Efemérides de Rosa

18 de setembro de 2026

Os anos do século 20 terminados com o número seis foram determinantes para a obra de Guimarães Rosa. E, agora, em 2026, temos algumas celebrações: 80 anos da publicação, em 1946, de Sagarana, livro de contos de estreia, responsável por incluir o autor na terceira geração modernista da literatura brasileira; e os 70 anos de Corpo de baile, coletânea de novelas, e Grande sertão: veredas, romance de cavalaria transposto no tempo e no espaço para o interior do Brasil, considerado unanimemente pela crítica como obra maior, duradoura e ímpar.

A

Ainda das obras mais célebres, em 1936, os poemas reunidos em Magma receberam o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras (ABL), mas, por decisão do autor, a obra permaneceu inédita, publicada apenas em 1997, pela editora Nova Fronteira, 30 anos após sua morte.

Como outros grandes criadores, Rosa publicou somente mais dois livros, além dos já citados: Primeiras estórias (1962) e Tutameia: terceiras estórias (1967). A quem perguntasse por que não houve Segundas estórias, respondia: “É para provar a curiosidade do leitor”, revela Leonencio Nossa, autor de alentada biografia do escritor publicada neste ano (João Guimarães Rosa: biografia, Editora Nova Fronteira).

‘Aqui está Cordisburgo’

Foi com a frase acima que Rosa encerrou seu discurso de posse na ABL, citando o município mineiro a 122 quilômetros de Belo Horizonte, onde nasceu, em 27 de junho de 1908.

Foi nessa “cidade do coração”, que também abriga a famosa Gruta do Maquiné, que, antes dos seis anos de idade, junto com as primeiras letras, começou a estudar alguns dos nove ou dez idiomas que chegou a falar fluentemente, além de outras línguas vivas e mortas cujas gramáticas pesquisou por puro deleite, como latim, grego, sânscrito, tupi, hebraico e japonês.

Na venda do pai, Florduardo, teve o contato inicial com a gente sertaneja, seus hábitos, suas crenças e histórias. Os vaqueiros que chegavam à cidade o fascinavam. Só nesses momentos deixava de lado os livros e o tabuleiro de xadrez, que praticou como diletante a vida toda.

Aos oito anos foi morar em Belo Horizonte com o major Luiz Guimarães, avô materno que ajudou a compor a figura do jagunço Riobaldo, personagem-narrador de Grande sertão. Em 1925, matriculou-se na então Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, com apenas 16 anos. Orador da turma na formatura, em 1930, casou-se no mesmo ano com Lígia Cabral Pena, com quem teve duas filhas: Vilma e Agnes.

Seguiu para Itaguara, então distrito de Itaúna, onde alternou o ofício de médico com a escrita de contos, publicados pela revista O Cruzeiro. Após a Revolução Constitucionalista de 1932, na qual atuou ao lado do também médico e futuro presidente da República Juscelino Kubitschek, foi aprovado, em 1934, no concurso público para diplomata do Itamaraty, função que exerceu até o dia de sua morte, em 19 de novembro de 1967, no Rio de Janeiro.

Em 1938, participou, sob pseudônimo, de um concurso da Livraria José Olympio, com um livro anodinamente intitulado Contos, mas a obra foi preterida para publicação. Sorte dos leitores e da literatura brasileira, porque, nos anos da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), da qual participou como cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, Rosa teve a oportunidade de lapidar o texto e transformá-lo em Sagarana, publicado em 1946.

O lendário Sagarana

O título foi comunicado à segunda esposa, Aracy de Carvalho, aos gritos no meio da noite: “Ara! Ara! Achei!”. Como explicou a um crítico, a palavra significava algo como “semelhante a uma lenda”, vindo da junção de saga, palavra de origem alemã que significa “lenda”, com rana, que, na língua tupi, significa “parecido” ou “semelhante”.

“Lá em cima daquela serra, passa boi, passa boiada, passa gente ruim e boa, passa minha namorada”. Com essa epígrafe e nove contos — ambientados entre vaqueiros e fazendas da infância, apoiados em sua experiência de médico do interior profundo, e ligados entre si ao captar aspectos sociais, físicos e psicológicos do sertão mineiro —, a obra espantou a crítica por sua originalidade. Primeiro, ao apresentar animais como personagens em O burrinho pedrês e Conversa de bois. Depois, por uma linguagem que não se inibia em criar neologismos e buscava “dar canto e plumagem às palavras”, de acordo com o próprio autor.

A hora e vez de Augusto Matraga, considerado pelo crítico Antonio Candido como um dos contos mais perfeitos da língua portuguesa, é a síntese de todo o livro e do estilo que Rosa buscava construir. Adaptado para o cinema em 1965, por Roberto Santos, é considerado um dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Nos dez anos seguintes à publicação de Sagarana, Rosa realizou viagens ao Pantanal e ao Norte de Minas, nas quais andava a cavalo e participava da condução de boiadas com lápis e papel na mão, para melhor entender os ambientes naturais e sociais das próximas criações. Relegado por vontade própria a funções burocráticas internas no Itamaraty até o fim da carreira, teve o isolamento necessário para manter-se alheio a modismos, críticas ou incensamentos que o desviassem da meta escolhida: revelar ao Brasil e ao mundo um sertão desconhecido, num momento em que este era tragado pela Marcha para o Oeste de Getúlio Vargas e pelo desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek.

O projeto literário, já com milhares de páginas escritas no início de 1956, tomou a forma de um livro com sete novelas conectadas umas às outras sob o título de Corpo de baile, com personagens como o menino Miguilim, de Campo geral, que se torna o Miguel adulto de Buriti. A que seria a maior das novelas dessa obra, Grande sertão: veredas, desprende-se para destacar o Fausto sertanejo, como o autor explicaria para a imprensa alemã o personagem central Riobaldo, em referência à célebre criação de Goethe.

Novas palavras, nova sintaxe

A revolução na sintaxe produzida — sobretudo pelo único romance de Rosa, Grande sertão: veredas — pega de surpresa um público que jamais enfrentara leitura tão difícil.

Nonada. A palavra que abre o livro, em vez de significar apenas algo sem valor, como está no dicionário, ganha o peso filosófico da reflexão sobre a vastidão e o vazio.

Travessia. A que fecha, para reafirmar que “o real não está no início ou no fim”, continua ecoando como na música homônima de Milton Nascimento.

Entre uma e outra, revela a história de lutas e de amor entre dois jagunços, salvos da homofobia nacional pela revelação final de que Diadorim era uma mulher.

Cenário e realidade sertaneja, enredo, poesia e dimensão metafísica-religiosa. O sertão está em toda a parte e fica dentro da gente. Há o macrossertão geográfico e o microssertão íntimo. No país em que os buritizais viraram montanhas de carvão para exportar commodities, resta a esperança de que a leitura dessa obra e o avanço do conhecimento possam abrir veredas no grande sertão da ignorância.

ESTA REPORTAGEM FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​4 (​SET/OUT) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Herbert Carvalho
Débora Faria
Herbert Carvalho
Débora Faria