Orides de Lourdes Teixeira Fontela — ou simplesmente, Orides Fontela — nasceu em São João da Boa Vista, em 1940, e faleceu em Campos do Jordão, em 1998, vítima de tuberculose. Sua obra poética é reconhecida por especialistas e críticos literários como uma das mais significativas da poesia brasileira na segunda metade do século 20, sendo objeto de investigação crítica dentro e fora do Brasil. De personalidade difícil, Orides despertou ódio e paixão em muitos que a conheceram. Profundamente marcada pelos sintomas da depressão, era de difícil contato, vivendo num sintomático isolamento pessoal e social, reservando para poucos o seu círculo de amizades e o convívio mais próximo.
Produziu uma poesia objetiva, direta e cortante, sem qualquer tipo de adorno e penduricalho poético nos seus versos, como podemos observar em Coruja:
Voo onde ninguém mais — vivo em luz mínima
ouço o mínimo arfar — farejo o sangue
e capturo
a presa
em pleno escuro.
É direta e certeira, não titubeia esperando grandes interpretações do seu leitor. Projeta o seu verso para a frente e não se preocupa se alguém compreenderá! Lembra-me muito João Cabral de Melo Neto — aliás, de quem Orides era uma leitora entusiasta. Vejam o poema a seguir, sem título.
A flor abriu-se.
A flor mostrou-se em sua inteireza: tragamos, ouro, incenso, mirra!
Um terceto que sempre me desconcerta ao lê-lo. E fica apenas nisso.
Injustamente, Orides Fontela ainda é desconhecida no Brasil e pouquíssimo estudada nos cursos de graduação e de pós da área de Letras, injustiça igualmente sofrida por tantos bons escritores, como Murilo Mendes, Jorge de Lima, Adalgisa Nery, Cornélio Penna, Lúcio Cardoso e tantos outros. Numa direção contrária, Orides é traduzida e publicada no exterior, o que considero formidável. Em francês, Trèfle (1998) e Rosace (2000), traduzidos por Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas, lançados pela editora L’Harmattan, de Paris. Em espanhol, Poesia completa (2018), traduzida por Joan Navarro, publicada pela Edicions de 1984, de Barcelona. Em inglês, One Impossible Step: Selected Poems (2023), traduzido por Chris Daniels e publicado pela Nightboat Books, dos Estados Unidos.
No Brasil, algumas coletâneas de sua poesia merecem um justo destaque. Refiro-me a Poesia reunida (1969–1996), publicada pela Cosac & Naify em 2006; e também Poesia completa, lançada pela Hedra, em 2015. Tais publicações garantem um certo fôlego e fazem a sua poesia circular, revigorando a sua obra e o seu legado na literatura brasileira.
E a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2026? Acertou, em cheio na escolha de Orides como a autora homenageada. Pelo menos seu nome tem sido, nos últimos meses, muito buscado nas redes sociais e em sites de busca, bem como outros eventos paralelos à Flip procuraram privilegiar a pessoa e a obra dessa poetisa singular. Afinal, quem é Orides Fontela? Infelizmente, como já denunciei nesta coluna em outras ocasiões, na atual lógica da Flip (e de tantas outras feiras literárias!), sobre o que menos se falou foi… Orides Fontela!
Discute-se a respeito de tudo nesses eventos, com especial destaque para política, economia, guerras, costumes e, principalmente, temas das chamadas causas identitárias. Esse cenário já virou uma espécie de mantra em eventos dessa natureza. Entretanto, a julgar pela programação oficial do evento, Orides Fontela só apareceu mesmo na mesa de abertura, e eu considero isso uma verdadeira lástima!
Todavia, algo foi feito! Pelo menos no imaginário de muitos que nem sequer sabiam da sua existência, Orides passou a ocupar um certo espaço, no mínimo o da curiosidade. Que saibamos aproveitar essa oportunidade para lê-la e conhecê-la mais profundamente, pois estamos diante de um grande nome da nossa literatura.
Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.