Há momentos em que uma sociedade precisa voltar aos seus grandes intérpretes. Tempos de Inteligência Artificial (IA), polarização política, mudanças culturais e profundas transformações tecnológicas exigem mais do que informação; exigem compreensão. E poucos pensadores brasileiros ajudam tanto nessa tarefa quanto Roberto DaMatta.
Ao longo de sua obra, DaMatta procurou responder menos ao que muda e mais ao que permanece. Em um país frequentemente explicado por indicadores econômicos ou crises políticas, sua antropologia revela os códigos invisíveis que organizam a vida cotidiana.
Em Carnavais, malandros e heróis (Zahar, 1979), mostra que o Brasil não pode ser compreendido apenas por suas instituições. É preciso observar seus rituais, festas, hierarquias e símbolos. O carnaval, por exemplo, é uma poderosa dramatização da sociedade brasileira.
Em A casa & a rua, talvez seu livro mais influente, apresenta uma das interpretações mais originais do País. A casa representa o universo da família, da intimidade, da proteção e das relações pessoais. A rua simboliza a lei, a cidadania, o mercado e a impessoalidade. O Brasil vive permanentemente negociando essas duas esferas. Aqui, os vínculos pessoais frequentemente atravessam as instituições, tornando mais tênues as fronteiras entre o público e o privado, entre a política e a barbárie.
Essa chave interpretativa continua atual e ajuda a compreender a política, as organizações e também as redes digitais, nas quais a intimidade invade o espaço público em uma circulação contínua. A tecnologia não eliminou a tensão entre a casa e a rua; apenas lhe deu novas formas.
Outra pergunta que percorre toda a trajetória intelectual de DaMatta é: O que faz o Brasil, Brasil? (Rocco, 1984). Sua resposta nunca esteve em uma suposta essência nacional, mas na maneira singular com que articulamos igualdade e hierarquia, indivíduo e comunidade, lei e relação pessoal.
Ao comparar Brasil e Estados Unidos, destacadamente em Tocquevilleanas: notícias da América (Rocco, 2005), DaMatta construiu um tipo ideal. Os norte-americanos tenderiam a organizar sua vida pública em torno do indivíduo, do contrato e da universalidade das regras; os brasileiros, em torno das relações, dos contextos e das mediações pessoais.
Hoje, a polarização política e a crescente falta de confiança nas instituições mostram que essa oposição se tornou menos rígida. Os Estados Unidos continuam valorizando o contrato e a cidadania, mas também revelam personalismos, identidades políticas e disputas que relativizam a pretensa neutralidade das regras. Não se trata de abandonar DaMatta, mas de reconhecer que suas categorias continuam vivas justamente porque permitem interpretar também as transformações.
É essa a força de sua obra, que nos lembra que sociedades não são movidas apenas por leis, mercados ou tecnologias. São organizadas por rituais, símbolos, narrativas e formas de produzir confiança.
Em uma época fascinada pelos algoritmos, Roberto DaMatta continua nos ensinando que compreender uma sociedade exige algo que nenhuma IA consegue fazer sozinha — interpretar os significados compartilhados pelos seres humanos. Talvez por isso sua pergunta permaneça tão atual quanto quando foi formulada: afinal, o que faz o Brasil continuar sendo Brasil?
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