Vick Amalfi coleciona três diplomas de nível superior: uma graduação em Engenharia de Produção e duas pós-graduações, uma em Meios de Hospedagem e outra em Diversidade e Inclusão. Apesar da qualificação, descobriu que seus colegas ganhavam o dobro, mesmo atuando nas mesmas funções.
Esse não foi o primeiro sinal de preconceito que sentiu. Desde o início da sua transição de gênero, entre 2022 e 2023, as situações desconfortáveis na construtora onde trabalhava tornaram-se cada vez mais frequentes.
Primeiro, a empresa decidiu, sem consultá-lo, fazer ajustes nos banheiros, colocando placas para distinguir o feminino do masculino: um banheiro masculino e outro unissex. “Eram dois banheiros, um feminino e um masculino. Um dos chefes reclamou e colocaram uma placa com símbolo masculino e outro com duas placas, masculina e feminina, para ser unissex. Foi uma coisa bem esquisita”, conta o rapaz.
O ambiente piorou quando seu gestor, que era um aliado, foi demitido, e uma sequência de violências começou. Primeiro, uma das gerentes usou discursos transfóbicos para desacreditar seu trabalho. E o departamento de Recursos Humanos (RH) pouco se importou. “Eles disseram que a gente precisava lidar com isso com maturidade”, relembra.
Depois, ao atualizar o sistema, a empresa trocou o nome social de Amalfi pelo nome de registro. Toda vez, ele se deparava com o erro na folha de ponto. Pediu, ao longo de seis meses, a mudança. Nada acontecia e a coleção de situações constrangedoras aumentava.
Quando foram entregar os kits de Natal, Amalfi cobrou o seu, mas alegaram que o dele não estava na lista — constava apenas o antigo nome. Numa sessão com a médica do sindicato, a empresa, mais uma vez, enviou o nome de batismo — e ele foi chamado, na frente de todos, já com a barba grande, por um nome feminino.
Com a orientação de um advogado, entregou ao RH e às chefias um documento com as diretrizes do Ministério Público (MP) sobre pessoas trans. Só então teve seu caso resolvido. Mas não sem passar por mais uma coação. “Meu chefe ligou e disse que eu havia constrangido o RH, que a empresa tinha tantas coisas importantes para fazer e eu preocupado com nome. Infelizmente, não gravei essa ligação”, lamenta.
Por fim, após três anos de sofrimento, e de ver seus projetos serem boicotados ou roubados por outros colegas, o engenheiro se demitiu. “Eu começava a tremer quando chegava o domingo à tarde, só de pensar em trabalhar no dia seguinte. Não conseguia ir às aulas de dança, nem me alimentar direito. Sentia que eles estavam me expelindo da empresa”, descreve.
Amalfi faz parte de uma triste – e onerosa – estatística. Segundo dados da plataforma Infojobs, 72,7% dos trabalhadores LGBTQIAPN+ já sofreram preconceito no trabalho. E 7 em cada 10 desistem de vagas por receio de não se encaixarem na cultura da empresa. Dentro dessa estatística cruel, são justamente as pessoas trans, não binárias e intersexo as que mais sofrem com frequentes hostilidades diretas.
Mas não são a únicas e a exclusão alcança todas as letras da sigla.
Segundo um recente estudo do Banco Mundial, a taxa de desemprego entre pessoas LGBTQIAPN+ atinge 15,2%, quase o dobro da média nacional, de 7,7%. E uma parte preocupante dessa população, depois de tantos “nãos” e constrangimentos, desiste de buscar emprego. Essa parcela de inativos representa 37,4% desses indivíduos — a média geral no Brasil é um pouco menor, de 33,44%.
O efeito não é apenas humano, mas também econômico. De acordo com o mesmo estudo, o Brasil perde, anualmente, quase R$ 94,4 bilhões — cerca de 0,8% de seu Produto Interno Bruto (PIB) — com a exclusão dessas pessoas do mercado de trabalho. Esse prejuízo acontece porque, além de empurrar talentos para a informalidade, reduzindo as chances de geração de riqueza, a insegurança psicológica diminui também a produtividade desses profissionais.
Além disso, o País perde mais de R$ 14,6 bilhões por ano, com impostos que deixam de ser arrecadados (R$ 10,6 bilhões) e gastos do governo com seguro-desemprego e assistência social (em torno de R$ 4 bilhões).
Os últimos dois anos pioraram o mercado de trabalho para os LGBTQIAPN+, por um motivo que nada teria a ver com o Brasil: a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. “Grandes empresas, como Amazon, McDonald’s e Google, encerraram suas políticas de diversidade, que estavam em construção há quase uma década. Infelizmente, essa pauta é tratada como passageira”, explica Angelo Castro, diretor de Captação de Recursos e Parcerias da Casa 1 — Centro de Acolhida e Cultura LGBTQIAPN+.
Os dados do TransEmpregos, uma plataforma de empregabilidade para pessoas trans, expressam a redução apontada por Castro. Segundo o portal, a quantidade de empresas parceiras caiu 8% em relação a 2024, as vagas voltadas para pessoas trans baixaram 39% nesse período e o total de profissionais empregados diminuiu 71%.
“A gente não consegue se desenvolver na carreira, mesmo nas vagas inclusivas, porque as empresas, até as premiadas por diversidade, são muito imaturas. Não existe uma linha contínua, tudo é muito instável. Basta o presidente de outro país dizer que isso não importa que elas falam ‘amém’”, argumenta Maite Schneider, cofundadora da TransEmpregos.
No entanto, a exclusão não é só consequência recente de eventos políticos. Ela já acontece há tempos e começa bem antes de uma entrevista de emprego. As barreiras erguem-se logo na juventude, expulsando a população LGBTQIAPN+ do ambiente escolar e ceifando suas chances de formação.
Segundo o Banco Mundial, as taxas de evasão são desproporcionais: cerca de 33% dos estudantes LGBTQIAPNI+ abandonam o ensino médio antes da conclusão. Além disso, daqueles que conseguem ingressar numa faculdade, 69% não chegam ao fim do curso.
Para as mulheres trans e travestis, a exclusão educacional atinge níveis devastadores — aproximadamente 70% não concluíram o ensino médio, e apenas irrisório 0,02% está matriculado no ensino superior.
Fatores como a falta de preparo das escolas, violência, expulsão de casa e restrições básicas ao uso do nome social e do banheiro destroem as trajetórias educacionais dessas pessoas, limitando drasticamente o acesso ao mercado de trabalho formal.
Mesmo quando esses profissionais conseguem superar todas essas barreiras e acumular diplomas, como é o caso de Amalfi, ainda enfrentam vieses e preconceitos. “Se a pessoa usa um batom vermelho, acham que não tem a ver com a cultura da empresa”, exemplifica Maite. E, quando contratados, sofrem violências iguais ou semelhantes àquelas relatadas pelo engenheiro.
Para superar esse cenário, é preciso um esforço para abalar e modificar as estruturas. Segundo o Banco Mundial, o primeiro passo é criar ambientes educacionais mais inclusivos, garantindo a permanência de jovens LGBTQIAPN+ nas escolas para construir qualificação desde cedo. No mercado de trabalho, a recomendação é instituir políticas antidiscriminatórias claras, realizar auditorias de equidade salarial e criar práticas consistentes de promoção.
“O principal caminho é essas pessoas terem autonomia para construírem esses processos”, afirma Castro. “As companhias precisam abandonar a ideia de que estão fazendo um favor e compreenderem, de uma vez por todas, que investir ativamente em diversidade é necessário para que a própria empresa possa crescer”, reforça.
Maite resume a solução em dois pilares: consciência e constância. “As pessoas precisam se conscientizar de que diversidade é sobre humanidade. Não é sobre grupo de afinidades, estamos falando de gente”, enfatiza. “E as empresas precisam usar seu poder para educar a sociedade, para tornar o mundo melhor, em vez de exigir profissionais que apenas se adaptem a um modelo”, completa.
Enquanto isso não acontece, a saída mais comum para esses profissionais é construir o próprio caminho por meio de projetos e atividades autônomas. Foi o que Amalfi fez assim que se demitiu, em janeiro deste ano — ele faz parte dos 30% da população LGBTQIAPN+ que trabalha por conta própria ou na informalidade.
Hoje, ele cria os próprios projetos culturais e dá aulas em uma escola de teatro musical inclusiva. “Emagreci sete quilos, que eu precisava por questões de saúde, ligadas à transição hormonal. Consegui ter uma vida mais tranquila. Na verdade, a vida andou mesmo, sabe?!”, comemora.