É até irônico imaginar que aquele menino fanático por futebol, que passou a infância na fronteira entre Brasil e Uruguai — nascido em Jaguarão, no Rio Grande do Sul, e tinha apenas um rio a separá-lo do país vizinho —, viveria sua primeira decepção justamente no Maracanaço, quando o escrete do Uruguai, Celeste Olímpica, sagrou-se bicampeão da Copa justamente em cima do Brasil, que, em casa, sonhava com o primeiro caneco.
Mais irônico ainda imaginar, reviravoltas saborosas que a vida dá, que pouco tempo depois, Aldyr Schlee venceria o concurso nacional para a criação de um novo uniforme para a seleção brasileira justamente para apagar a imagem amarga daquela derrota. E seria de amarelo-canarinho — e não com as camisas brancas que constituíam o fardão original — que o Brasil colecionaria as cinco estrelas que, hoje, estampam o uniforme nacional.
Mas se esta é a história amplamente conhecida, que liga o escritor, jornalista, professor universitário, desenhista e artista gaúcho Aldyr Garcia Schlee (1934-2018) à história do esporte mais popular do país, seu filho Aldyr Rosenthal Schlee, magistrado aposentado, guarda uma preciosidade menos conhecida da lavra do pai: um livreto, feito à mão, com ilustrações e textos caprichados que narram a Copa de 1950.
Aldyr Schlee tinha 15 anos. Era a primeira Copa do Mundo que acompanhava — a anterior havia sido em 1938, pois a Segunda Guerra interrompeu a sequência dos campeonatos. O filho Aldyr conta como a proximidade do torneio mexeu com a empolgação do pai. “Ele cresceu na casa de seus avós, na companhia de um tio mais velho que fez fama na região como goleiro e de quem herdou álbuns de figurinhas de jogadores, revistas esportivas e com quem aprendeu a jogar tampinhas, jogo precursor do futebol de mesa”, contextualiza.
Ao lado da casa, ficava a alfaiataria de seu padrinho, um dos introdutores do futebol na cidade. “Nesse contexto, lógico que aquele guri se tornaria um aficionado, registrando, ainda nos anos 1940, os torneios de tampinhas com os amigos em jornaizinhos de edições únicas, detalhados e ricamente ilustrados por ele com pena, nanquim e guache”, relata.
“Percebo a produção do álbum [o livreto com os jogos desse campeonato de 1950] como decorrência natural do amor pelo futebol e da facilidade para escrever e desenhar”, declara o filho. Nesse documento histórico, diagramado, redigido e ilustrado por Aldyr, estão algumas das qualidades que, mais tarde, ele revelaria definitivamente como professor, desenhista e escritor.
As páginas revelam, contudo, como a alegria foi substituída pela decepção com o resultado final do torneio. Na avaliação do filho, o livreto do pai “começa caprichado” para, depois, decair. No início, comenta ele, “há uma quantidade bárbara de informações precisas acerca de cada jogo, com os gols das partidas apresentados em desenhos coloridos, feitos a partir de meras informações de emissoras de rádio do centro do País”. No fim, no entanto, “fica expresso o desapontamento do jovem fronteiriço com o desfecho da Copa”, aponta.
Vale o contexto, aliás. Naquela Copa, os jogos eram transmitidos por precárias ondas curtas de rádio, com o som cheio de ruídos e estática. A primeira Copa do Mundo televisionada ao vivo foi a de 1958, mas só para a Europa. No Brasil, os poucos que tinham televisão naquele fim da década puderam assistir pela TV Tupi, mas em videoteipes, com fitas que chegavam dias depois das partidas.
Voltando a 1950, o material de Aldyr começa a ficar mais simples a partir da semifinal. “Provavelmente pela proximidade entre os embates, alguns deles ficaram sem os diagramas dos gols. E o colorido escasseou”, analisa o magistrado. “Afirmo, sem medo de errar, que meu pai ficou tão triste com a derrota brasileira como qualquer outro de nós fica até hoje, principalmente quando os uruguaios relembram aquela derrota por 2×1”, afirma. Ele relembra, inclusive, que o pai não admitia a tristeza do momento, romantizando o episódio, ao dizer que estava no cinema durante a partida. “Mas sustento que ele estava de ouvido na transmissão e sua decepção foi tanta que nem sequer teve motivação para desenhar os gols”, imagina.
Aldyr pai deixou em branco o espaço previsto para narrar a final. “Sabe-se lá o porquê, onde deveria aparecer o gol de Ghiggia [uruguaio que fez o tento final], ele rabiscou a lápis um improvável patinho, à la Disney”, descreve. O desapontamento foi em palavras. Escreveu o garoto: “Contrariando todos os prognósticos, o Brasil, jogando uma partida de igual para igual com seu adversário, perdeu a Copa do Mundo. Com uma dor no coração escrevemos esse comentário sobre o jogo mais sensacional do campeonato, que nos tirou a taça que deveria ser nossa. Pena é que os campeões usassem meios vis para vencer, demonstrando, assim, que só pela técnica não nos venceriam”.
O livrinho ficou guardado em alguma gaveta, ganhando as marcas do tempo: um borrão de tinta roxa e a ferrugem dos grampos. Mas, com os anos, a primeira edição ganhou a companhia de outras. Aldyr pai manteve a tradição, Copa a Copa — até a sua última, em 2018. Agora, o filho afirma ter como incumbência pessoal levar o material à publicação. “É algo que merece mais que o interior de um envelope ou o fundo de uma gaveta”, argumenta.
Esses registros tornaram-se preciosidade histórica não somente pela qualidade intrínseca a eles, mas porque, talvez com as mesmas tintas e pincéis com que fez o livreto de 1950, Aldyr Schlee criou o uniforme amarelo que se tornou marca registrada da seleção brasileira.
Ele tinha 18 para 19 anos quando venceu o concurso promovido pelo jornal Correio da Manhã e pela Confederação Brasileira de Desportos — a antecessora da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) —, para eleger o novo fardamento da Seleção. O filho explica que Aldyr buscou algo “mais ligado à brasilidade”, inspirando-se nas cores da bandeira, “substituindo definitivamente o azarado e pouco expressivo branco e azul de até então”.
O jornalista e escritor Marcelo Duarte, presidente da Academia Brasileira de Letras do Futebol (ABLF), menciona que o regulamento pedia que as propostas tivessem as cores da bandeira, mas que não houvesse nem o nome do Brasil, nem o desenho da bandeira em si. “Graças ao talento brasileiro, a camisa amarela acabou ultrapassando o universo do futebol”, opina. “Tornou-se um ícone cultural, representa aquilo que chamamos de brasilidade, alegria e estilo”, ressalta.