Não, não é. No entanto, não significa que a humanidade não terá problemas seríssimos quando a Amazônia for extinta, muito pelo contrário. “Já se tornou clichê apontar que a metáfora é inexata, e ela sempre foi. Afinal, planetas não têm pulmões”, pontua o biólogo Mairon Bastos Lima, pesquisador no Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI, pela sigla em inglês), da Suécia. “A ideia por trás da afirmação sempre foi valorizar a floresta pelo papel que ela desempenha para o bem da atmosfera do mundo, para o ar que respiramos e para a regulação climática”, completa.
Ao contrário da frase recorrente, a Floresta Amazônica não funciona como o pulmão do planeta e também não é verdade que seja responsável pela produção de 20% do oxigênio da Terra, como algumas versões costumam espalhar.
Ninguém sabe ao certo quando a expressão começou a ser usada, mas difundiu-se em várias línguas. “Foi uma das primeiras formas de atrair a atenção global à conservação da floresta, algo que sempre foi visto, com exceção do ponto de vista dos indígenas, como mato, matagal, uma terra devoluta e selvagem à espera do desenvolvimento”, salienta Lima.
Usar o pulmão, um órgão essencial para a vida das pessoas, contribuiu, afinal, para criar uma certa empatia ecológica na população em geral. Lima observa que a expressão direciona para a importância de se manter a floresta em pé para o bem ambiental de todo o planeta.
A origem da afirmação está dentro da própria construção da imagem da floresta mais impressionante do mundo. “A Amazônia, historicamente, foi constituída nos imaginários sociais como paraíso terrestre”, avalia a bióloga e escritora Cilene Queiroz, autora do livro “A águia solidária e o planeta azul” (LC Books POD, 2026). “Nas últimas décadas, a floresta foi convertida em tema complexo, com vários dilemas a serem resolvidos. As pesquisas abordam a importância do bioma para o equilíbrio hidrológico global, os impactos do desmatamento e as políticas públicas essenciais para a sustentabilidade regional”, enumera.
Ainda assim, a ideia de comparar a floresta com um pulmão tem lastro científico, biológico. Surgiu porque as plantas, em geral, fazem fotossíntese , absorvendo o dióxido de carbono e liberando o oxigênio para a atmosfera. E aqui está o primeiro ponto dessa pegadinha da natureza, uma vez que a própria floresta consome praticamente todo o oxigênio que produz pela respiração das plantas, dos animais, dos fungos e dos bilhões de microrganismos que estão ali. Em outras palavras, o saldo líquido da produção de oxigênio de uma floresta madura como a Amazônia é praticamente zero.
“O papel dos pulmões no corpo é realizar as trocas gasosas, e isso a floresta faz”, pondera Lima, argumentando que o fato de absorver o oxigênio que produz é um detalhe técnico. “O principal é a preocupação que gerou com a sua conservação”, ressalta, já que nenhum outro ecossistema terrestre do mundo conseguiu ter tamanha atenção e afeição mundial quanto a Amazônia. A Floresta Amazônica é o que os cientistas chamam de ambiente de clímax ecológico, uma formação em tal ponto de equilíbrio que tudo produzido é também consumido.
A bióloga Cilene explica que o papel de gerador de oxigênio é executado principalmente pelos fitoplânctons, as microalgas marinhas. “Elas são consideradas o verdadeiro pulmão do mundo, pois são responsáveis pela produção de mais da metade de todo o oxigênio do planeta”, detalha. É um verdadeiro trabalho de formiguinha. Para efeitos de comparação, todos os bosques e florestas da Terra lançam na atmosfera, no total, 24,9% do oxigênio disponível, enquanto as algas marinhas respondem por 54,7%.
Só que é preciso enfatizar que derrubar a floresta afetaria de modo trágico e catastrófico o clima do planeta — como já vem ocorrendo, aliás.
De modo bem simples e direto, os benefícios da Amazônia para o ambiente terrestre estão em quatro frentes. A primeira é que, em pé, ela armazena carbono — um estoque gigantesco, de centenas de bilhões de toneladas — na madeira, nas raízes e no solo. Com o desmatamento ou as queimadas, esse carbono retorna à atmosfera em forma de dióxido de carbono (CO₂), intensificando o aumento da temperatura em todo o planeta.
Outro aspecto importante é o fato de que a floresta é uma espécie de ar-condicionado natural, regulando o clima, principalmente porque as árvores retiram água do solo e, depois, a liberam para a atmosfera, por meio de um fenômeno conhecido como evapotranspiração. Esse vapor ajuda a formar nuvens, resfria a superfície da Terra e influencia a circulação do ar. Cientistas concordam que, sem essa evaporação, as temperaturas no continente sul-americano seriam muito mais altas. E o ar, bem seco.
A Amazônia também produz os rios voadores, nome dado aos ventos que transportam enormes quantidades de vapor d’água do meio da floresta para o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste brasileiros, além de algumas regiões de países vizinhos. Essa umidade atua como catalisadora de boa parte das chuvas, essenciais para a agricultura, para a manutenção dos reservatórios de água utilizados por usinas hidrelétricas e para o abastecimento das cidades.
Por fim, não menos importante, há o fato de que a Amazônia é uma reserva fundamental da biodiversidade terrestre: cerca de 10% das espécies conhecidas do planeta vivem no bioma. A manutenção da floresta é fundamental para a estabilidade dos ecossistemas, além de constituir um arcabouço genético útil para alimentação, medicamentos e diversos desenvolvimentos científicos.
Em resumo, como afirma Cilene, o conjunto de ecossistemas que forma a Amazônia guarda uma variedade impressionante de espécies animais e vegetais, ajuda a regular as chuvas, impede a erosão do solo, realiza a ciclagem de nutrientes, provê alimentos e medicamentos e, também (de forma muito contundente), atua como reguladora do clima em todo o globo terrestre. “Pode ser apelidado de ar-condicionado do mundo, em vez de pulmão do mundo”, sugere.