Artigo

Guerras Eternas

Paulo Peres
é cientista político, especialista em análise institucional e professor no departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
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Paulo Peres
é cientista político, especialista em análise institucional e professor no departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Desde que assumiu a presidência dos EUA pela segunda vez, Donald Trump não fez outra coisa senão quebrar a sua promessa de campanha: pôr fim às guerras eternas promovidas pelo país nos quatro cantos do planeta. Menos de duas semanas depois de empossado autorizou ataques aéreos na Somália; em março bombardeou o Iraque; de março a maio lançou ataques aéreos e navais contra o Iêmen; em junho atacou várias localidades no Irã, inclusive a sua capital, destruindo partes da infraestrutura e assassinando diversas lideranças militares e civis naquela que já ficou conhecida como a Guerra dos 12 dias. A partir de setembro mobilizou uma força naval massiva no Caribe e no Pacífico Ocidental, realizando ataques aéreos contra várias embarcações locais. Em dezembro, deu início a ataques na Síria, que ainda persistem, além de bombardeios na Nigéria.

Logo no início de janeiro de 2026 atacou várias posições na Venezuela, inclusive em Caracas, numa operação que matou dezenas de pessoas e que teve como seu objetivo principal sequestrar o presidente do país. Nesse meio tempo, lançou a “guerra das tarifas”, fez ameaças à Colômbia e ao Canadá, apertou o cerco à Cuba, faz pressões para anexar a Groenlândia e despudoradas tentativas de interferência em diversos governos, inclusive o brasileiro. Agora, no final de fevereiro e início de março, em conjunto com as forças israelenses, voltou a atacar o Irã —um confronto que já era esperado e cujas consequências podem ser globais e catastróficas em vários sentidos.

Desconsideremos, pois, as desculpas esfarrapadas: não se trata de evitar uma suposta produção de armas nucleares pelo “regime dos aiatolás”, não há altruísmo democrático e tampouco luta judaico-cristã pela “libertação do povo iraniano oprimido pela tirania teocrática islâmica”. O que está em jogo é a contenção de uma ordem multipolar emergente que avança com rapidez maior do que se esperava. Essa ordem, por seu turno, é uma condição indispensável para a consolidação da China como potência econômica, tecnológica e militar num contexto alternativo ao imperialismo estadunidense, envolvendo parcerias estratégicas de ganhos mútuos e um modelo de desenvolvimento potencialmente mais humanista.

Nesse jogo, o Irã ocupa uma posição crucial, além de estar situado numa região que, por si própria, é altamente estratégica para os interesses mundiais. Na Ásia Ocidental [Oriente Médio, na denominação colonial] repousam formidáveis depósitos de energia [petróleo e gás] que contribuem decisivamente para as economias de todo o planeta. Em números aproximados, e que costumam variar de acordo com as fontes e os períodos de coleta dos dados, entre 40% e 53% do petróleo bruto importado pela China vem dessa região via Estreito de Ormuz —um gargalo controlado pelo Irã e pelo qual trafega cerca de 20% do petróleo escoado por via marítima no mundo. Algo próximo de 90% do petróleo exportado pelo Irã segue para a China, que, por sua vez, recebe dos iranianos cerca de 12% de suas importações totais do produto. Assim, além de assegurar a hegemonia do dólar por meio do comércio internacional do petróleo, instalar um governo pró-ocidental no Irã significaria a perda de controle, por parte da China, sobre um ponto logístico e um recurso fundamental para o seu desenvolvimento.

O Irã também ocupa uma posição geoestratégica central nos corredores comerciais desenhados pela China visando à ordem multipolar, com pontos de conexão econômica, política e cultural ligando a Ásia ao resto do mundo. Sua posição é igualmente estratégica do ponto de vista militar, pois seu controle tem impactos diretos e relevantes para a defesa tanto da Rússia como da China, sem contar a sua sensível contribuição para a sustentabilidade do “eixo da resistência” regional contra a hegemonia dos EUA por intermédio de Israel.

Portanto, a guerra ao Irã faz parte da guerra contra a China, a Rússia, o Brics+ e o Sul Global como um todo. Esta é a guerra que as elites ocidentais puseram em curso para manter a sua dominação predatória —e, se confirmadas as recentes revelações dos “Arquivos Epstein”, pedófila, canibalesca e satanista.

Para conseguir tal objetivo, as forças lideradas pelos EUA seguem a básica doutrina da sequência estratégica, a saber, atacar inimigos intermediários, um por vez, antes de atacar o inimigo principal, no caso, a China. Desde o início, o governo Trump procura impor uma divisão do trabalho nessa luta, chamando os europeus a assumirem a frente de batalha contra a Rússia, enquanto os EUA sinalizam falsamente a intenção de selar um acordo de paz; assim, os seus recursos militares podem ser concentrados no insulamento da América Latina contra a influência chinesa e, principalmente, na consolidação da hegemonia de Israel na Ásia Ocidental.

Neste último caso, o Irã sempre foi a peça-chave de uma estratégia que envolve quatro etapas: (1) isolamento do país [embargos políticos e econômicos]; (2) estímulo a conflitos internos por meio da radicalização de polarizações religiosas, étnicas e políticas; (3) uma vez que surjam protestos violentos, revoltas, rebeliões ou guerra civil, realiza-se uma intervenção militar externa, com bombardeios, ataques de “decapitação” das lideranças políticas e militares e, conforme o caso, com a ocupação de território; por fim, (4) a imposição de uma nova situação política e social ao país.

Como poderia ser essa nova situação? A preferida é a “mudança de regime”, ou seja, a formação de um governo local com “lideranças fantoches” pró-ocidentais —como na da Jordânia, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Kuwait. Não sendo isso possível, pode ocorrer uma “libianização”, que consiste na instalação do caos social permanente com um Estado falido, mas com regiões estratégicas sob o comando de militares ocidentais; ou, ainda, uma “sirianização”, que corresponde ao estabelecimento de um governo autoritário alinhado com os interesses ocidentais.

Para ser mais direto: o Irã enfrenta uma guerra existencial contra o seu Estado-civilização, a China e a Rússia enfrentam uma guerra contra a sua ascensão como potências mundiais, os demais membros do Brics+ enfrentam uma guerra contra a ordem multipolar, o Sul Global enfrenta uma guerra contra o seu desenvolvimento soberano e o mundo enfrenta o período mais instável e perigoso da história da humanidade.

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