Dez dias antes do Carnaval, quando em todo o Brasil já havia confete, serpentina e glitter espalhados por todos os cantos, a Câmara de Vereadores de Belo Horizonte teve a “brilhante ideia” de aprovar, em primeiro turno, um projeto de lei que proíbe a presença de crianças em eventos “culturais, carnavalescos, artísticos ou paradas LGBTQIAPN+ e a fins no município”.
No caso de eventos carnavalescos, o texto do projeto de lei nº11/25 é ainda mais específico e determina a fiscalização dos “blocos de rua, blocos afro, escolas de samba, blocos caricatos, corte momesca, palcos oficiais, e todas “ações associadas à cultura permanente do Carnaval”.
Os autores dessa patacoada? Vereador Pablo Almeida, Vereador Sargento Jalyson, Vereador Uner Augusto, Vereador Vile Santos.
E dou uma caixa de glitter furta-cor para quem adivinhar o partido das figuras. Sim, o PL, o Partido Liberal, que de liberal tem bem pouca coisa.
São eles os herdeiros políticos de Nikolas Ferreira, que nasceu politicamente na Câmara de Vereadores de Belo Horizonte e hoje bate suas asinhas retrógradas na nossa egrégia Câmara dos Deputados, sendo o deputado federal mais bem votado em 2022, 1,4 milhão de votos.
Nikolas tem inovado na forma de ser extrema-direita. Ele é um jovem político, conta com um grande caixa de campanha, tem base na Igreja Graça e Paz, fundada por seu pai, o Pastor Edésio de Oliveira, e utiliza as mídias digitais para mobilizar seus eleitores a partir de polêmicas, intrigas, tensionamentos, ódio e extremismo. A estratégia deu certo, já que os algoritmos das plataformas digitais destacam exatamente esse tipo de conteúdo. Nikolas decifrou o modus operandi dessas plataformas, e com financiamento político, tornou-se o deputado federal de maior sucesso eleitoral do país.
A partir desse modelo de campanha e fazer político, outros políticos de direita têm tentado repetir a mesma fórmula, ou seja, usar o “absurdo” para chamar atenção e criar falsas controvérsias para, dessa forma, acionar suas bases eleitorais e acumularem likes e notoriedade digital, o que aqui estou chamando de Efeito Nikolas.
A demonização do carnaval, presente no projeto de lei apresentado pelos quatro vereadores belo-horizontinos e aprovado em primeiro turno por 24 votos, revela como setores extremistas operam na criação de um falso “nós contra eles”, em um estrategema para criminalizar a maior festa da cultura brasileira. E, claro, conseguiram o que queriam, atenção.
No caso de BH, o momento histórico foi especialmente “oportuno” para que esses vereadores, utoproclamados “defensores da moral e grandes cidadãos de bem” criassem, alucidamente, seus novos inimigos imaginários, os terríveis carnavalescos que, além de jogar espuma uns nos outros, ainda levam criancinhas indefesas para fazer o mesmo. Isso porque nas duas últimas décadas, o Carnaval de Belo Horizonte cresceu de forma exponencial, consolidando-se como um dos maiores do Brasil, levando 6,5 milhões de pessoas, a mais de 600 blocos de rua cadastros e ocupando intensamente o espaço da cidade. Esse processo ganha novo fôlego a partir de 2009, com um movimento da esquerda festiva de ocupação da Praça da Estação, chamado Praia da Estação.
Todo esse contexto serviu como um prato cheio para que extremistas inventassem uma falsa controvérsia e, justamente no momento em que a cidade efervesce e a direita moralista fica escanteada, encontrassem uma forma de reaparecer publicamente por meio de um projeto flagrantemente inconstitucional, embalado pela velha desculpa de sempre, a defesa da família, dos bons costumes e das criancinhas.
Só faltou ler o Estatuto da Criança e do Adolescente, que estabelece ser “dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
Curiosamente, projetos para enfrentar a realidade de crianças em situação de rua, sem moradia, sem saneamento básico, não aparecem.
Mas, claro… as imorais bolhas de sabão? “Tem que ver isso aí”.
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