte permanece mais diversificada, mesmo com a convergência das duas nações quanto a produtos agrícolas.

A publicação deste conteúdo é fruto de parceria entre a Revista Problemas Brasileiros e o portal The Brazilian Report. Acesse aqui o material original, em inglês.

The Brazilian Report Débora Faria
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