Artigo

O fenômeno Itamar Vieira Júnior

Leandro Garcia
é professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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Leandro Garcia
é professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Há muito me organizava para escrever a respeito de Itamar Vieira Júnior, considerado atualmente o mais proeminente e destacado autor nas letras nacionais. Dono de um estilo híbrido e de uma visão cortante da realidade político-social brasileira, Itamar tem sido visto como aquele que ressignificou o sertão e o regionalismo na literatura brasileira contemporânea.

Nascido em Salvador, na Bahia, em 1979, de família bem humilde, residiu em Pernambuco na adolescência e, mais tarde, mudou-se para São Luís, no Maranhão. De volta à Bahia, fez toda a sua formação acadêmica — graduação, mestrado e doutorado em Geografia — na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Desenvolveu sua tese doutoral na área dos Estudos Étnicos e Africanos, quando pesquisou a formação das comunidades quilombolas na Chapada Diamantina, assunto aproveitado e semantizado na sua obra mais conhecida, o romance Torto arado.

Com profunda sensibilidade social e um aguçado olhar crítico sobre a formação — sempre injusta! — da sociedade brasileira, principalmente dos interiores do País, Itamar soube unir realidade e ficção. Além disso, cria e manipula a ficção não como mentira ou invenção literária, mas como uma nova forma de verdade, até mais perigosa do que a própria realidade em si. Sua abordagem do sertão baiano é interessante e rica, levando os críticos a afirmarem que o autor reinventou o sertão na literatura brasileira.

Já se falou muito, e concordo plenamente, que a literatura brasileira nunca abandonou o regionalismo como espaço criativo de representação e de denúncia das agruras das nossas vidas social e política. Em sua obra, que cresce com imenso vigor, Itamar ressignifica e repensa o sertão e o seu lugar no Brasil de hoje: não mais aquele sertão corroído dos romances nordestinos da década de 1930, mas um sertão atual, problemático, que resiste, distante apenas na geografia e que se interliga ao mundo pelo celular e pela internet.

Itamar já publicou Dias (Caramurê, 2012), A oração do carrasco (Mondrongo, 2017), Doramar ou a odisseia: histórias (Todavia, 2021), Torto arado (Todavia, 2019), Salvar o fogo (Todavia, 2023) e Coração sem medo (Todavia, 2025), sendo que os três últimos formam a Trilogia da Terra. Torto arado já ultrapassou a incrível marca de 1 milhão de exemplares vendidos, sobre o qual passo a refletir. Seu enredo narra a história trágica e complexa das irmãs Bibiana e Belonísia, de origem muito pobre e marcadas por um acidente de infância, o que aumenta a exclusão social e humana, levando-as a viver em condições de trabalho escravo contemporâneo numa fazenda na Chapada Diamantina.

Nesse espaço e tempo, Bibiana e Belonísia metaforizam muito do que entendemos do Brasil e do seu processo de segregação e produção da miséria. Mas também há todo um esforço de resistência das irmãs, de luta pela sobrevivência e de busca incessante por uma força para viver, inclusive, na vivência e prática da fé recebida dos seus antepassados. Nessa perspectiva, Torto arado apresenta particularidades religiosas da região, como a prática do jarê — religião de matriz africana ainda pouco conhecida e que dialoga com certas tradições próprias do candomblé e da umbanda, aspecto importante e fundamental na narrativa.

Em termos de crítica e de historiografia literárias, ainda é cedo para sabermos o real lugar que Itamar ocupa na literatura brasileira. Lembro sempre do conselho de Álvaro Lins — compartilhado por Alceu Amoroso Lima — segundo o qual são necessários uns 20 ou 30 anos para classificarmos de vez a obra de um escritor, bem como para definir o seu papel num contexto literário. Longo ou não esse período, o fato é que Itamar ainda é muito analisado mais pela perspectiva do fenômeno literário, pois é fato realmente digno de se considerar que em tão pouco tempo tenha vendido tanto, seguindo aclamado pela crítica, sempre inflexível e avessa aos best-sellers. Mas não tenhamos dúvida: a escrita de Itamar Vieira Júnior é séria e tem qualidade — e veio para ficar e marcar a literatura brasileira.

ESTE ARTIGO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #490 (JAN/FEV) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

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