Artigo

Z’s, One Piece e o golpismo plataformizado

Helga de Almeida
é doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), professora na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política (PPGCP) da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.
Romário Lins
é graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) e membro do Observa, o Observatório de Conflitos na Internet da Universidade Federal do ABC (UFABC)
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Helga de Almeida
é doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), professora na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política (PPGCP) da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Integra o grupo de especialistas que escrevem às quartas-feiras na coluna “Ciência Política” da PB.
Romário Lins
é graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) e membro do Observa, o Observatório de Conflitos na Internet da Universidade Federal do ABC (UFABC)

Neste novembro de 2025 o México viu grandes movimentos ocuparem as ruas de sua capital. Se concentrando na Praça da Constituição, no centro da Cidade do México, milhares de jovens da geração Z (aqueles nascidos entre 1997 e 2012) manifestaram-se pedindo mais segurança pública e o famigerado “menos corrupção”.

A inspiração dos mexicanos foi a juventude nepalesa. Essa foi para as ruas do Nepal e pressionou o presidente comunista nepalês Sharma Oli a renunciar, o que aconteceu em 9 de setembro de 2025. O repertório de ação dos nepaleses se baseou na violência e gerou, a partir dos confrontos, 77 pessoas mortas e 2000 feridas. Inclusive, ao incendiarem a residência de um dos ex-primeiros ministros, Jhalanath Khanal, o grupo queimou viva e matou a ex-primeira dama Rajyalaxmi Chitrakar. 

Na mesma toada, em outros países como Madagascar, Marrocos, Paraguai e Peru, protestos tem acontecido e algumas semelhanças são percebidas. A primeira é que são grupos de jovens da geração Z e que se organizam e são impulsionados a partir de plataformas de mídias sociais, como Discord e X. Além disso, eles e elas não têm lideranças, nem pauta unificada e se utilizam de símbolos da cultura pop para se identificar. 

No México e no Nepal a série One Piece foi utilizada em grande medida como símbolo revolucionário juvenil. 

Inclusive, One Piece pode ser visto por muitos apenas como uma série animada ou um mangá  que retrata um bando de piratas em busca de um tesouro, rodeados de aventuras. Mas a coisa não é bem assim.

A obra escrita por Eiichiro Oda tem uma profundidade política, demonstrando de forma lúdica problemas reais que ocorreram ou ocorrem nas sociedades. Há críticas às estruturas de poder, autoritarismo e desigualdade. Nesse cenário, surge a Jolly Roger do bando dos chapéus de palha, que representa liberdade, amizade e resistência contra a opressão.

A obra ainda aborda a dualidade interpretativa em torno da moral, do certo e do errado. Dessa forma, o público pode se deparar com piratas (não todos) que desempenham papeis benéficos para a população, participando de revoltas, derrubando governos autoritários, libertando indivíduos da escravidão, impedindo genocídios. Por outro lado, aquilo que deveria representar o “lado correto”, as instituições de estado, revela uma Marinha que, embora conte com membros dissidentes, mostra-se conivente com os abusos que o Governo Mundial, personificado na figura dos Goroseis, instâncias centrais de poder.

No contexto da história surge o símbolo central, e com significante revolucionário e libertário, a Jolly Roger dos Chapéus de Palha, que é a bandeira pirata (caveira branca e ossos cruzados em um pano preto) com um chapéu de palha e que é usada em camisas, colares, etc., pelos fãs da obra e agora pelos “revolucionários coloridos” da geração Z. 

Se por um lado os protestos dos Z’s tem sua razão, já que há um anseio por menos desigualdade social. Por outro lado, estão levando às ruas movimentos disformes, “descentralizados”, sem líderes e sem pautas claras, o que pode gerar morte, manipulação e guerra civis. 

No caso mexicano, por exemplo, foram detectados bots estrangeiros replicando os chamamentos para os protestos. E aí há que se perguntar, de quem é o interesse de desestabilizar democracias no sul global? Quem lucra com guerras civis? Quem ganha poder manipulando grupos jovens que se concentram em fóruns anônimos para decidir o futuro de uma nação?E não são exageros essas perguntas, no Nepal, por exemplo, a primeira-ministra empossada, Sushila Karki, foi eleita como líder a partir de uma votação feita pelos manifestantes na plataforma Discord.

Por isso o uso de símbolos da cultura pop para atrair a juventude “indignada”, a disformia do movimento, a não-pauta e a performance global tão parecida, em países tão distantes, nos ligam um  alerta e dão indícios de que há mais nesses movimentos do que aquilo que se apresenta de forma visível.

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