Como consequência involuntária das sanções impostas pela Europa e pelos Estados Unidos à Rússia ao longo da última década, a moeda chinesa, o iuan, oficialmente denominada renminbi (RMB), ou a “moeda do povo”, encontrou um atalho para testar, em grande estilo — e sem se deslocar em campo —, os meios de se tornar uma moeda internacional. Um feito notável para um país que tem a conta de capital fechada.
O fato é que a gigante Rússia passou a usar o renminbi de forma quase exclusiva em suas trocas com a China, o seu maior parceiro comercial. De modo mais amplo, atualmente mais de 50% das transações russas com o exterior são realizadas em RMB. Não custa lembrar que a Rússia é o país com o maior território do mundo e uma das dez maiores economias do planeta, além de ser uma nação com forte influência política regional e capacidade de projetar força militar para além de sua região. E, hoje, a Rússia depende da moeda chinesa para fazer seu comércio internacional.
Recentemente, o banco central da Rússia começou a exigir que os bancos comerciais de seu país mantenham reservas obrigatórias em RMB para evitar a escassez da moeda chinesa no mercado de câmbio, além de conter a concessão excessiva de crédito inflacionário. Caso isso se confirme, teremos, na prática, a transferência de parte da política monetária russa para Pequim.
Contudo, se a Rússia entregou-se à China para sobreviver, não há o que dizer de países que se entregam à China para, voluntariamente, para se enfraquecer como nação. São vários exemplos de países democráticos tornando-se fazendas da China, montadores de automóveis da China, indiferentes ao regime político-econômico fechado do país.
Agora, a “renminbização” da Rússia envolve um país de tamanho e relevância que dolarização nenhuma jamais chegou perto. O país mais importante dominado pelo dólar até hoje foi a Argentina, que ainda é bem relevante na América Latina, mas, inclusive por causa das suas políticas — entre erráticas e esdrúxulas —, tem decaído internacionalmente.
Muito antes de iniciar sua jornada como moeda internacional, a moeda do povo foi uma criação sub-regional na China, em um percurso bastante peculiar. Moeda revolucionária, o renminbi teve origem antes mesmo da fundação da República Popular da China (RPC), em 1949. Foi criada para ser usada nas partes do país controladas pelo Partido Comunista durante a guerra civil. A partir de 1º de outubro daquele mesmo ano, foram estatizados todos os bancos do país e o RMB virou a moeda oficial.
Uma outra ironia sobre as voltas que o mundo dá é que, lá, naquele princípio de República Popular, as autoridades de Moscou esnobaram bastante a China. Quando Mao Zedong foi a Moscou, entre o fim de 1949 e o início de 1950, o líder soviético Stalin deu memoráveis chás de cadeira no líder chinês, entre outras descortesias. Hoje, o tratamento que o gigante asiático está oferecendo a Moscou é muito mais cordial e aproveita a asfixia imposta pelo Atlântico Norte à Rússia.
A expansão do uso do RMB para além das fronteiras chinesas é parte de um período extremamente favorável à expansão da China mundo afora, contando, inclusive, com as caneladas ideológicas que o Brics tenta dar no dólar. A China não gosta de tocar a bola de primeira; é mestre em ficar na banheira esperando a bola perdida, ou o passe perfeito do alinhado deslumbrado, ou o cálculo mesquinho do adversário desinformado. Inatividade estratégica é o nome que se dá no futebol à arte de jogar parado e fazer gol. O peso da China vai crescendo como consequência involuntária de ações tomadas de forma unilateral, abrupta, ingênua e arrogante por outros países, incluindo os Estados Unidos.
Em grande parte, tem bastado à China receber a bola e fazer o gol, usando os erros de países que acabam cooperando com sua ascensão e a ambição dos iludidos com a vantagem estratégica de um alinhamento automático. Ninguém sabe no que vai dar tal campeonato!
Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.