Europa para os pequenos

11 de maio de 2026

Em vigor desde maio de 2026, o acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul trará oportunidades de mercado significativas para as Pequenas e Médias Empresas (PMEs) sul-americanas (e brasileiras), mas também torna evidentes os gargalos históricos do continente. Especialistas advertem que, enquanto negócios europeus já estão acostumados a trocas internacionais, os nacionais precisarão se reorganizar para usufruir do tratado.

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Não fazia muito tempo que Christian Tavares tinha visto, em um vídeo no Instagram, um influenciador de negócios apontar os efeitos do acordo entre a UE e o Mercosul para as empresas brasileiras. Assinado em janeiro deste ano, em Assunção, capital do Paraguai, o tratado permite aos blocos a troca de produtos e serviços sem restrições — e está valendo desde o dia 1º de maio. Até então, Tavares nem sequer havia ouvido falar do assunto, embora as negociações entre os sul-americanos e os europeus tenham começado, de fato, em uma reunião entre os líderes de ambos os continentes no longínquo ano de 1999, no Rio de Janeiro.

Empresário do ramo têxtil no bairro do Brás, no centro de São Paulo, ele administra dois negócios complementares: uma importadora — que compra tecidos e demais matérias-primas de chineses — e uma loja que os revende e produz peças de roupas para venda no atacado, sobretudo para clientes que as revendem no próprio Brás. “Para ser sincero, ainda não entendi o que isso vai mudar na minha vida”, constatava ele no começo de março.

Juntas, suas duas empresas empregam cerca de 70 pessoas, enquanto outras cem orbitam em atividades paralelas, desde descarga de materiais até agências de comunicação e de contabilidade, por exemplo. Pela definição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são dois negócios de pequeno porte, entre 10 e 49 funcionários. A sua importadora, maior, tem 45 colaboradores. A loja, pouco mais de 30.

A reportagem começou, então, a questionar os fluxos dos negócios de Tavares. Quem são os operadores logísticos dos tecidos entre China e Brasil? A empresa tem algum cliente que revende as roupas na Europa? Há algum tipo de insumo que venha do continente europeu? Existem planos de expansão internacional? O empresário prometeu responder duas semanas mais tarde. Quando a reportagem o reencontrou, em seu escritório no Brás, na tarde de uma sexta-feira, ele estava exultante. Não só tinha se apropriado dos termos do acordo, agora destacados nos jornais, como planejava aproveitá-los. “Ainda não tenho muito claro como fazer isso, mas posso dizer, sem medo de errar, que ficou mais fácil para um negócio como o meu — pequeno e nichado — chegar ao mercado europeu. Isso é muito revolucionário”, comemorava.

Não é uma empolgação trivial. “Haverá, de fato, condições mais favoráveis para os negócios de ambos os continentes, porque a queda de barreiras comerciais e, sobretudo, uma maior previsibilidade regulatória — por parte dos europeus — fará com que nossos produtos ganhem um novo patamar de competitividade no bloco”, explica Fabio Pina, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) e ex-subsecretário de Comércio e Serviços do Ministério da Economia (2019–2020).

Regras do jogo

A ênfase que Pina dá à previsibilidade é explicada pela fama dos europeus de criarem regras que, na prática, operam como barreiras comerciais difíceis de serem superadas, que vão desde normas sanitárias rígidas para produtos que chegam ao continente até as chamadas regras de origem, que descrevem características obrigatórias de produtos destinados ao mercado externo. Não é de hoje que especialistas avaliam que, para proteger setores produtivos locais politicamente barulhentos — como a agricultura francesa ou a pecuária belga —, a UE cria leis praticamente intransponíveis, mas com justificativas razoáveis, como a preocupação com a sustentabilidade.

“Os governos europeus souberam fazer isso elegantemente, ao contrário do [presidente dos Estados Unidos, Donald] Trump e a sua política tarifária”, compara Vera Thorstensen, coordenadora da Cátedra da Organização Mundial do Comércio (OMC) brasileira e professora na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP). “A simplificação das regras de origem e a diminuição de toda a burocracia aduaneira atual serão, sem dúvida, um marco divisório na competição entre as empresas da América do Sul e as da Europa”, continua Pina, para emendar: “Não só as grandes, mas também as pequenas e médias, ainda que em menor grau”.

Mercosul–UE para PMEs

Mas, na prática, o que muda para negócios de menor porte, como os de Christian? O português Bernardo Ivo Cruz olha, sobretudo, para as cadeias produtivas. Professor no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e na Universidade NOVA de Lisboa, além de ter ocupado cargos governamentais em seu país nos últimos anos, o cientista político acredita que as repercussões do acordo para as PMEs brasileiras e sul-americanas serão indiretas. “Os grandes negócios vão dinamizar suas trocas internacionais e, assim, os pequenos e médios que estiverem integrados às cadeias de fornecimento deles aumentarão vendas e receitas em decorrência disso”, explica.

Para o contexto brasileiro, essa é uma boa notícia. Cálculos do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) indicam que, dos pouco mais de 27 milhões de empresas ativas no Brasil atualmente, em torno de 27% são Microempresas (MEs), cujo faturamento bruto anual é de R$ 360 mil. Há um universo de 1,8 milhão de Empresas de Pequeno Porte, as EPPs, com receitas entre R$ 360 mil e R$ 4,8 milhões por ano. Segundo a análise de Ivo Cruz, ambos são os modelos mais sensíveis ao acordo, se já estiverem orbitando as grandes.

São as pequenas empresas ainda, lembra Pina, que dão a tônica cotidiana da economia brasileira — em 2022, negócios com até nove funcionários (as micro, na definição do IBGE), eram responsáveis por quase 17% dos trabalhadores e trabalhadoras formais no País, segundo o Cadastro Central de Empresas (Cempre), do IBGE. Além disso, são as PMEs que dinamizam a força de trabalho, já que, afirma o Sebrae, elas geraram 7 em cada 10 vagas formais no Brasil em 2025, um total de 1,3 milhão de postos de trabalho.

No entanto, nem todas as PMEs sentirão os benefícios do acordo da mesma forma, pontua o cientista político português, observando que, na verdade, aquelas que ainda não estão integradas às cadeias produtivas de grandes negócios, ao contrário, terão proveitos “um bocadinho marginais”. “Eu diria que, para essas, não haverá enormes ganhos, mas tampouco terão grandes problemas. Talvez as que já estejam vendendo em mercados locais maiores, como São Paulo, até sintam os efeitos, mas, ainda assim, de maneira reduzida.”

Dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e do Sebrae apontam que, de 2023 para 2024, o número de PMEs exportadoras cresceu timidamente, variando conforme o continente de destino. Entre as EPPs, havia mais negócios vendendo para a Europa (1.421 para 1.471), a América do Sul (2.706 para 2.718) e a América do Norte (1.843 para 1.889), em 2024, do que no ano anterior. No entanto, o saldo resultou negativo, na passagem dos anos, entre os MEIs e as MEs.

Inovação sem barreiras

Há, ainda, outro fator relevante na conta de Ivo Cruz: a tecnologia. Na sua análise, essa é, na verdade, a grande atração de empresas sul-americanas no escopo do acordo entre a UE e o Mercosul, já que, além de a inovação poder se tornar mais barata nesse setor, dependendo do produto ou serviço, há um leque enorme de possibilidades ainda não exploradas no mercado digital. “Para as pequenas empresas brasileiras, argentinas, etc., é a chance de chegarem a um mercado muito rico e muito interessado tanto em tecnologia como em sustentabilidade”, avalia, lembrando que é em Lisboa, capital portuguesa, que acontece, anualmente, o principal encontro de empresas de tecnologia do mundo, o Web Summit.

A associação entre tecnologia e sustentabilidade não vem do acaso, uma vez que as pesquisas mostram que os consumidores europeus estão entre os mais atentos a produtos e serviços associados à pauta ambiental. Segundo estudo da consultoria McKinsey realizado em 2025, 1 em cada 3 pessoas do bloco (30%) disse que considera extremamente importante, ou muito importante, o impacto ambiental daquilo que consome. Esse número chega a 34% na Alemanha e a 33% na Itália. No entanto, a percepção de qualidade (60%, na média) e preço (59%) ainda são os fatores mais relevantes na decisão de compra.

A pesquisa mostra, surpreendentemente, que 70% dos europeus consideram fundamental que as embalagens dos produtos sejam recicláveis — um número que chega a 77% no Reino Unido e a 74% no mercado alemão. “O lado europeu tem muito interesse nessa dinâmica de sustentabilidade que a América do Sul pode ofertar. Há também toda a indústria de bem-estar, que noto como algo muito brasileiro — o alimento saudável, o exercício físico — que certamente terá mercado aqui”, completa o cientista político português.

De lá para cá

E o consumo de produtos europeus no mercado sul-americano? “O problema é que somos mais pobres”, pontua o cientista político Leonardo Paz Neves, pesquisador no Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV NPII). “Quem está na base da pirâmide — boa parte das populações do Mercosul — vai ter dificuldades em acessar os produtos europeus que passarão a circular no continente. E, como são as empresas que compõem a base da cadeia produtiva, elas terão que subir padrões na criação de produtos e serviços mais sofisticados sem perder a competitividade”, prossegue.

Na visão do pesquisador, contrária à de Ivo Cruz, o efeito do acordo entre os dois blocos será abrangente, independentemente de quem esteja ou não inserido em cadeias maiores de suprimento. “Quando tarifas são eliminadas, as economias envolvidas são inevitavelmente afetadas. O que vamos entender agora, com a entrada do acordo em vigor, é como cada contexto empresarial vai se adaptar.” Uma diferença vital é que as PMEs do bloco europeu estão mais acostumadas a fazer negócios entre mercados locais, o que faz com que o empresariado tenha facilidade institucional e capacidade exportadora mais afiada, analisa.

Em 2024, mais da metade das transações comerciais europeias (58,3%) ocorreu em trocas internas, segundo dados dos Observatory of Economic Complexity (OEC). “O empresário europeu já comercializa em nível continental, é mais sofisticado. Mas o brasileiro tem dilemas: a produtividade não cresceu, assim como a capacidade de inovar. O Brasil avançou pouquíssimo em incentivar os setores produtivos”, observa Paz Neves. “Por tudo isso, acredito que vamos sofrer um pouco. As empresas médias vão sentir, antes de tudo, esse fluxo maior de produtos europeus, e vão ter que lidar com isso de alguma forma”, pontua.

No entanto, de acordo com Pina, da FecomercioSP, é interessante como o acordo entre os dois blocos é uma tentativa de modificar as dinâmicas comerciais de ambos os lados do Atlântico. Em 2025, segundo os relatórios oficiais, nenhum país sul-americano figurou entre os principais parceiros europeus. A China, na verdade, foi quem forneceu a maior quantidade de produtos e serviços (22,3%) para a UE, o que correspondeu a € 559,4 bilhões (R$ 3,36 trilhões) em trocas, aumento de 6,4% em comparação com 2024. Em seguida, estiveram os Estados Unidos (14%) e o Reino Unido (6,3%).

Os Estados Unidos, por sua vez, são os principais clientes, responderam por 21% de todas as exportações europeias nesse período, um mercado de € 554 bilhões. Reino Unido (13%), Suíça (8,3%), China e Turquia completam o quadro. “De um lado, são dados que apontam para a tentativa de diversificar os parceiros comerciais. A Europa depende bastante dos Estados Unidos e da China, dois rivais globais que, no contexto atual, geram incertezas”, ressalta Pina. Para a UE, segue o economista, ter um acordo de livre-comércio com o Mercosul é uma alternativa de mercado para seus produtos e a chance de acessar matérias-primas a preço relativamente baixo. “PMEs estão no meio dessa conjuntura”, afirma. Por outro lado, completa, o Mercosul lida com desafios crônicos, não apenas a dependência das demandas chinesas, mas uma dificuldade que as empresas têm de se relacionarem dentro da moldura do bloco — o que, agora, será uma exigência caso queiram acessar as vantagens de poder negociar livremente com a UE.

A China, principal parceiro do Brasil, conta com uma participação de 28,7% no total de exportações do País, seguida pelos Estados Unidos (12%) e pela Argentina (5,5%). Atualmente, a Holanda é o primeiro país europeu dessa lista, respondendo por tímidos 3,39% das demandas por produtos brasileiros. Por outro lado, a Argentina, a outra potência do bloco sul-americano, tem no Brasil seu principal fornecedor, tendo comprado, só em fevereiro de 2026, US$ 1,1 bilhão em produtos e serviços. China e União Europeia, além dos Estados Unidos e do Paraguai, completam os cinco primeiros do quadro de importações, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), equivalente ao IBGE na Argentina.

Planejar para crescer

Paz Neves, da FGV, prefere olhar para os efeitos ambíguos do acordo. A competitividade das empresas brasileiras deve crescer, mas com algum nível de desindustrialização. “Alguns setores vão passar melhor por essas mudanças, como o Agronegócio, que já é competitivo e tem políticas estruturadas há décadas, enquanto outros terão de rever suas dinâmicas — e, então, parece que isso terá mais força entre as PMEs”, opina.

O cientista político gosta de dar o exemplo do segmento de cosméticos. Paz Neves nota que, há algumas décadas, quando as marcas europeias chegaram ao mercado local, parecia que elas monopolizariam o mercado. Contudo, a junção de políticas, investimento em inovação, mão de obra qualificada e estratégias assertivas fez com que o Brasil não só produzisse gigantes do setor como fizessem frente às ofertas de fora. “É esse o exemplo que me faz pensar que não será uma quebradeira. As empresas que perderem mercado vão correr atrás, treinar seus trabalhadores, investir em automação e em pesquisa e desenvolvimento. Vão melhorar o produto”, argumenta. 

Na visão de Ivo Cruz, o acordo entre o Mercosul e a UE pode ser perfeitamente resumido em um velho ditado de negócios português: se todo mundo ficou infeliz, é porque foi bom. “É o jeito de ver que todo mundo cedeu um bocadinho para que o acordo saísse. Esses pedaços de infelicidade são um sinal de que o futuro é promissor”, confia.

Christian, o empresário do Brás, considera que o ditado seja parcialmente verdadeiro. “Algumas pessoas ficarão mais felizes do que outras. Eu vou me preparar para ser uma delas”, conclui.

ESTA REPORTAGEM FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​2 (​M​AI/​JUN) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Vinícius Mendes
Débora Faria
Vinícius Mendes
Débora Faria